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24 de julho de 1911: a "descoberta" revisitada
Em 24 de julho de 1911, o professor de Yale Hiram Bingham
III alcançou as ruínas guiado pelo camponês Melchor Arteaga. Bingham integrava
uma expedição voltada a localizar Vilcabamba, o último reduto da resistência
inca. O sítio não estava deserto: famílias camponesas locais, como os Richarte
e os Álvarez, cultivavam parte dos terraços agrícolas (HEANEY, 2010).
A historiografia contemporânea prefere falar em divulgação
científica internacional do sítio, e não em descoberta. Três evidências
sustentam essa revisão:
- Moradores
locais já conheciam e utilizavam a área;
- Há
registros de uma inscrição datada de 1902 atribuída ao agricultor Agustín
Lizárraga;
- Há
indícios consistentes de visitantes anteriores, como o empresário alemão
Augusto Berns, que explorou a região décadas antes.
O mérito de Bingham foi outro: ele documentou o sítio de
forma sistemática, mobilizou financiamento e expôs o achado à comunidade
internacional na edição de abril de 1913 da National Geographic Magazine
(BINGHAM, 1913).
Hipóteses que o tempo corrigiu
Bingham defendeu, ao longo da vida, interpretações que
pesquisas posteriores revisaram:
|
Interpretação clássica |
Revisão contemporânea |
|
Machu Picchu seria Vilcabamba, o refúgio final dos
incas |
A Vilcabamba histórica foi identificada em Espíritu
Pampa, em área de selva mais a oeste (SAVOY, 1970) |
|
O sítio seria Tampu Tocco, o berço mítico da
dinastia inca |
Inexistência de evidências arqueológicas que sustentem
essa correlação |
|
Um santuário de "Virgens do Sol", sob o
pressuposto de que os esqueletos eram quase todos femininos |
A reavaliação osteológica moderna revelou proporção
equilibrada entre homens e mulheres, condizente com uma população de
servidores permanentes (VERANO, 2003) |
|
Uma "cidade perdida", isolada do restante do
império |
Uma propriedade real (royal estate) de
Pachacuti, plenamente integrada à malha viária e administrativa do
Tawantinsuyu (ROWE, 1990) |
O giro documental: Rowe e as fontes do século XVI
Um ponto de inflexão decisivo ocorreu em 1990. O historiador
John Rowe cruzou documentos administrativos coloniais do século XVI e
demonstrou que o território de Picchu constava nominalmente como propriedade
pessoal do monarca Pachacuti. Essa leitura retirou o debate da chave da
"cidade misteriosa" e o posicionou no campo da economia política
imperial: o complexo funcionava como royal estate, mantido por
comunidades de yanakuna, aqllakuna e mitmaqkuna (ROWE,
1990; BURGER; SALAZAR, 2004).
A arqueologia no laboratório
As pesquisas recentes combinam o trabalho de campo
tradicional com métodos físico-químicos:
- Datação
por radiocarbono (AMS): situa o início da ocupação por volta de 1420
d.C., cerca de duas a três décadas antes do que apontavam as cronologias
fundadas em crônicas coloniais, o que evidencia que o sítio já existia nas
etapas iniciais da expansão imperial (BURGER et al., 2021).
- Análises
bioarqueológicas: o exame dos remanescentes humanos recuperados em
1912 atesta uma população heterogênea, com origens geográficas dispersas
pelo território andino, consistente com a presença de servidores
transferidos (mitmaqkuna e yanakuna) (BURGER; SALAZAR, 2004;
VERANO, 2003).
- Engenharia
e geologia: análises dos sistemas de drenagem, alicerces e do
substrato rochoso revelam as soluções técnicas que permitiram aos terraços
suportar séculos de chuvas tropicais torrenciais (WRIGHT; VALENCIA
ZEGARRA, 2000).
Patrimônio, restituição e disputa de memória
A história de Machu Picchu também envolve disputas políticas
e soberania cultural. Milhares de artefatos recolhidos e levados a Yale entre
1912 e 1915 foram tema de longa disputa diplomática e jurídica entre o Estado
peruano e a universidade norte-americana. As peças foram repatriadas em etapas
a partir de 2011, passando a ser salvaguardadas e expostas em Cusco. O processo
consolidou debates éticos cruciais sobre quem detém a legitimidade para
salvaguardar e interpretar os bens culturais andinos (HEANEY, 2010).
Declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1983, o sítio
enfrenta as pressões do turismo massivo: manter a integridade de uma estrutura
planejada para centenas de ocupantes frente à circulação de milhares de
visitantes diários. Hoje, a conservação preventiva, a contenção de encostas e a
escuta das comunidades locais constituem eixos centrais da gestão patrimonial.
Uma lição de método
A trajetória de Machu Picchu evidencia que a
"redescoberta" arqueológica não é um evento isolado, mas uma
construção histórica contínua. Cada geração reinterroga as ruínas sob novas
bases documentais e instrumentais. O foco contemporâneo deslocou-se do mítico
"onde fica a cidade perdida?" para perguntas sociológicas precisas:
"quem viveu, trabalhou e foi sepultado ali, e sob quais estruturas de
poder?".
No próximo artigo da série, analisaremos a arte e a
arquitetura inca, seus princípios de proporcionalidade, o trabalho de
cantaria imperial e o papel simbólico dos têxteis.
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e Arquitetura Inca: Expressões de uma Civilização Monumental
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Referências Bibliográficas
BINGHAM, Hiram. In the Wonderland of Peru: the work
accomplished by the Peruvian Expedition of 1912, under the auspices of Yale
University and the National Geographic Society. The National Geographic
Magazine, Washington, D.C., v. 24, n. 4, p. 387-573, 1913.
BURGER, Richard L. et al. New AMS dates for Machu Picchu:
results and implications. Antiquity, Cambridge, v. 95, n. 383, p.
1165-1179, 2021. DOI: https://doi.org/10.15184/aqy.2021.31.
BURGER, Richard L.; SALAZAR, Lucy C. (ed.). Machu Picchu:
unveiling the mystery of the Incas. New Haven: Yale University Press, 2004.
HEANEY, Christopher. Cradle of gold: the story of
Hiram Bingham, a real-life Indiana Jones, and the search for Machu Picchu. New
York: Palgrave Macmillan, 2010.
ROWE, John H. Machu Picchu a la luz de documentos del siglo
XVI. Histórica, Lima, v. 14, n. 1, p. 139-154, 1990.
SAVOY, Gene. Antisuyo: the search for the lost cities
of the Amazon. New York: Simon & Schuster, 1970.
VERANO, John W. Human skeletal remains from Machu Picchu: a
reexamination of the Yale Peabody Museum's collections. In: BURGER,
Richard L.; SALAZAR, Lucy C. (ed.). The 1912 Yale Peruvian Scientific
Expedition collections from Machu Picchu: human and animal remains. New
Haven: Yale University Publications in Anthropology, 2003. n. 85, p. 65-117.
WRIGHT, Kenneth R.; VALENCIA ZEGARRA, Alfredo. Machu
Picchu: a civil engineering marvel. Reston: ASCE Press, 2000.

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