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sábado, 21 de junho de 2025

Releituras da Escultura Romana: Estética, Política e Identidade no Século XXI

A escultura romana, embora originária de um passado remoto, continua a exercer profunda influência sobre os modos como as sociedades modernas constroem e interpretam imagens de poder, identidade e estética pública. No século XXI, essa herança escultórica não é apenas celebrada em museus e espaços urbanos, mas também submetida a releituras críticas que desafiam noções fixas de tradição e autoridade visual. O presente texto busca refletir sobre os usos contemporâneos da escultura romana, suas reinterpretações artísticas e os debates culturais e políticos que ela suscita.

O Clássico como Linguagem do Prestígio

A tradição clássica permanece viva em monumentos oficiais, bustos institucionais e edifícios estatais ao redor do mundo. Elementos como colunas, frontões e esculturas em mármore evocam deliberadamente a Roma Antiga para conferir aos espaços uma aura de permanência, ordem e dignidade. Conforme analisa Tonio Hölscher (2004), a escultura romana foi sempre uma arte do poder — uma forma de representar não apenas indivíduos, mas sistemas de autoridade. Sua permanência em projetos arquitetônicos modernos, portanto, deve ser entendida como uma escolha simbólica e política.

Escultura Romana na Arte Contemporânea

Artistas contemporâneos têm resgatado, desconstruído e recontextualizado formas romanas em suas obras. Um exemplo emblemático é o do artista britânico Yinka Shonibare, que utiliza bustos e poses clássicas em esculturas cobertas por tecidos africanos, provocando tensões entre tradição europeia e identidades pós-coloniais. Essas intervenções questionam quem tem o direito de herdar o “clássico” e como ele pode ser ressignificado a partir de outras perspectivas culturais (HALL, 2015).

Patrimônio, Colonialismo e Descolonização Visual

A crescente discussão sobre o retorno de peças arqueológicas aos países de origem também atinge diretamente a escultura romana. Muitas obras clássicas foram adquiridas — ou apropriadas — durante o colonialismo europeu, estando hoje em grandes museus do Ocidente. Debates sobre repatriação, acesso e pertencimento revelam que as esculturas romanas não são apenas objetos artísticos, mas símbolos disputados de memória histórica e dominação cultural (MACDONALD, 2016).

Tecnologias Digitais e Inclusão no Patrimônio Antigo

Com o avanço das tecnologias de escaneamento 3D e realidade aumentada, projetos como o “Rome Reborn” e o “Scan the World” estão permitindo que públicos diversos acessem, explorem e até imprimam réplicas digitais de esculturas romanas. Essa democratização do patrimônio desafia as fronteiras tradicionais entre centro e periferia, museu e comunidade, permitindo novos tipos de envolvimento com a arte antiga (FRISCHER, 2020).

Conclusão

A escultura romana, longe de ser um relicário estático da Antiguidade, continua a desempenhar um papel vibrante e multifacetado na cultura contemporânea. Seja como linguagem estética nos espaços institucionais, seja como objeto de crítica em práticas artísticas e debates decoloniais, sua presença estimula reflexões sobre poder, pertencimento e identidade. As novas tecnologias e abordagens críticas estão transformando a forma como vemos, interpretamos e nos relacionamos com esse legado, reforçando a escultura romana como um campo aberto de disputas e possibilidades.

Referências Bibliográficas

FRISCHER, Bernard. Rome Reborn: The Virtual Reality Reconstruction of Ancient Rome. Digital Applications in Archaeology and Cultural Heritage, 2020.

HALL, Stuart. Cultural Identity and Diaspora. In: RUTHERFORD, Jonathan (org.). Identity: Community, Culture, Difference. London: Lawrence & Wishart, 2015.

HÖLSCHER, Tonio. The Language of Images in Roman Art. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

MACDONALD, Sharon. Memorylands: Heritage and Identity in Europe Today. London: Routledge, 2016.