Radio Evangélica

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domingo, 21 de setembro de 2025

A Revolução de 1952 e o Nascimento do Egito Moderno: Da Monarquia à República

A história do Egito é um tapeçaria rica e complexa, pontuada por momentos de profunda transformação. Entre esses, destaca-se a Revolução Egípcia de 1952, um evento sísmico que não apenas derrubou uma monarquia centenária, mas também pavimentou o caminho para o Egito moderno como uma república influente no cenário global. Este movimento não foi um mero golpe de estado; foi uma revolta nascida de um caldeirão de insatisfação popular, nacionalismo fervente e anseio por soberania.

O Contexto de Efervescência

Para compreender a revolução, é crucial analisar o cenário egípcio pós-Segunda Guerra Mundial. Embora o Egito tivesse obtido uma independência nominal do Reino Unido em 1922, a presença militar britânica e sua influência política e econômica persistiram, especialmente na estratégica Zona do Canal de Suez. Esta tutela estrangeira alimentava um ressentimento profundo entre a população e as elites nacionalistas.

Internamente, o Reino do Egito, sob a liderança do Rei Farouk I, era percebido como corrupto, ineficaz e desconectado das necessidades de seu povo. A vasta maioria da população vivia na pobreza, enquanto uma pequena elite, muitas vezes ligada à monarquia ou aos interesses britânicos, desfrutava de grande riqueza. A estrutura fundiária era extremamente desigual, com a maior parte da terra cultivável concentrada nas mãos de poucos latifundiários.

A humilhante derrota egípcia na Guerra Árabe-Israelense de 1948-1949 foi a gota d'água. Oficiais militares jovens e desiludidos, que haviam testemunhado a desorganização e a corrupção que minavam seus esforços bélicos, começaram a se organizar em segredo. Este grupo, conhecido como Movimento dos Oficiais Livres, liderado por figuras como Gamal Abdel Nasser e Muhammad Naguib, acreditava que apenas uma mudança radical poderia salvar a nação.

O Dia da Mudança: 23 de Julho de 1952

Na madrugada de 23 de julho de 1952, os Oficiais Livres lançaram seu golpe. Com uma coordenação impressionante e pouca resistência, eles tomaram os principais pontos estratégicos do Cairo, incluindo quartéis militares, prédios governamentais e a estação de rádio. O Rei Farouk, pego de surpresa e sem apoio militar significativo, foi forçado a abdicar em favor de seu filho bebê, Fuad II, e exilar-se. A mensagem transmitida pelo rádio anunciava o fim da tirania e da corrupção e o início de uma nova era para o Egito.

Inicialmente, o Conselho de Comando Revolucionário (CCR), composto pelos Oficiais Livres, manteve a fachada de uma monarquia constitucional, nomeando um governo civil. No entanto, a verdadeira autoridade residia nas mãos do CCR. Em 18 de junho de 1953, a monarquia foi oficialmente abolida e a República do Egito foi proclamada, com o General Muhammad Naguib como seu primeiro presidente.

O Nascimento do Egito Moderno e o Legado de Nasser

A ascensão de Gamal Abdel Nasser ao poder, após uma disputa com Naguib, marcou o início de uma era de transformações profundas. Nasser tornou-se a figura central do novo Egito, implementando uma série de reformas radicais:

  • Reforma Agrária: Grandes latifúndios foram redistribuídos, visando melhorar as condições de vida dos camponeses e quebrar o poder da antiga elite fundiária.
  • Nacionalizações: Setores-chave da economia, incluindo o emblemático Canal de Suez em 1956, foram nacionalizados. Esta ação desafiou abertamente potências coloniais como o Reino Unido e a França, elevando o status do Egito no cenário internacional e solidificando a imagem de Nasser como um líder anticolonialista.
  • Desenvolvimento Industrial e Social: O governo investiu pesadamente em industrialização, educação e saúde, buscando modernizar o país e melhorar a qualidade de vida da população.
  • Pan-Arabismo e Não-Alinhamento: Nasser tornou-se um dos principais expoentes do movimento pan-arabista, defendendo a unidade dos povos árabes. Ele também foi uma figura proeminente no Movimento dos Não-Alinhados, buscando uma via independente durante a Guerra Fria, equidistante dos blocos soviético e ocidental.

A Revolução de 1952 foi, portanto, muito mais do que uma simples troca de poder. Ela representou um divisor de águas na história egípcia, marcando o fim de uma era de dominação estrangeira e feudalismo, e o nascimento de um Egito com aspirações nacionalistas, socialistas e pan-arabistas. Embora o regime de Nasser tenha sido alvo de críticas por seu caráter autoritário e pela supressão da oposição, é inegável que a revolução estabeleceu as bases para a identidade e o papel do Egito no século XX e além, definindo o curso de sua política interna e externa por décadas.

Referências Bibliográficas

  • Goldschmidt Jr., Arthur. Modern Egypt: The Formation of a Nation-State. Westview Press, 2004.
  • Vatikiotis, P. J. The History of Modern Egypt: From Muhammad Ali to Mubarak. Johns Hopkins University Press, 1991.
  • Owen, Roger. State, Power and Politics in the Making of the Modern Middle East. Routledge, 2004.
  • Aburish, Said K. Nasser, The Last Arab. St. Martin's Press, 2004.

domingo, 14 de setembro de 2025

O Crepúsculo dos Faraós: O Egito sob Domínio Persa, Grego e Romano

Por milênios, a civilização egípcia floresceu sob a égide dos faraós, uma linhagem de governantes considerados divinos, protetores de Ma'at (a ordem cósmica) e pilares de uma cultura rica e inconfundível. No entanto, a partir do século VI a.C., o Egito, outrora uma potência dominante, começou a experimentar uma série de conquistas estrangeiras que marcariam o fim de sua autonomia faraônica e o inseririam em um cenário geopolítico muito mais amplo. Este artigo explorará os períodos de domínio persa, grego (ptolomaico) e romano, examinando como cada um moldou o destino do Egito e alterou irremediavelmente sua identidade milenar.

I. A Sombra do Império Aquemênida: O Domínio Persa

A primeira grande subjugação do Egito por uma potência estrangeira de longa duração ocorreu em 525 a.C., quando Cambises II, rei do Império Persa Aquemênida, derrotou Psamético III na Batalha de Pelúsio. Este evento não apenas consolidou o Egito como uma satrapia persa, mas também marcou o fim da XXVI Dinastia e, para muitos, o último suspiro de um Egito verdadeiramente independente.

Sob o domínio persa, o Egito foi administrado por um sátrapa, geralmente um nobre persa, auxiliado por uma burocracia que integrava elementos egípcios. Embora os persas tenham, em alguns momentos, respeitado as tradições e a religião egípcias, como evidenciado pelo faraó Dario I, que se apresentou como um legítimo faraó, houve também períodos de opressão e saques, especialmente durante a primeira conquista. Templos foram profanados, e a cultura egípcia foi muitas vezes secundarizada.

O Egito oscilou entre períodos de subjugação total e breves ressurgimentos de autonomia, com dinastias nativas que tentaram, sem sucesso duradouro, restaurar a glória faraônica. A segunda conquista persa, em 343 a.C., por Artaxerxes III, foi ainda mais brutal, cimentando o controle persa até a chegada de uma nova força: os gregos.

II. O Legado de Alexandre e o Reinado Ptolemaico: A Hellenização do Egito

A chegada de Alexandre, o Grande, em 332 a.C., foi, ironicamente, vista por muitos egípcios como uma libertação do jugo persa. Alexandre foi recebido como um libertador e coroado faraó no templo de Ptah, em Mênfis, um gesto estratégico para legitimar seu poder. Ele fundou Alexandria, uma cidade portuária que se tornaria um dos maiores centros intelectuais e comerciais do mundo helenístico.

Após a morte de Alexandre, seu general Ptolemeu assumiu o controle do Egito, inaugurando a Dinastia Ptolemaica, que governaria o país por quase três séculos (305-30 a.C.). Os Ptolemeus, de origem grega, adotaram muitos dos costumes faraônicos, apresentando-se como faraós e construindo templos no estilo egípcio, como o de Ísis em Filas e o de Hórus em Edfu. No entanto, a administração era helenística, com o grego como língua oficial e uma elite dominante de gregos e macedônios.

Alexandria floresceu como um centro de cultura, ciência e comércio, com sua famosa Biblioteca e o Farol, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Contudo, a população egípcia nativa frequentemente sofria com a pesada tributação e a exploração econômica. A fusão cultural foi notável, criando o culto a Serápis, uma divindade sincrética que combinava Osíris e Apis com características gregas. O período ptolomaico culminaria com a figura carismática de Cleópatra VII, a última rainha a governar o Egito com o título de faraó, cujo destino estaria intrinsecamente ligado à ascensão de Roma.

III. O Celeiro do Império: O Egito sob Domínio Romano

A morte de Cleópatra VII e Marco Antônio na Batalha de Ácio, em 31 a.C., e a subsequente entrada de Otaviano (futuro imperador Augusto) em Alexandria em 30 a.C., marcaram o fim definitivo da autonomia faraônica e o início do domínio romano sobre o Egito. Diferente dos persas e ptolomeus, os romanos não incorporaram o Egito como uma província comum, mas sim como uma possessão pessoal do imperador (Província Romana do Egito), administrada por um prefeito equestre, não por um senador, dada sua importância estratégica e econômica.

O principal interesse de Roma no Egito era seu vasto potencial agrícola, especialmente a produção de grãos, que se tornou essencial para alimentar a população da capital imperial. A administração romana foi altamente burocrática e exploradora, focada na extração de recursos através de pesados impostos. A língua latina era usada na administração superior, mas o grego permaneceu a língua franca entre a elite, enquanto o egípcio demótico persistia entre a população local.

Sob o domínio romano, a cultura egípcia tradicional continuou a declinar. Embora alguns imperadores tenham, a princípio, mantido as aparências de faraós para a população egípcia, a religião nativa foi gradualmente suplantada pelo culto imperial romano e, mais tarde, pelo cristianismo, que ganhou força significativa no Egito a partir do século I d.C. Templos egípcios deixaram de ser construídos em grande escala, e as antigas práticas religiosas foram lentamente abandonadas em favor da nova fé. O Egito se tornou uma província integral do Império Romano e, posteriormente, do Império Bizantino, perdendo completamente sua identidade política e cultural milenar.

Conclusão: O Legado de uma Era de Transições

Os três milênios de autonomia faraônica do Egito terminaram com a sucessão de dominações persa, grega e romana. Cada uma dessas potências deixou sua marca, seja na arquitetura, na administração, na língua ou na religião. Os persas introduziram uma forma de governo imperial centralizada; os gregos legaram uma cultura helenística vibrante e uma nova capital, Alexandria; e os romanos consolidaram o Egito como um celeiro vital e um ponto estratégico em seu vasto império.

Ao longo desses séculos, a essência do Egito antigo foi diluída, mas nunca completamente apagada. Elementos de sua rica herança cultural e religiosa persistiram, adaptando-se e misturando-se com as influências estrangeiras. O crepúsculo dos faraós não foi o fim do Egito, mas sim o início de uma nova fase em sua longa e complexa história, moldada por invasores que, embora tivessem vindo para conquistar, acabaram por se tornar parte de seu intrincado mosaico histórico.

 

Referências Bibliográficas

  • BOWMAN, Alan K. Egypt After the Pharaohs: 332 BC - AD 642. From Alexander to the Arab Conquest. University of California Press, 1996.
  • SHAW, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. Oxford University Press, 2000.
  • LLOYD, Alan B. "The Late Period (664–332 BC)" in The Oxford History of Ancient Egypt. Oxford University Press, 2000.
  • MARTIN, Thomas R. Ancient Greece: From Prehistoric to Hellenistic Times. Yale University Press, 2009. (Para contexto do período helenístico).
  • ROSE, John. The Roman Empire: A Very Short Introduction. Oxford University Press, 2014. (Para contexto do período romano no Egito).