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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A Bandeira do Brasil: Símbolo de Nação, História e Ideais

A bandeira nacional é, em sua essência, a representação visual mais potente de uma nação. Ela transcende a mera função de um pedaço de tecido colorido, transformando-se em um repositório de história, valores, aspirações e identidade coletiva. Para o Brasil, a bandeira verde e amarela, com seu losango, círculo azul e a faixa branca ostentando o lema "Ordem e Progresso", é um ícone inconfundível que evoca sentimentos de pertencimento e patriotismo. Sua importância é tamanha que um dia específico, 19 de novembro, é dedicado à sua celebração, o Dia da Bandeira, marcando a data de sua instituição após a Proclamação da República em 1889.

Este artigo acadêmico propõe uma análise aprofundada da bandeira brasileira, explorando não apenas sua composição heráldica e os significados atribuídos a cada um de seus elementos, mas também sua evolução histórica e o contexto político-social que moldou seu design. Desde as bandeiras coloniais portuguesas que flutuaram sobre o território que viria a ser o Brasil, passando pelos estandartes imperiais, até a versão republicana que conhecemos hoje, cada mudança reflete transformações profundas na estrutura do Estado e na autopercepção da nação. A bandeira, portanto, não é estática; ela é um documento vivo que narra a trajetória de um povo, suas lutas, suas conquistas e seus ideais, consolidando-se como um dos mais importantes símbolos da soberania e da unidade nacional.

A Bandeira Brasileira Atual

A bandeira nacional do Brasil, em sua configuração atual, é um emblema de rica simbologia e precisão técnica, instituída pelo Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889, e posteriormente regulamentada pela Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971. Sua composição é um retângulo verde, sobreposto por um losango amarelo, que por sua vez abriga um círculo azul celeste com uma faixa branca contendo o lema "Ordem e Progresso" em letras verdes. Dentro do círculo azul, estão representadas 27 estrelas brancas de cinco pontas, que correspondem aos 26 estados brasileiros e ao Distrito Federal.

O retângulo verde, que serve de base para a composição, possui uma proporção de 7:10 entre altura e largura. A cor verde é tradicionalmente associada à Casa de Bragança, à qual pertencia Dom Pedro I, primeiro imperador do Brasil, e também é popularmente interpretada como a representação das vastas florestas e da exuberante natureza brasileira. O losango amarelo, centralizado sobre o retângulo verde, é um símbolo que remete à Casa de Habsburgo, da Imperatriz Dona Leopoldina, e é comumente interpretado como a representação das riquezas minerais do país, especialmente o ouro. A combinação dessas cores e formas no período imperial já estabelecia uma conexão com a monarquia, mas foi ressignificada na República.

No centro do losango amarelo, encontra-se o círculo azul celeste, que representa o céu do Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889, data da Proclamação da República. As estrelas dentro do círculo são dispostas de forma a reproduzir a constelação vista daquela latitude e longitude, com cada estrela correspondendo a uma unidade federativa. A estrela Spica (Alpha Virginis), localizada acima da faixa branca, representa o estado do Pará, que na época da Proclamação da República era o maior território ao norte do país. As estrelas são de cinco tamanhos diferentes, correspondendo à magnitude aparente das constelações que representam, e são distribuídas em nove constelações: Cão Maior, Cão Menor, Escorpião, Triângulo Austral, Virgem, Cruzeiro do Sul, Oitante, Hidra e Procyon. A estrela isolada na parte inferior do círculo, de maior magnitude, é a estrela de Magalhães (Sigma Octantis), que representa o Distrito Federal e é a única que não pertence a nenhuma constelação específica, simbolizando a capital como ponto de união.

A faixa branca, que atravessa o círculo azul de forma oblíqua e ascendente da esquerda para a direita, contém o lema "Ordem e Progresso". Este lema é uma adaptação da máxima positivista de Auguste Comte, "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". A escolha do lema reflete a forte influência do positivismo no movimento republicano brasileiro, especialmente entre os militares que lideraram a Proclamação da República. As letras do lema são verdes, e a faixa é ligeiramente curvada, seguindo a curvatura do círculo.

A evolução técnica da bandeira, embora mantenha a essência do design de 1889, passou por ajustes. A Lei nº 5.700/71 estabeleceu as dimensões exatas e a tonalidade das cores, além de detalhar a disposição das estrelas. A principal alteração ao longo do tempo tem sido a adição de estrelas para representar a criação de novos estados ou a elevação de territórios a essa condição. Em 1960, com a criação do estado da Guanabara, uma estrela foi adicionada. Em 1968, com a elevação do Acre a estado, outra estrela foi incluída. A última alteração ocorreu em 1992, com a Lei nº 8.421, que adicionou quatro estrelas para representar os estados do Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins, elevando o total para as atuais 27 estrelas. Essas modificações demonstram a capacidade da bandeira de se adaptar às mudanças geopolíticas do país, mantendo-se sempre como um espelho da federação brasileira.

Simbolismo e Significados

A bandeira brasileira é um compêndio de simbolismos que se entrelaçam com a história, a geografia e os ideais filosóficos da nação. As cores verde, amarelo, azul e branco, embora inicialmente associadas às casas dinásticas do Império, foram ressignificadas e popularmente interpretadas de maneiras que ressoam com a identidade brasileira. O verde, que remonta à Casa de Bragança, é amplamente associado à vasta e rica flora do Brasil, simbolizando as florestas, a biodiversidade e a esperança de um futuro próspero. O amarelo, originário da Casa de Habsburgo, é interpretado como a representação das riquezas minerais do país, especialmente o ouro, que desempenhou um papel crucial na história econômica brasileira.

O círculo azul, por sua vez, evoca o céu e o mar que banham o litoral brasileiro, elementos geográficos marcantes da nação. A cor azul também pode ser associada à lealdade e à justiça. A faixa branca, que corta o círculo, é universalmente reconhecida como o símbolo da paz, um ideal que o Brasil, historicamente, tem buscado promover em suas relações internacionais e em sua sociedade. A combinação desses elementos cromáticos cria uma imagem vibrante e distintiva, que se tornou sinônimo da identidade brasileira em todo o mundo.

Contudo, a camada mais profunda de simbolismo na bandeira brasileira reside no lema "Ordem e Progresso" e na influência do positivismo de Auguste Comte. O positivismo, uma corrente filosófica que emergiu na França no século XIX, defendia a primazia da ciência e da razão como guias para a organização social e o avanço humano. Seus adeptos acreditavam que a sociedade deveria ser organizada de forma racional e hierárquica para alcançar o progresso. No Brasil, o positivismo encontrou terreno fértil entre intelectuais e militares, que viam na filosofia de Comte um caminho para modernizar o país e superar os resquícios do Império.

O lema "Ordem e Progresso" é uma síntese da visão positivista para a construção de uma sociedade ideal. A "Ordem" é vista como a base indispensável para qualquer avanço, a estabilidade social e política que permite o desenvolvimento. Sem ordem, haveria caos e anarquia, impedindo qualquer forma de progresso. O "Progresso", por sua vez, é o objetivo final, o aprimoramento contínuo da sociedade em todos os seus aspectos – científico, tecnológico, moral e social. A frase completa de Comte, "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim", revela que o amor seria o motor moral, a ordem a estrutura e o progresso o resultado desejado. Ao adotar apenas "Ordem e Progresso", os republicanos brasileiros enfatizaram os aspectos mais pragmáticos e estruturais da filosofia, alinhando-se com a necessidade de estabilidade e desenvolvimento para a jovem república.

As estrelas no círculo azul também carregam um simbolismo significativo. Elas não são meramente decorativas, mas representam a constelação vista no céu do Rio de Janeiro na manhã da Proclamação da República, um momento crucial na história brasileira. Cada estrela corresponde a uma unidade federativa, simbolizando a união e a diversidade dos estados brasileiros sob um mesmo céu e uma mesma nação. A disposição e a magnitude das estrelas, que seguem rigorosamente a representação astronômica, reforçam a ideia de uma nação organizada e baseada em princípios científicos, em consonância com o ideal positivista. Assim, a bandeira brasileira é um complexo mosaico de elementos que, juntos, contam a história de um país que buscou na razão e na ciência os pilares para sua construção e seu futuro.

Histórico das Bandeiras Brasileiras

A história das bandeiras que representaram o território que hoje conhecemos como Brasil é um reflexo direto das transformações políticas e sociais que moldaram a nação. Desde os primeiros anos da colonização até a consolidação da República, cada estandarte carregou consigo os símbolos e os ideais de sua época.

Período Colonial (1500-1822) - As bandeiras portuguesas utilizadas

Durante os mais de três séculos de colonização, o Brasil não possuía uma bandeira própria, sendo representado pelas diversas bandeiras do Reino de Portugal. A primeira bandeira a flutuar sobre o território recém-descoberto foi a Bandeira da Ordem de Cristo, que acompanhou as caravelas de Pedro Álvares Cabral em 1500. Esta bandeira, branca com uma cruz vermelha da Ordem de Cristo, simbolizava a expansão da fé cristã e o poder da Coroa Portuguesa.

Com o tempo, outras bandeiras reais portuguesas foram utilizadas. A Bandeira Real de Portugal (1521-1578), com o escudo real português ao centro, foi amplamente empregada. Durante a União Ibérica (1580-1640), período em que Portugal esteve sob o domínio da Espanha, as bandeiras espanholas também foram vistas no Brasil, embora a identidade portuguesa tenha sido mantida em muitos aspectos. Após a Restauração Portuguesa, a Bandeira de Portugal com o Escudo Real (1640-1816) voltou a ser o símbolo predominante.

Um marco importante foi a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves em 1815. A Bandeira do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816-1822) apresentava o escudo real português sobre um fundo branco, com uma esfera armilar dourada (símbolo de Portugal e das navegações) e uma coroa real. Esta foi a primeira vez que o Brasil teve uma representação explícita em um estandarte oficial, mesmo que ainda sob a égide portuguesa. Essa bandeira simbolizava a nova condição política do Brasil, que deixava de ser uma mera colônia para se tornar parte integrante do reino.

Império Brasileiro (1822-1889) - Primeira bandeira independente com águia

Com a Proclamação da Independência em 7 de setembro de 1822, o Brasil necessitava de um símbolo que representasse sua nova soberania. A primeira bandeira do Brasil independente foi criada por Jean-Baptiste Debret e oficializada em 18 de setembro de 1822, apenas onze dias após a independência. Esta bandeira, que se tornaria a base para a bandeira republicana, apresentava um retângulo verde com um losango amarelo sobreposto. No centro do losango, estava o Escudo Imperial, que consistia em um escudo verde com a esfera armilar dourada sobreposta por uma cruz da Ordem de Cristo, ladeado por ramos de café e tabaco (representando as principais riquezas agrícolas da época), e encimado pela Coroa Imperial.

As cores verde e amarelo foram escolhidas por Dom Pedro I, que as associou às cores das casas dinásticas de sua esposa, Dona Leopoldina (Habsburgo, amarelo), e da sua própria (Bragança, verde). Assim, a bandeira imperial simbolizava a união das duas casas reais que fundaram o Império do Brasil. A esfera armilar, presente desde a bandeira do Reino Unido, foi mantida como um elo com o passado português e as grandes navegações. A cruz da Ordem de Cristo reforçava a religiosidade e a herança católica. Os ramos de café e tabaco destacavam a base econômica do novo império. A Coroa Imperial, por sua vez, era o símbolo máximo da monarquia e da soberania do imperador. Esta bandeira permaneceu em uso durante todo o período imperial, de 1822 a 1889, tornando-se um poderoso emblema da identidade nacional brasileira.

República Velha (1889-1930) - Adoção da bandeira atual

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, trouxe consigo a necessidade de um novo símbolo nacional que rompesse com os laços monárquicos. Inicialmente, houve uma tentativa de adotar uma bandeira inspirada na dos Estados Unidos, com listras horizontais verdes e amarelas e um cantão azul com estrelas. Esta versão, conhecida como a Bandeira Provisória da República, foi hasteada por poucos dias, mas não obteve aceitação popular nem oficial.

Rapidamente, o governo provisório republicano encarregou um grupo de intelectuais e artistas de criar uma nova bandeira. O projeto final foi concebido por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, com o desenho de Décio Vilares e a colaboração de Manuel Pereira Reis para a disposição astronômica das estrelas. A nova bandeira, inspirada diretamente na bandeira imperial, manteve o retângulo verde e o losango amarelo, mas substituiu o Escudo Imperial pelo círculo azul com a faixa branca e o lema "Ordem e Progresso".

A escolha de manter as cores verde e amarelo foi estratégica. Embora tivessem origens monárquicas, já estavam profundamente enraizadas na identidade nacional e eram populares entre a população. A substituição do escudo imperial pelo círculo azul com as estrelas e o lema positivista representava a ruptura com a monarquia e a adesão aos ideais republicanos de ciência, razão e progresso. O círculo azul, como mencionado, representava o céu do Rio de Janeiro na manhã da Proclamação da República, e as estrelas simbolizavam os estados da federação. O lema "Ordem e Progresso" refletia a forte influência do positivismo entre os líderes republicanos, que viam na ordem social a base para o desenvolvimento e o avanço da nação. Esta bandeira foi oficializada em 19 de novembro de 1889, tornando-se o símbolo da República e, com pequenas modificações, a bandeira que conhecemos hoje.

Reformas Republicanas (1960, 1992, 2002) - Mudanças e adições de estrelas

Desde sua instituição em 1889, a bandeira brasileira passou por algumas reformas, principalmente relacionadas à adição de estrelas para refletir a evolução da federação. A Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971, que dispõe sobre a forma e a apresentação dos Símbolos Nacionais, consolidou as regras para a bandeira.

A primeira alteração significativa ocorreu em 1960, quando a Lei nº 4.061, de 19 de agosto de 1960, adicionou uma estrela à bandeira para representar o recém-criado estado da Guanabara (antigo Distrito Federal, que se tornou estado após a transferência da capital para Brasília).

Em 1968, com a elevação do Território Federal do Acre à categoria de estado, uma nova estrela foi adicionada, elevando o número total de estrelas.

A mais recente e abrangente alteração ocorreu em 1992, com a Lei nº 8.421, de 11 de maio de 1992. Esta lei adicionou quatro novas estrelas à bandeira para representar os estados do Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins, que haviam sido criados ou elevados à condição de estado pela Constituição de 1988. Com essa adição, o número total de estrelas na bandeira brasileira passou para 27, correspondendo aos 26 estados e ao Distrito Federal.

Embora a lei de 1992 tenha sido a última a alterar o número de estrelas, a Lei nº 8.421/92 também consolidou a representação astronômica das estrelas, garantindo que a bandeira continuasse a ser um espelho fiel da constelação do céu do Rio de Janeiro na data da Proclamação da República, com as devidas atualizações para incluir todas as unidades federativas. Essas reformas demonstram a capacidade da bandeira de se adaptar às mudanças territoriais e administrativas do Brasil, mantendo sua essência e seu papel como símbolo da união federativa.

Legislação e Proteção da Bandeira

A bandeira nacional do Brasil, como um dos símbolos máximos da pátria, é protegida por legislação específica que regulamenta seu uso, respeito e preservação. A principal norma que rege os símbolos nacionais, incluindo a bandeira, é a Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971. Esta lei estabelece as características da bandeira, seu uso em diversas situações, as formas de tratamento e as penalidades para seu desrespeito.

De acordo com a Lei nº 5.700/71, a bandeira nacional deve ser hasteada em todos os órgãos públicos federais, estaduais e municipais, nas escolas públicas e particulares, e em outras instituições conforme determinado. Seu hasteamento e arriamento devem seguir protocolos rigorosos, geralmente acompanhados do Hino Nacional ou de toques de corneta. Em dias de luto oficial, a bandeira deve ser hasteada a meio mastro.

A legislação também detalha as dimensões e proporções da bandeira, as cores exatas e a disposição das estrelas, garantindo a uniformidade e a correta representação do símbolo em todo o território nacional. É proibido alterar a forma, as cores ou quaisquer outros elementos da bandeira. Além disso, a lei estabelece que a bandeira não pode ser usada como vestimenta, adorno, ou em qualquer outra forma que possa descaracterizá-la ou desrespeitá-la.

O desrespeito à bandeira nacional é considerado uma infração grave. A Lei nº 5.700/71 prevê sanções para atos de ultraje, vilipêndio ou desrespeito à bandeira, que podem incluir multas e, em casos mais graves, detenção, conforme o Código Penal brasileiro. O artigo 44 da referida lei, por exemplo, estabelece que "É vedado o uso da Bandeira Nacional que não esteja de acordo com as prescrições desta Lei". O Código Penal, em seu artigo 359, tipifica o crime de "Ultraje a Símbolo Nacional", que consiste em "Destruir ou ultrajar a bandeira, emblemas ou hinos da Nação, ou de qualquer Estado ou Município, ou de país estrangeiro, em lugar público ou exposto ao público", com pena de detenção de seis meses a dois anos, e multa.

Além das proibições, a legislação também estabelece os protocolos de respeito e cuidado. A bandeira deve ser sempre tratada com reverência. Quando uma bandeira está velha, rasgada ou desbotada, ela não deve ser simplesmente descartada. A Lei nº 5.700/71 determina que as bandeiras inservíveis devem ser recolhidas a uma unidade militar, que providenciará sua incineração em cerimônia solene no Dia da Bandeira (19 de novembro). Este ritual simboliza o respeito contínuo ao símbolo nacional, mesmo quando ele já não pode mais ser utilizado.

A proteção legal da bandeira não visa apenas a manutenção de um símbolo, mas a salvaguarda da própria identidade e soberania nacional. Ao regulamentar seu uso e punir seu desrespeito, o Estado brasileiro reforça a importância da bandeira como um elemento unificador e representativo da nação, de sua história e de seus valores.

Conclusão

A bandeira do Brasil é muito mais do que um mero arranjo de cores e formas; ela é um palimpsesto visual que narra a complexa e multifacetada história de uma nação. Desde as bandeiras coloniais que marcaram a presença portuguesa, passando pelos estandartes imperiais que simbolizaram a primeira fase de nossa independência, até a bandeira republicana que hoje conhecemos, cada versão reflete um capítulo distinto da trajetória brasileira. O verde das florestas e a esperança, o amarelo das riquezas e da Casa de Habsburgo, o azul do céu e do mar, e o branco da paz, todos se entrelaçam para formar um emblema de profunda ressonância cultural e histórica.

O lema "Ordem e Progresso", herança do positivismo de Auguste Comte, encapsula os ideais que impulsionaram a Proclamação da República e que, de certa forma, continuam a guiar as aspirações de desenvolvimento e estabilidade do país. As estrelas, meticulosamente dispostas para representar o céu do Rio de Janeiro em um momento crucial, simbolizam a união federativa e a diversidade dos estados brasileiros. A bandeira, portanto, é um símbolo dinâmico, que se adaptou às mudanças territoriais e políticas, como evidenciado pelas sucessivas adições de estrelas, mas que manteve sua essência e seu poder de representação.

Em um país de dimensões continentais e de vasta diversidade cultural, a bandeira desempenha um papel crucial como elemento unificador. Ela transcende as diferenças regionais, sociais e políticas, servindo como um ponto comum de identificação e orgulho. A legislação que a protege e os protocolos que regulamentam seu uso reforçam sua sacralidade e sua importância como patrimônio cultural e símbolo da soberania nacional. No Dia da Bandeira, 19 de novembro, e em todos os outros dias, a bandeira brasileira nos convida a refletir sobre nossa história, nossos valores e o futuro que desejamos construir para esta nação. Ela é um lembrete constante de que, apesar dos desafios, a busca pela ordem e pelo progresso continua sendo um ideal coletivo.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971. Dispõe sobre a forma e a apresentação dos Símbolos Nacionais, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 set. 1971.

BRASIL. Lei nº 8.421, de 11 de maio de 1992. Altera a Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971, que dispõe sobre a forma e a apresentação dos Símbolos Nacionais. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 maio 1992.

COSTA, Cláudio. A Bandeira do Brasil: História e Simbolismo. Rio de Janeiro: Editora Nacional, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. (Para consulta de termos e significados gerais).

GOMES, Laurentino. 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil. São Paulo: Globo Livros, 2013.

GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. O Positivismo e a República: a formação do pensamento republicano no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. (Para consulta de termos e significados gerais).

LIMA, Oliveira. O Movimento da Independência. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. (Reedição de obra clássica sobre o período imperial).

MARTINS, Luís. A História da Bandeira Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1960.

PEREIRA, Lúcia Miguel. A Vida de Gonçalves Dias. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989. (Contém informações sobre o contexto cultural e político do Império).

REIS, José Carlos. A História da República Brasileira. São Paulo: Ática, 1989.

SILVA, Hélio. A Bandeira do Brasil: Sua História e Significado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

sábado, 15 de novembro de 2025

As Razões do Golpe Republicano de 15 de Novembro de 1889

Henrique Bernardelli
O 15 de novembro de 1889 representa um marco decisivo na história do Brasil: a Proclamação da República e o fim do Império. Ao contrário de revoluções populares que transformaram países como França ou Estados Unidos, no Brasil o movimento foi um golpe militar articulado por uma elite descontente, executado pelo Exército e acompanhado por uma população majoritariamente alheia ao processo.

Laurentino Gomes, em 1889: Como Um Império Deveria Ter Morrido (2013), destaca essa desconexão entre a corte imperial e a realidade brasileira. O Baile da Ilha Fiscal, realizado dias antes do golpe, tornou-se símbolo desse distanciamento — um luxo derradeiro de um regime que já não conseguia sustentar-se.

Este artigo aprofunda as causas que levaram ao fim do Império, articulando a narrativa de Gomes a outras importantes interpretações historiográficas.

Causas Políticas

O desgaste político do Império era complexo e envolvia três grandes conflitos que marcaram o fim do Segundo Reinado: a Questão Militar, a Questão Religiosa e a Questão Abolicionista.

A Questão Militar

Após a Guerra do Paraguai, o Exército emergiu como uma instituição fortalecida e consciente de seu papel nacional. Mesmo assim, os militares sentiam-se desprestigiados pelo governo imperial, que lhes restringia manifestações políticas e mantinha uma estrutura conservadora, avessa a reformas (Carvalho, 1990).

A imprensa militar passou a questionar dom Pedro II e sua incapacidade de modernizar o país. Laurentino Gomes (2013) observa que os republicanos aproveitaram essa insatisfação para arregimentar apoio entre oficiais, transformando o Exército no principal agente da futura ruptura.

A Questão Religiosa

Desde 1824, a Igreja Católica era subordinada ao Estado pelo regime de padroado. O conflito eclodiu quando Dom Vital e Dom Macedo, bispos de Olinda e Belém, obedeceram à ordem papal contra a maçonaria e foram punidos pelo governo imperial, criando um racha entre Igreja e Coroa (Mota, 1973).

Com isso, a monarquia perdeu um aliado tradicional e central para sua legitimidade.

A Questão Abolicionista

A abolição da escravatura, celebrada em 1888, enfraqueceu ainda mais o Império. A Lei Áurea, apesar de moralmente necessária, retirou da monarquia o apoio dos grandes proprietários rurais, insatisfeitos por não receberem indenização pela perda de seus escravos (Reis, 1987).

A elite agrária, antes sustentáculo da monarquia, passou a flertar com o republicanismo.

O Desgaste da Figura Imperial

Idoso e debilitado, Dom Pedro II demonstrava aparente cansaço político. Sua falta de interesse pela sucessão — especialmente rejeitando a Princesa Isabel, vista como impopular e excessivamente religiosa — intensificou a percepção de estagnação (Nabuco, 1997).

O Império parecia incapaz de se renovar.

Causas Sociais e Econômicas

A conjuntura social e econômica também contribuía para o ambiente de mudança.

O país enfrentava crise econômica, dependência excessiva do café, aumento da dívida externa, inflação e ausência de investimentos em infraestrutura (Fernandes, 1975). Enquanto isso, surgia nas cidades uma pequena, mas influente, classe média urbana, composta por funcionários públicos, comerciantes e profissionais liberais, que se sentiam excluídos do sistema político imperial.

Paralelamente, crescia nas escolas militares e entre intelectuais a influência do positivismo, que defendia um Estado racional e moderno. Benjamin Constant, professor da Escola Militar, foi peça fundamental para difundir essas ideias, que moldariam o futuro regime republicano — inclusive o lema "Ordem e Progresso" (Carvalho, 1990).

Causas Militares

O Exército, cada vez mais politizado e ressentido, passou a enxergar-se como guardião moral da nação. Muitos oficiais se sentiam humilhados pela interferência civil em suas decisões e pela falta de reconhecimento após a Guerra do Paraguai.

Nesse contexto, a figura do marechal Deodoro da Fonseca, tradicional monarquista, tornou-se central. Influenciado por Benjamin Constant e pressionado por jovens oficiais republicanos, Deodoro acabou aderindo ao movimento (Gomes, 2013).

A crise ministerial de 1889 e a percepção de que o governo tramava contra a corporação serviram como estopim para a ação militar.

O Golpe de 15 de Novembro

Na manhã de 15 de novembro de 1889, tropas lideradas por Deodoro marcharam do Campo de Santana em direção ao centro do Rio de Janeiro. Inicialmente, o marechal pretendia apenas derrubar o gabinete do Visconde de Ouro Preto. No entanto, a combinação de pressões políticas, tensões pessoais e rumores sobre supostas conspirações transformou a ação em um golpe contra a monarquia.

Dom Pedro II, adoentado e desmobilizado politicamente, não ordenou resistência.

Conforme destaca Laurentino Gomes (2013), a população encontrava-se "bestializada": assistia aos acontecimentos sem entendê-los e sem participar. Não houve revolta, entusiasmo ou enfrentamento — apenas um golpe burocrático-militar que alterou a forma de governo.

No fim da tarde, foi proclamada a República. Em seguida, a família imperial foi exilada e partiu rumo à Europa.

Perspectiva Crítica

A Proclamação da República nasceu sob forte caráter antidemocrático. A população não foi consultada, não houve plebiscito, nem mobilização popular. Por isso, muitos historiadores defendem que a República brasileira começou sem legitimidade social ampla.

Nas primeiras décadas do novo regime, persistiram problemas estruturais: concentração de poder, exclusão política, desigualdade social e manutenção da ordem agrária. A chamada República Velha (1889–1930) consolidou oligarquias regionais e práticas como coronelismo e fraudes eleitorais (Bandeira, 1975).

A promessa positivista de ordem e progresso demorou a se materializar para a maior parte da população.

Conclusão

O golpe republicano de 15 de novembro de 1889 foi o resultado de um alinhamento de tensões políticas, sociais, econômicas e militares que corroeram a sustentação do Império. Entre os principais fatores estão:

  • O distanciamento entre o governo imperial e setores-chave da sociedade;
  • O fortalecimento do Exército e sua politização;
  • A influência do positivismo entre militares e intelectuais;
  • A crise econômica e o surgimento de novas classes urbanas;
  • A perda de apoio da Igreja e dos grandes proprietários.

A Proclamação da República não foi uma revolução popular, mas um golpe de Estado conduzido por uma elite militar. Isso marcou profundamente a trajetória política do país e ajudou a moldar a cultura republicana que se seguiria.

Referências Bibliográficas

  • Alves, Francisco das Neves. Metrópole do Sul: A Transformação Porto-Alegrense no Século XIX. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.
  • Bandeira, Moniz. O Milagre Brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 1975.
  • Carvalho, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • Fernandes, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
  • Gomes, Laurentino. 1889: Como Um Império Deveria Ter Morrido. São Paulo: Globo Editores, 2013.
  • Mota, Carlos Guilherme (org.). Brasil em Perspectiva. São Paulo: DIFEL, 1973.
  • Nabuco, Joaquim. Um Estadista do Império. São Paulo: Editora 34, 1997.
  • Reis, João José. Rebelião Escrava no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  • Toledo, Roberto Pompeu de. A Longa Noite da Alma Brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2011.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Esaú e Jacó: A Dualidade entre Monarquismo e Republicanismo no Romance de Machado de Assis

Esaú e Jacó, escrito por Machado de Assis em 1904, é um romance brasileiro narrado pelo conselheiro Aires que aborda as desavenças ideológicas entre dois irmãos gêmeos, Pedro e Paulo. A obra faz referência à passagem bíblica de Gênesis 25:23, que diz: "E o Senhor lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor." Assim como Esaú e Jacó na Bíblia, há uma disputa entre os irmãos ainda no ventre da mãe.

Natividade e Agostinho Santos, os pais dos gêmeos, tinham expectativas diferentes sobre o sexo de seus filhos: enquanto Natividade queria um menino, Agostinho desejava uma menina. Acabaram tendo dois garotos, Pedro e Paulo, nomes que também remetem à Bíblia, onde há registros de desavenças entre os Apóstolos Pedro e Paulo.

Ambientado em um período cinco anos após a Proclamação da República, o romance simboliza a divisão do povo brasileiro entre republicanos e monarquistas. Pedro, um médico conservador, representa a tradição monarquista, enquanto Paulo, um advogado, é defensor do republicanismo. As desavenças entre os irmãos são constantes e se tornam ainda mais acirradas quando ambos se apaixonam por uma moça chamada Flora. Flora demonstra simpatia pelos dois, mas nunca toma uma decisão concreta sobre qual deles escolher.

A mãe dos irmãos, aflita com a situação, deseja que haja união entre eles, acreditando que, por serem gêmeos, deveriam ser mais unidos, e não viver em constantes desavenças. Em momentos de tragédia, como as mortes de Flora e de Natividade, os irmãos registram duas tréguas. No leito de morte, Natividade implora para que os irmãos cessem as desavenças, e Pedro e Paulo se comprometem a obedecer à mãe. Contudo, a ideia não é de uma trégua permanente, mas de suportarem as diferenças um do outro. Essa paz é temporária, e os conflitos inevitavelmente retornam.

A narrativa de Machado de Assis utiliza essa dualidade entre Pedro e Paulo para explorar temas mais amplos, como política, identidade nacional e as complexidades das relações humanas. A simbologia bíblica de Esaú e Jacó adiciona profundidade à narrativa, mostrando que, assim como na Bíblia, os conflitos entre os irmãos são inevitáveis, mesmo quando tentam fazer as pazes. O romance é um retrato da sociedade brasileira da época, com suas divisões ideológicas e anseios por unidade, que continua a ressoar na compreensão contemporânea do país.


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