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O que era ser cidadão romano?
Na República, a civitas combinava um pacote complexo
de direitos e deveres:
- Direitos
centrais: Sufrágio (ius suffragii), elegibilidade a cargos (ius
honorum), casamento legítimo (conubium), direito de comerciar e
contratar sob o direito civil (commercium), direito de apelação ao
povo (provocatio) e proteção contra punições corporais sumárias.
- Deveres:
Serviço militar, pagamento de tributos e lealdade cívica.
Camadas sociais: Mulheres e menores eram cidadãos com
proteção jurídica, mas sem direitos políticos (sine suffragio).
Escravizados eram excluídos (objetos de direito, não sujeitos). Libertos
gozavam de cidadania, mas com limitações políticas e obrigações para com seus
antigos senhores. Já os peregrini (estrangeiros livres) estavam sujeitos
ao ius gentium, embora pudessem receber concessões individuais ou
coletivas de cidadania.
Integração da Itália: Alianças, Municipia e Ius
Latii
A expansão na península itálica (sécs. IV–II a.C.) utilizou
três ferramentas principais:
- Municipia
e civitas sine suffragio: Comunidades integradas ao corpo
cívico romano, mantendo autonomia local mas com variados graus de direitos
em Roma.
- Colônias
latinas e romanas: Assentamentos estratégicos que difundiam
instituições, a língua latina e normas jurídicas.
- Ius
Latii (Direito Latino): Um status intermediário engenhoso que
concedia commercium e conubium, além de oferecer um caminho
para a cidadania plena (por exemplo, ao ocupar magistraturas locais na sua
cidade de origem).
Esse arranjo escalonado permitiu a Roma cooptar elites
locais, mobilizar vastos contingentes de soldados e consolidar lealdades
(BRUNT, 1971; SHERWIN-WHITE, 1973).
A Virada da Guerra Social (91–88 a.C.)
A persistente desigualdade de direitos entre os aliados
itálicos (socii) e os cidadãos romanos detonou a violenta Guerra Social.
O desfecho foi uma expansão legal sem precedentes que unificou a península:
- Lex
Iulia (90 a.C.) e Lex Plautia Papiria (89–90 a.C.): Concederam
cidadania a todas as comunidades e indivíduos itálicos que depusessem as
armas.
- Lex
Pompeia (89 a.C.): Reorganizou comunidades com status latino em
regiões periféricas, como a Gália Cisalpina.
O resultado foi a “nacionalização” jurídica da Itália: as
fronteiras políticas entre Roma e seus antigos aliados foram abolidas,
transformando a Itália em uma extensão de Roma (NICOLET, 1976; LINTOTT, 1999).
Da República Tardia ao Principado: Municipalização
Imperial
Nos séculos I a.C. e I d.C., a cidadania transbordou da
Itália para as províncias através de:
- Concessões
individuais: Veteranos das legiões e tropas auxiliares, bem como
notáveis locais, recebiam a cidadania como recompensa por serviço e
lealdade.
- Urbanização:
A elevação de comunidades a municipia e colônias, promovida
intensamente por César e Augusto, criou redes urbanas leais ao centro.
- Integração
das elites: O imperador Cláudio (48 d.C.) defendeu no Senado a entrada
de notáveis gauleses na casa legislativa, argumentando que Roma crescia ao
absorver os vencidos (TACITUS, Ann. 11).
Sob a dinastia dos Flávios, a extensão do ius Latii a
todas as comunidades da Hispânia criou trilhas formais para o status pleno,
amarrando definitivamente as elites provinciais ao Estado romano (GONZÁLEZ,
1986).
O Ápice: Constitutio Antoniniana (212 d.C.)
O famoso edito do imperador Caracala concedeu cidadania a
praticamente todos os habitantes livres do Império.
- Motivações
prováveis: Fiscais (ampliar a base de impostos que incidiam apenas
sobre cidadãos, como o de herança) e ideológicas (unificação jurídica e
religiosa sob o imperador).
- Impactos:
Houve um enfraquecimento da distinção clássica entre ius civile e ius
gentium, mas a cidadania universal não trouxe igualdade social. A
distinção jurídica passou a ser entre honestiores (ricos/elites) e humiliores
(pobres), independentemente da cidadania (GARNSEY; SALLER, 2015).
Conclusão: Por que a cidadania se expandiu?
A expansão da cidadania romana foi uma estratégia
incremental de governança e lealdade. Transformar súditos em cidadãos
criava identidades compartilhadas e barateava o custo de governar territórios
vastos. Mais do que "impor cultura", Roma criou incentivos jurídicos
e políticos que tornaram vantajoso "ser romano". Do mosaico itálico à
universalização de 212 d.C., a cidadania serviu como o cimento do edifício
imperial.
Referências Bibliográficas
CASSIUS DIO. Roman History. Tradução de Earnest Cary.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1914-1927. (Loeb Classical Library).
CICERO, Marcus Tullius. Pro Balbo. In: CICERO. The
Orations. Tradução de R. Gardner. Cambridge, MA: Harvard University Press,
1958. (Loeb Classical Library).
PLINY THE ELDER. Natural History. Tradução de H.
Rackham. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1938-1962. (Loeb Classical
Library).
TACITUS. Annals. In: TACITUS. Histories: Annals.
Tradução de C. H. Moore e J. Jackson. Cambridge, MA: Harvard University Press,
1931. (Loeb Classical Library).
Fontes Secundárias (Estudos)
ANDO, Clifford. Imperial Ideology and Provincial Loyalty
in the Roman Empire. Berkeley: University of California Press, 2000.
BEARD, Mary. SPQR: uma história da Roma Antiga.
Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta, 2016.
BRUNT, P. A. Italian Manpower 225 B.C.–A.D. 14.
Oxford: Clarendon Press, 1971.
GARNSEY, Peter; SALLER, Richard. The Roman Empire:
economy, society and culture. 2. ed. Berkeley: University of California Press,
2015.
GONZÁLEZ, Julián. The Lex Irnitana: a new copy of the
Flavian Municipal Law. Journal of Roman Studies, London, v. 76, p.
147-243, 1986.
KÉPPIE, Lawrence. The Making of the Roman Army: from
Republic to Empire. London: Batsford, 1984.
LINTOTT, Andrew. The Constitution of the Roman Republic.
Oxford: Oxford University Press, 1999.
NICOLET, Claude. Le métier de citoyen dans la Rome
républicaine. Paris: Gallimard, 1976.
