A linguagem, compreendida como a atividade humana
fundamental de comunicar e significar, transcende a mera emissão de sons ou a
escrita de símbolos. Ela se manifesta através de um conjunto complexo de
características intrínsecas, que a tornam um fenômeno universal e distintivo da
espécie humana.
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Conforme apontado pelo gramático Evanildo Bechara
(2009), a linguagem se estrutura em cinco dimensões universais interligadas:
criatividade (ou enérgeia), materialidade, semanticidade, alteridade e
historicidade. A compreensão aprofundada dessas dimensões é crucial para
desvendar a riqueza e a complexidade do processo comunicativo e da própria
cognição humana.
Criatividade (ou Enérgeia): A Capacidade Gerativa
A dimensão da criatividade, também referida como enérgeia,
destaca a linguagem como uma atividade intrinsecamente livre e inovadora, que
vai muito além da simples repetição de padrões preexistentes. Não se trata
apenas da capacidade de produzir obras literárias, mas da habilidade cotidiana
de gerar e compreender um número infinito de sentenças novas a partir de um
conjunto finito de regras e elementos.
Essa perspectiva remonta a Wilhelm von Humboldt, para
quem a linguagem não é um ergon (produto estático), mas uma enérgeia
(atividade dinâmica e criadora).
Noam Chomsky (1975) aprofundou essa compreensão ao
introduzir a distinção entre:
- Competência:
O conhecimento inato e implícito que um falante possui de sua língua.
- Performance:
O uso real da linguagem em situações concretas, sujeito a fatores como
memória e atenção.
A criatividade reside, portanto, na competência gerativa: a
capacidade de inovar e adaptar a linguagem a novas situações, produzindo
enunciados nunca antes ouvidos, mas imediatamente compreendidos.
Materialidade: A Concretude Fisiológica e Sociocultural
A linguagem, para se manifestar, requer uma base material.
Fisiologicamente, é uma atividade condicionada pela capacidade humana de
utilizar os órgãos de fonação para produzir signos fonéticos articulados – os
fonemas. Na escrita, essa materialidade se traduz em grafemas e símbolos
visuais.
Além da base biológica, a materialidade da linguagem se
estende à sua manifestação física no mundo. Ferdinand de Saussure (2012)
destacou o significante (a imagem acústica ou forma gráfica) como a
parte material do signo, oposta ao significado (o conceito). Essa
materialidade é também sociocultural, pois a língua se concretiza em textos,
livros e mídias digitais, permitindo sua transmissão através do tempo e do
espaço.
Semanticidade: O Universo de Sentidos
A semanticidade é a dimensão que confere à linguagem seu
caráter distintivo e sua função primordial: a de significar. Na
linguagem, tudo é semântico; a cada forma corresponde um conteúdo
significativo.
A compreensão da semanticidade pode ser aprofundada pela
semiótica de Charles Sanders Peirce (2000), que categoriza os signos em
ícones, índices e símbolos. A linguagem verbal opera predominantemente com
símbolos, cujo significado é estabelecido por convenção social. O sentido de
uma palavra não é fixo, mas construído e negociado no contexto de uso (Fiorin,
2019), permitindo que os falantes atribuam sentido ao mundo e organizem o
pensamento.
Alteridade: A Dimensão Interacional
A linguagem é, por natureza, um fenômeno social. A dimensão
da alteridade expressa que o ato de significar é sempre um "ser com
outros". O ser humano é um ser político-social, e a linguagem é a
ferramenta dessa interação.
Émile Benveniste (2005) enfatizou que a linguagem é o
lugar onde o "eu" e o "tu" se constituem. A comunicação não
é unilateral, mas uma troca mútua. A teoria dos atos de fala (Austin e Searle)
ilustra isso ao demonstrar que, ao falar, não apenas descrevemos o mundo, mas
realizamos ações (prometer, perguntar, ordenar). A linguagem é, portanto, uma
forma de ação social que molda as relações humanas.
Historicidade: A Dinâmica Evolutiva
A linguagem não existe no vácuo; ela se manifesta sempre sob
a forma de uma língua específica (portuguesa, inglesa, latina, etc.), produto
de uma tradição histórica. As línguas são sistemas vivos em constante evolução.
Saussure distinguiu a sincronia (estudo em um momento
dado) da diacronia (estudo da evolução no tempo). A historicidade da
linguagem é intrínseca à do próprio homem. A "imposição" da língua
(chamar um objeto de "livro" e não de outra coisa) é a aceitação de
um contrato social necessário para a comunicação. As variações linguísticas e
as mudanças no léxico refletem as transformações culturais e tecnológicas das
comunidades.
Para Além das Palavras: Expressões Extralinguísticas
A comunicação humana é frequentemente enriquecida por formas
de expressão que vão além das unidades linguísticas formais. Elas são cruciais
para a plena compreensão da mensagem:
Paralinguística
Refere-se aos aspectos vocais não-verbais como entonação,
ritmo e pausas. A forma como algo é dito pode alterar seu significado. Veja
este exemplo literário de Machado de Assis:
“Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai.
De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as sílabas com o dedo”.
Cinésica
Envolve movimentos corporais, gestos e expressões faciais. A
mímica pode ser tão eloquente quanto as palavras. Como ilustra este trecho de Machado
de Assis:
“Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma moça
assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos...”.
Ou ainda a intensidade dramática capturada por Humberto
de Campos:
“Os dois garotos, porém, esperneiam com a mudança de mãe: –
Mentira!... Mentiiiira!... Mentiiiiiiiiiiira! – berra cada um para seu lado”.
Recursos Gráficos
Na escrita, elementos como maiúsculas, itálicos e pontuação
carregam significado adicional. O emprego da maiúscula pode indicar excelência
(ex: "Ele é um Professor com P maiúsculo"), e a grafia pode
distinguir sentidos (ex: "Chegamos na hora h").
Conclusão
As cinco dimensões universais – criatividade, materialidade,
semanticidade, alteridade e historicidade – revelam a linguagem como um
fenômeno multifacetado. Elas não operam isoladamente, mas constituem um sistema
dinâmico. A criatividade e a materialidade são universais, mas a semanticidade
é a marca específica da linguagem. A alteridade fundamenta a historicidade,
pois a língua se transforma na interação entre indivíduos. Compreender essas
dimensões nos oferece uma visão da linguagem como a ferramenta mais poderosa da
humanidade.
Referências Bibliográficas
AUSTIN, John L. Como Fazer Coisas com Palavras. São
Paulo: Artes Médicas, 1990.
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37.
ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral I.
Campinas: Pontes, 2005.
BRAIT, Beth. A Construção do Sentido. São Paulo:
Contexto, 2019.
CHOMSKY, Noam. Aspectos da Teoria da Sintaxe.
Petrópolis: Vozes, 1975.
FIORIN, José Luiz. Elementos de Análise do Discurso.
São Paulo: Contexto, 2019.
KOCH, Ingedore Villaça. A Coesão Textual. São Paulo:
Contexto, 2017.
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo:
Perspectiva, 2000.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral.
São Paulo: Cultrix, 2012.
SEARLE, John R. A Redescoberta da Mente. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.