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domingo, 30 de novembro de 2025

Dimensões Universais da Linguagem: Uma Análise Abrangente

Imagem desenvolvida por IA
A linguagem, compreendida como a atividade humana fundamental de comunicar e significar, transcende a mera emissão de sons ou a escrita de símbolos. Ela se manifesta através de um conjunto complexo de características intrínsecas, que a tornam um fenômeno universal e distintivo da espécie humana.

Conforme apontado pelo gramático Evanildo Bechara (2009), a linguagem se estrutura em cinco dimensões universais interligadas: criatividade (ou enérgeia), materialidade, semanticidade, alteridade e historicidade. A compreensão aprofundada dessas dimensões é crucial para desvendar a riqueza e a complexidade do processo comunicativo e da própria cognição humana.

Criatividade (ou Enérgeia): A Capacidade Gerativa

A dimensão da criatividade, também referida como enérgeia, destaca a linguagem como uma atividade intrinsecamente livre e inovadora, que vai muito além da simples repetição de padrões preexistentes. Não se trata apenas da capacidade de produzir obras literárias, mas da habilidade cotidiana de gerar e compreender um número infinito de sentenças novas a partir de um conjunto finito de regras e elementos.

Essa perspectiva remonta a Wilhelm von Humboldt, para quem a linguagem não é um ergon (produto estático), mas uma enérgeia (atividade dinâmica e criadora).

Noam Chomsky (1975) aprofundou essa compreensão ao introduzir a distinção entre:

  • Competência: O conhecimento inato e implícito que um falante possui de sua língua.
  • Performance: O uso real da linguagem em situações concretas, sujeito a fatores como memória e atenção.

A criatividade reside, portanto, na competência gerativa: a capacidade de inovar e adaptar a linguagem a novas situações, produzindo enunciados nunca antes ouvidos, mas imediatamente compreendidos.

Materialidade: A Concretude Fisiológica e Sociocultural

A linguagem, para se manifestar, requer uma base material. Fisiologicamente, é uma atividade condicionada pela capacidade humana de utilizar os órgãos de fonação para produzir signos fonéticos articulados – os fonemas. Na escrita, essa materialidade se traduz em grafemas e símbolos visuais.

Além da base biológica, a materialidade da linguagem se estende à sua manifestação física no mundo. Ferdinand de Saussure (2012) destacou o significante (a imagem acústica ou forma gráfica) como a parte material do signo, oposta ao significado (o conceito). Essa materialidade é também sociocultural, pois a língua se concretiza em textos, livros e mídias digitais, permitindo sua transmissão através do tempo e do espaço.

Semanticidade: O Universo de Sentidos

A semanticidade é a dimensão que confere à linguagem seu caráter distintivo e sua função primordial: a de significar. Na linguagem, tudo é semântico; a cada forma corresponde um conteúdo significativo.

A compreensão da semanticidade pode ser aprofundada pela semiótica de Charles Sanders Peirce (2000), que categoriza os signos em ícones, índices e símbolos. A linguagem verbal opera predominantemente com símbolos, cujo significado é estabelecido por convenção social. O sentido de uma palavra não é fixo, mas construído e negociado no contexto de uso (Fiorin, 2019), permitindo que os falantes atribuam sentido ao mundo e organizem o pensamento.

Alteridade: A Dimensão Interacional

A linguagem é, por natureza, um fenômeno social. A dimensão da alteridade expressa que o ato de significar é sempre um "ser com outros". O ser humano é um ser político-social, e a linguagem é a ferramenta dessa interação.

Émile Benveniste (2005) enfatizou que a linguagem é o lugar onde o "eu" e o "tu" se constituem. A comunicação não é unilateral, mas uma troca mútua. A teoria dos atos de fala (Austin e Searle) ilustra isso ao demonstrar que, ao falar, não apenas descrevemos o mundo, mas realizamos ações (prometer, perguntar, ordenar). A linguagem é, portanto, uma forma de ação social que molda as relações humanas.

Historicidade: A Dinâmica Evolutiva

A linguagem não existe no vácuo; ela se manifesta sempre sob a forma de uma língua específica (portuguesa, inglesa, latina, etc.), produto de uma tradição histórica. As línguas são sistemas vivos em constante evolução.

Saussure distinguiu a sincronia (estudo em um momento dado) da diacronia (estudo da evolução no tempo). A historicidade da linguagem é intrínseca à do próprio homem. A "imposição" da língua (chamar um objeto de "livro" e não de outra coisa) é a aceitação de um contrato social necessário para a comunicação. As variações linguísticas e as mudanças no léxico refletem as transformações culturais e tecnológicas das comunidades.

Para Além das Palavras: Expressões Extralinguísticas

A comunicação humana é frequentemente enriquecida por formas de expressão que vão além das unidades linguísticas formais. Elas são cruciais para a plena compreensão da mensagem:

Paralinguística

Refere-se aos aspectos vocais não-verbais como entonação, ritmo e pausas. A forma como algo é dito pode alterar seu significado. Veja este exemplo literário de Machado de Assis:

“Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as sílabas com o dedo”.

Cinésica

Envolve movimentos corporais, gestos e expressões faciais. A mímica pode ser tão eloquente quanto as palavras. Como ilustra este trecho de Machado de Assis:

“Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos...”.

Ou ainda a intensidade dramática capturada por Humberto de Campos:

“Os dois garotos, porém, esperneiam com a mudança de mãe: – Mentira!... Mentiiiira!... Mentiiiiiiiiiiira! – berra cada um para seu lado”.

Recursos Gráficos

Na escrita, elementos como maiúsculas, itálicos e pontuação carregam significado adicional. O emprego da maiúscula pode indicar excelência (ex: "Ele é um Professor com P maiúsculo"), e a grafia pode distinguir sentidos (ex: "Chegamos na hora h").

Conclusão

As cinco dimensões universais – criatividade, materialidade, semanticidade, alteridade e historicidade – revelam a linguagem como um fenômeno multifacetado. Elas não operam isoladamente, mas constituem um sistema dinâmico. A criatividade e a materialidade são universais, mas a semanticidade é a marca específica da linguagem. A alteridade fundamenta a historicidade, pois a língua se transforma na interação entre indivíduos. Compreender essas dimensões nos oferece uma visão da linguagem como a ferramenta mais poderosa da humanidade.

Referências Bibliográficas

AUSTIN, John L. Como Fazer Coisas com Palavras. São Paulo: Artes Médicas, 1990.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral I. Campinas: Pontes, 2005.

BRAIT, Beth. A Construção do Sentido. São Paulo: Contexto, 2019.

CHOMSKY, Noam. Aspectos da Teoria da Sintaxe. Petrópolis: Vozes, 1975.

FIORIN, José Luiz. Elementos de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2019.

KOCH, Ingedore Villaça. A Coesão Textual. São Paulo: Contexto, 2017.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2000.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2012.

SEARLE, John R. A Redescoberta da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.