"Morre um liberal, mas não morre a liberdade."
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O Médico que Virou a Voz da Oposição
Giovanni Battista Libero Badaró não nasceu no Brasil, mas
adotou a causa brasileira com um fervor que poucos nativos possuíam. Chegado da
Itália em 1826, instalou-se em São Paulo inicialmente como médico e educador.
Contudo, o clima político efervescente do Primeiro Reinado — marcado pelo
autoritarismo de Dom Pedro I, a dissolução da Assembleia Constituinte e a
repressão violenta à Confederação do Equador — despertou nele uma vocação mais
perigosa: o jornalismo político.
Em 1829, Badaró fundou o "O Observador
Constitucional". O nome não era acidental; era um manifesto. Seu
objetivo era vigiar o cumprimento da Constituição outorgada em 1824 e denunciar
os excessos do "Poder Moderador" e dos aliados absolutistas do
Imperador.
A Pena Afiada contra o Trono
Badaró usava a sátira, a crítica direta e a denúncia. Ele
não poupava as autoridades locais, especialmente o Ouvidor Cândido Japiaçu,
figura carimbada do autoritarismo local e protegido político do governo
imperial.
Ele encarnava a imprensa não apenas como veículo de
informação, mas como ferramenta de fiscalização do poder público. Em suas
colunas, a liberdade de expressão não era um conceito abstrato, mas uma prática
diária de resistência. Ele alertava que a independência do Brasil corria risco
de se tornar uma nova forma de absolutismo.
O Crime que Abalou o Brasil
A coragem cobrou seu preço na noite de 20 de novembro de
1830. Ao voltar para sua casa na Rua de São José (hoje Rua Líbero Badaró), no
centro de São Paulo, o jornalista foi emboscado e baleado.
Badaró não morreu imediatamente. Sua agonia durou horas,
tempo suficiente para transformar o atentado em um martírio político. Embora os
executores materiais fossem figuras obscuras, a opinião pública não teve
dúvidas sobre os mandantes morais: os absolutistas ligados ao Imperador. A
morte de Badaró chocou a nação, e seu enterro foi uma das maiores manifestações
políticas que São Paulo já vira.
O Caminho para a Abdicação
O sangue de Badaró manchou a reputação de Dom Pedro I de
forma irreversível. O imperador, já desgastado pela crise econômica e pela
questão sucessória em Portugal, viu sua popularidade despencar.
Ao viajar para Minas Gerais no início de 1831, Dom Pedro I
foi recebido não com festas, mas com sinos tocando em luto e faixas
homenageando Líbero Badaró. O fantasma do jornalista o perseguiu até o Rio de
Janeiro, onde a tensão explodiu na famosa Noite das Garrafadas. A
impossibilidade de punir os culpados pelo crime foi a prova final de que não
havia justiça sob aquele governo. Cinco meses após o atentado, em 7 de abril de
1831, o Imperador abdicava do trono.
Legado
Líbero Badaró pagou com a vida, mas venceu a batalha
política. Ele permanece como um símbolo atemporal da liberdade de imprensa no
Brasil: a ideia de que a verdade, quando impressa e distribuída, possui uma
força que nem a violência do Estado pode silenciar.
Referências Bibliográficas
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da família real de Bragança, em 1808, até a abdicação do imperador D. Pedro I,
em 1831. Brasília: Senado Federal, 2011.
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2009.
LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos
jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras,
2000.
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uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil.
4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.
