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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Luís Joaquim dos Santos Marrocos: O Guardião da Memória Real e Cronista da Corte Portuguesa no Brasil

Luís Joaquim dos Santos Marrocos emerge como uma figura central e, por vezes, subestimada na história do Brasil e de Portugal no início do século XIX. Sua atuação como secretário particular de Dom João VI e, mais notavelmente, como bibliotecário da Real Biblioteca, foi crucial para a preservação e difusão do conhecimento em um período de profundas transformações, legando um acervo inestimável e um registro detalhado do cotidiano da corte no Rio de Janeiro.

Nascido em Portugal, Marrocos acompanhou a família real portuguesa em sua fuga para o Brasil em 1808, um evento que marcou o início de uma nova fase para a colônia e para a cultura brasileira. Chegando ao Rio de Janeiro, ele assumiu funções de grande responsabilidade e proximidade com o regente, e posteriormente rei, Dom João VI. Essa posição estratégica não só lhe garantiu acesso privilegiado aos bastidores do poder, mas também o colocou no epicentro da organização de uma das mais importantes instituições culturais da época: a Real Biblioteca.

A Real Biblioteca, transferida de Lisboa para o Rio de Janeiro, representava o tesouro intelectual do reino. A tarefa de reorganizar e expandir esse vasto acervo em solo brasileiro era monumental. Marrocos, com dedicação e esmero, desempenhou um papel fundamental nesse processo. Sob sua supervisão, a biblioteca não apenas foi instalada, mas também categorizada, catalogada e aberta a estudiosos e interessados, transformando-se rapidamente no maior acervo da América. Esse feito não foi meramente um ato de administração; foi a criação de um centro de saber que irradiou influência intelectual e cultural, contribuindo para o desenvolvimento de uma identidade acadêmica e científica no Brasil colonial.

Além de sua perspicácia administrativa e bibliotecária, Marrocos se destaca por seus escritos pessoais. Suas cartas, particularmente as enviadas a seu pai em Portugal, são consideradas uma das mais ricas fontes primárias para a compreensão do Brasil joanino. Nesses documentos, ele descreve com vivacidade e um olhar aguçado o dia a dia da corte, as intrigas políticas, os costumes sociais, as dificuldades e peculiaridades da vida na então capital do vice-reino, e as impressões sobre a terra e seu povo. Longe de serem meros relatos factuais, esses escritos revelam a sensibilidade e a visão crítica de um observador atento, oferecendo uma perspectiva íntima e, por vezes, irônica dos eventos que moldaram a história. Para historiadores e pesquisadores, as "Cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos" são um portal direto para a mentalidade e o ambiente de uma época crucial.

O legado de Luís Joaquim dos Santos Marrocos é multifacetado. Ele foi o zelador de um patrimônio bibliográfico que se tornaria a base da atual Biblioteca Nacional do Brasil, um pilar da cultura nacional. Ao mesmo tempo, ele foi um cronista involuntário, cujos registros pessoais oferecem um contraponto humano e detalhado aos documentos oficiais da época. Sua vida e obra são um testemunho da importância dos indivíduos na construção das instituições e na preservação da memória histórica, consolidando seu lugar como um dos grandes contribuintes para a cultura e o conhecimento no Brasil.

Referências Bibliográficas

MARROCOS, L. J. dos S. Cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos (1811-1821). Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 56, p. [indicar p.i-p.f.], 1939.

SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SILVA, A. R. C. da. As cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos: fontes para a história da família e do cotidiano no Rio de Janeiro Joanino. Topoi (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 9, n. 16, p. 138-158, jan./jun. 2008.

SOUZA, I. A Real Biblioteca e a gênese da Biblioteca Nacional do Brasil. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 19, n. 1, p. 74-88, jan./mar. 2014.

terça-feira, 4 de março de 2025

Carlota Joaquina de Bourbon: Entre o Poder e a Controvérsia na História Luso-Brasileira

Carlota Joaquina de Bourbon (1775–1830), rainha consorte de Portugal, figura como uma das personagens mais controversas da história luso-brasileira. Filha do rei Carlos IV da Espanha, seu casamento com Dom João VI foi marcado por interesses políticos e conflitos pessoais. Neste artigo, busca-se analisar o papel político de Carlota Joaquina, suas articulações durante o período da transferência da corte portuguesa ao Brasil (1808) e seu legado histórico, frequentemente associado à intriga e à resistência às mudanças liberais. A pesquisa fundamenta-se em fontes históricas e na historiografia recente que busca revisitar sua atuação além dos estereótipos.

Introdução

Carlota Joaquina de Bourbon é lembrada na história como uma figura polêmica, muitas vezes retratada com adjetivos depreciativos como "ambiciosa" e "conspiradora". Entretanto, novas abordagens historiográficas apontam para a necessidade de uma reavaliação crítica de sua trajetória, destacando sua participação ativa na política da época. Neste artigo, analisamos sua influência política, suas pretensões dinásticas e o impacto de sua presença na corte portuguesa no Brasil.

Contexto Histórico e Biográfico

Carlota Joaquina nasceu em 25 de abril de 1775, na Espanha. Aos dez anos foi prometida em casamento a Dom João, então príncipe herdeiro de Portugal, como parte de uma aliança política entre os reinos ibéricos. Casou-se oficialmente em 1785, numa união que, desde o início, demonstrou ser turbulenta, tanto no aspecto pessoal quanto político.

Durante a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, devido à invasão napoleônica na Península Ibérica, Carlota Joaquina desempenhou um papel relevante, principalmente ao tentar reivindicar para si o governo das possessões espanholas na América do Sul, alegando a ilegitimidade do domínio francês na Espanha.

O Carlotismo: Ambições e Limites

O movimento conhecido como "Carlotismo" refere-se aos esforços de Carlota Joaquina em assumir o controle sobre territórios espanhóis na América, utilizando como justificativa sua condição de filha do rei deposto e esposa do regente de Portugal. Ela tentou legitimar sua pretensão ao trono do Rio da Prata (atual Argentina, Uruguai e Paraguai), mas encontrou resistência tanto dos espanhóis quanto dos próprios portugueses e brasileiros, que temiam envolver-se em conflitos externos.

Embora não tenha obtido sucesso efetivo, o Carlostismo revelou a disposição política de Carlota Joaquina de atuar além do papel cerimonial esperado das mulheres da monarquia, inserindo-se nos debates geopolíticos do início do século XIX.

Carlota Joaquina e o Absolutismo

Carlota Joaquina também é lembrada por sua firme oposição ao movimento liberal em Portugal. Após a Revolução Liberal do Porto (1820), que estabeleceu a Constituição de 1822, Carlota posicionou-se ao lado dos setores mais conservadores, defendendo a restauração do absolutismo. Sua influência foi crucial durante as tensões políticas que envolveram a volta da corte a Portugal em 1821 e as disputas internas na família real.

Morte e Legado

Carlota Joaquina morreu em 7 de janeiro de 1830, em Queluz, Portugal. Após sua morte, sua imagem foi consolidada como a de uma figura antagônica às transformações políticas que marcaram a transição do Antigo Regime para o constitucionalismo. Contudo, estudos recentes propõem uma leitura mais complexa de sua trajetória, reconhecendo-a como uma mulher que soube articular poder dentro das limitações de seu tempo.

Considerações Finais

Carlota Joaquina de Bourbon ultrapassou os limites tradicionais do papel feminino na monarquia, agindo como agente político em momentos decisivos da história luso-brasileira. Ao reavaliar sua atuação sem os preconceitos consolidados pela historiografia tradicional, podemos compreender melhor as dinâmicas de poder na corte portuguesa e as relações entre Portugal, Espanha e Brasil no início do século XIX.

 

Referências

  • ARRUDA, José Jobson de Andrade. O Brasil no Contexto da América Latina: Século XIX. São Paulo: Ática, 1993.
  • BARMAN, Roderick J. Brazil: The Forging of a Nation, 1798–1852. Stanford: Stanford University Press, 1988.
  • COSTA, Fernando Dores. Carlota Joaquina e o Carlostismo: Ambições e Limites. Revista Brasileira de História, v. 24, n. 47, p. 11-38, 2004.
  • LYRA, Maria de Lourdes Viana. A utopia do poderoso império: Portugal e Brasil: 1798-1822. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994.
  • SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1993.