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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Zumbi dos Palmares: Herói, Símbolo ou uma Figura Controvertida?

Antônio Parreras
Zumbi dos Palmares é, sem dúvida, uma das figuras mais emblemáticas da história do Brasil. Oficialmente reconhecido como Herói da Pátria, seu nome está ligado à luta incansável contra a escravidão, e a data de sua morte, 20 de novembro, é celebrada como o Dia da Consciência Negra. No entanto, nos últimos anos, uma corrente revisionista, amplificada por publicações como a Gazeta do Povo e a Revista Oeste, tem questionado essa imagem heroica, trazendo à tona um lado de Zumbi que desafia a narrativa tradicional.

Este artigo explora as duas faces dessa complexa figura histórica: o símbolo da resistência que a maioria dos brasileiros conhece e o líder controverso que seus críticos descrevem.

A Narrativa Consagrada: Zumbi como Símbolo da Liberdade

A visão mais difundida e ensinada nas escolas retrata Zumbi como o último e mais aguerrido líder do Quilombo dos Palmares, o maior e mais duradouro refúgio de escravizados do período colonial brasileiro.

  • Líder da Resistência: Zumbi assumiu o comando de Palmares após romper com seu tio, Ganga Zumba. Enquanto Ganga Zumba aceitou um acordo de paz com a Coroa Portuguesa, que previa a alforria para os nascidos em Palmares em troca da submissão e da devolução de outros escravizados, Zumbi viu o tratado como uma traição. Ele liderou a resistência, defendendo a liberdade incondicional para todos.
  • Um Reinado em Território Hostil: Sob sua liderança, Palmares resistiu por quase duas décadas aos ataques das forças coloniais. O quilombo não era apenas um esconderijo, mas uma sociedade complexa, com sua própria organização social, política e militar, abrigando dezenas de milhares de pessoas.
  • O Ícone Póstumo: Após sua morte em uma emboscada em 1695, sua cabeça foi exposta em praça pública no Recife para desmentir a crença na sua imortalidade e intimidar outros escravizados. O efeito, no entanto, foi o oposto: Zumbi se tornou um mártir e um símbolo poderoso da luta pela liberdade e dignidade do povo negro no Brasil.

Essa visão é a base para o feriado da Consciência Negra e para o reconhecimento de Zumbi como uma figura central na formação da identidade afro-brasileira.

A Visão Crítica: O Lado Controverso de Zumbi

Em contraste com a imagem do herói imaculado, historiadores e publicações de viés mais conservador e liberal apresentam uma série de contrapontos que humanizam e, segundo eles, desmistificam Zumbi. Essas críticas, encontradas em artigos da Gazeta do PovoRevista Oeste e em análises de alguns historiadores, focam em três pontos principais:

  1. Zumbi Tinha Escravos? Esta é a acusação mais forte. Críticos argumentam que a estrutura social de Palmares não era igualitária. O quilombo capturava membros de tribos rivais e até mesmo outros negros durante suas incursões, e esses prisioneiros eram mantidos em um regime de servidão. A defesa dessa visão alega que Palmares replicava um modelo social africano onde a escravidão por captura de guerra era comum, diferenciando-se da escravidão puramente racial e comercial praticada pelos portugueses. Para essa corrente, Zumbi não lutava contra a instituição da escravidão em si, mas contra a sua própria escravização e a de seu povo.
  2. O Conflito com Ganga Zumba e a Tomada do Poder A transição de poder de Ganga Zumba para Zumbi não foi pacífica. Enquanto a narrativa heroica foca no idealismo de Zumbi ao rejeitar o acordo de paz, a visão crítica sugere uma luta interna pelo poder. Ganga Zumba foi envenenado ou assassinado pouco depois de aceitar o acordo com os portugueses. Embora não haja provas conclusivas que incriminem Zumbi diretamente, historiadores apontam que ele liderou a facção que se opôs ao seu tio, beneficiando-se diretamente de sua morte para se tornar o líder incontestável de Palmares.
  3. Autoritarismo e Violência A liderança de Zumbi é descrita por essa perspectiva como autoritária. Para manter a coesão e a defesa de Palmares, ele teria imposto um regime rígido e, por vezes, brutal. As leis do quilombo previam a pena de morte para crimes como roubo, adultério ou tentativa de fuga. Seus críticos argumentam que a liberdade em Palmares era condicionada a uma lealdade absoluta ao seu líder, e não um direito universal.

Conclusão: Um Legado em Disputa

Compreender Zumbi dos Palmares exige navegar por essas duas correntes. Ele não foi um herói de contos de fadas, mas um líder forjado na violência e na complexidade de um dos períodos mais brutais da história brasileira. Seu legado, portanto, continua a ser um campo de batalha de narrativas, refletindo as próprias tensões e contradições do Brasil.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

FREITAS, Décio. Palmares, a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

GOMES, Flávio dos Santos. Palmares: escravidão e guerra santa. São Paulo: Editora Contexto, 2018.

NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. São Paulo: LeYa, 2009.

REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos (Orgs.). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.