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| Antônio Parreras |
Este artigo explora as duas faces dessa complexa figura
histórica: o símbolo da resistência que a maioria dos brasileiros conhece e o
líder controverso que seus críticos descrevem.
A Narrativa Consagrada: Zumbi como Símbolo da Liberdade
A visão mais difundida e ensinada nas escolas retrata Zumbi
como o último e mais aguerrido líder do Quilombo dos Palmares, o
maior e mais duradouro refúgio de escravizados do período colonial brasileiro.
- Líder
da Resistência: Zumbi assumiu o comando de Palmares após romper
com seu tio, Ganga Zumba. Enquanto Ganga Zumba aceitou um
acordo de paz com a Coroa Portuguesa, que previa a alforria para os
nascidos em Palmares em troca da submissão e da devolução de outros
escravizados, Zumbi viu o tratado como uma traição. Ele liderou a
resistência, defendendo a liberdade incondicional para todos.
- Um
Reinado em Território Hostil: Sob sua liderança, Palmares
resistiu por quase duas décadas aos ataques das forças coloniais. O
quilombo não era apenas um esconderijo, mas uma sociedade complexa, com
sua própria organização social, política e militar, abrigando dezenas de
milhares de pessoas.
- O
Ícone Póstumo: Após sua morte em uma emboscada em 1695, sua
cabeça foi exposta em praça pública no Recife para desmentir a crença na
sua imortalidade e intimidar outros escravizados. O efeito, no entanto,
foi o oposto: Zumbi se tornou um mártir e um símbolo poderoso da luta pela
liberdade e dignidade do povo negro no Brasil.
Essa visão é a base para o feriado da Consciência Negra e
para o reconhecimento de Zumbi como uma figura central na formação da
identidade afro-brasileira.
A Visão Crítica: O Lado Controverso de Zumbi
Em contraste com a imagem do herói imaculado, historiadores
e publicações de viés mais conservador e liberal apresentam uma série de
contrapontos que humanizam e, segundo eles, desmistificam Zumbi. Essas
críticas, encontradas em artigos da Gazeta do Povo, Revista
Oeste e em análises de alguns historiadores, focam em três pontos
principais:
- Zumbi
Tinha Escravos? Esta é a acusação mais forte. Críticos argumentam
que a estrutura social de Palmares não era igualitária. O quilombo
capturava membros de tribos rivais e até mesmo outros negros durante suas
incursões, e esses prisioneiros eram mantidos em um regime de servidão. A
defesa dessa visão alega que Palmares replicava um modelo social africano
onde a escravidão por captura de guerra era comum, diferenciando-se da
escravidão puramente racial e comercial praticada pelos portugueses. Para
essa corrente, Zumbi não lutava contra a instituição da escravidão em si,
mas contra a sua própria escravização e a de seu povo.
- O
Conflito com Ganga Zumba e a Tomada do Poder A transição de poder
de Ganga Zumba para Zumbi não foi pacífica. Enquanto a narrativa heroica
foca no idealismo de Zumbi ao rejeitar o acordo de paz, a visão crítica
sugere uma luta interna pelo poder. Ganga Zumba foi envenenado ou
assassinado pouco depois de aceitar o acordo com os portugueses. Embora
não haja provas conclusivas que incriminem Zumbi diretamente,
historiadores apontam que ele liderou a facção que se opôs ao seu tio,
beneficiando-se diretamente de sua morte para se tornar o líder incontestável
de Palmares.
- Autoritarismo
e Violência A liderança de Zumbi é descrita por essa perspectiva
como autoritária. Para manter a coesão e a defesa de Palmares, ele teria
imposto um regime rígido e, por vezes, brutal. As leis do quilombo previam
a pena de morte para crimes como roubo, adultério ou tentativa de fuga.
Seus críticos argumentam que a liberdade em Palmares era condicionada a
uma lealdade absoluta ao seu líder, e não um direito universal.
Conclusão: Um Legado em Disputa
Compreender Zumbi dos Palmares exige navegar por essas duas
correntes. Ele não foi um herói de contos de fadas, mas um líder forjado na
violência e na complexidade de um dos períodos mais brutais da história
brasileira. Seu legado, portanto, continua a ser um campo de batalha de
narrativas, refletindo as próprias tensões e contradições do Brasil.
Referências Bibliográficas
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o
longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
FREITAS, Décio. Palmares, a guerra dos escravos.
Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.
GOMES, Flávio dos Santos. Palmares: escravidão e
guerra santa. São Paulo: Editora Contexto, 2018.
NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da
História do Brasil. São Paulo: LeYa, 2009.
REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos (Orgs.). Liberdade
por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das
Letras, 1996.

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