Esta máquina, nascida de circunstâncias históricas
singulares e da visão empreendedora de figuras icônicas, transformou não apenas
a indústria radiofônica, mas também os estúdios de gravação, a produção
cinematográfica e o conceito mesmo de entretenimento moderno.
O Contexto Histórico: Da Guerra à Inovação
A limitação dos discos de gravação
Até o final da Segunda Guerra Mundial, a tecnologia de
gravação sonora enfrentava severas limitações. Os discos de gravação,
então o único meio disponível de armazenamento de áudio, apresentavam problemas
que comprometiam a qualidade e a praticidade:
- Dificuldade
de produção: eram caros, complexos e demorados para fabricar.
- Qualidade
sonora inferior: ruídos, distorções e perda de frequências eram
comuns.
- Impossibilidade
de edição: qualquer erro exigia regravação total.
- Tempo
limitado: a duração máxima era restrita ao espaço físico do disco.
Dessa forma, as emissoras de rádio eram praticamente
obrigadas a transmitir tudo ao vivo, gerando limitações criativas e
pressão psicológica nos artistas.
O descobrimento do Magnetofone alemão
A virada nesta história ocorreu quase por acaso. Jack
Mullin, oficial de comunicações do Exército dos EUA na Segunda Guerra,
percebeu que as transmissões de rádio alemãs tinham qualidade sonora incomparavelmente
superior às americanas e britânicas.
Após a derrota alemã, Mullin foi designado para investigar
equipamentos militares e, numa estação de rádio perto de Frankfurt,
encontrou a fonte daquele áudio impecável: o Magnetofone, um gravador de
fita de rolo com uso pioneiro de fita magnética.
A Visão de Bing Crosby: Do Protótipo ao Produto
Mullin e as demonstrações
Mullin enviou dois Magnetofones desmontados para os EUA e,
após remontagem e melhorias, iniciou em 1947 uma série de demonstrações para
figuras importantes da indústria do entretenimento.
O investimento de Bing Crosby
Entre os espectadores estava Bing Crosby, astro
máximo do rádio e cinema. Crosby odiava transmissões ao vivo e já havia até
abandonado temporariamente seu programa por causa da baixa qualidade sonora
disponível.
Ao ver o gravador de Mullin, Crosby identificou uma
oportunidade única. Ele:
- contratou
Mullin para sua turnê de 1947/48;
- investiu
50 mil dólares para transformar o protótipo em produto comercial.
Assim nasceu o Ampex modelo 200/200A, primeiro
gravador de fita de rolo produzido em série nos EUA. Em 1948, a rede ABC
adquiriu 12 unidades, iniciando uma revolução sonora na radiodifusão.
A Engenharia do Ampex 200A: Design e Funcionalidade
Portabilidade e design minimalista
Apesar de chamado de "portátil", o 200A era mais
adequadamente "móvel". Seu design elegante contrastava com o
Magnetofone alemão, mais robusto e intimidador.
Montado em um gabinete metálico reforçado, o
equipamento foi pensado para uso profissional e facilidade de transporte entre
estúdios.
Painel de controle intuitivo
O 200A revolucionou a usabilidade ao adotar uma interface
simples com cinco botões iluminados:
- Reproduzir
- Parar
- Retroceder
- Avançar
- Gravar
Essa simplicidade tornava o equipamento acessível mesmo para
operadores pouco experientes.
Especificações técnicas
- Fita
magnética: largura de 6,3 mm; duração de 35 minutos.
- Cabeçotes:
apagamento, gravação e reprodução.
- Velocidade
constante: garantida por motor dedicado.
- Interruptor
automático: protegia a fita ao final da gravação.
- Retrocesso
rápido: opção de velocidade duplicada.
A Revolução Sonora: Impactos Imediatos e Duradouros
Transformação da radiodifusão
O Ampex 200A mudou profundamente o rádio:
- facilitou
a edição de som;
- elevou
a qualidade das transmissões;
- permitiu
criação de acervos pré-gravados;
- impulsionou
programação criativa e flexível.
Impacto na música e no cinema
A tecnologia viabilizou:
- a
era de ouro dos estúdios fonográficos;
- sincronização
áudio-vídeo precisa no cinema;
- registro
fiel de eventos históricos, discursos e apresentações.
Legado para o mundo digital
Os princípios do 200A são a base de:
- podcasting;
- streaming
musical;
- produção
audiovisual moderna;
- preservação
digital de acervos sonoros.
Conclusão: A máquina que alterou o curso da história
O Ampex 200A foi mais que um avanço técnico: foi um
ponto de inflexão na história da comunicação humana. A partir dele, a gravação
e edição de som tornaram-se práticas acessíveis, eficientes e de alta
qualidade.
Graças ao encontro entre Jack Mullin, o Magnetofone
alemão e o investimento visionário de Bing Crosby, a cultura sonora
mundial foi completamente transformada. Hoje, podcasts, audiolivros e streaming
só existem porque, em 1947, Mullin apresentou sua máquina a Crosby — e o futuro
da gravação começou ali.
O Ampex 200A merece seu lugar entre as grandes invenções do
século XX.
Referências Bibliográficas
CHALINE, Erich. 50 máquinas que mudaram o rumo da
história. Tradução de Fabiano Moraes. Rio de Janeiro: Sextante, 2013.
DANIEL, Eric D.; MEE, C. Denis; CLARK, Mark H. Magnetic
Recording: The First 100 Years. Piscataway: IEEE Press, 1999.
MILLARD, André D. America on Record: A History of
Recorded Sound. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.
MULLIN, John T. The Birth of the Tape Recording Industry. IEEE
Spectrum, v. 13, n. 11, p. 28-35, nov. 1976.
SCHOENHERR, Steven E. Recording Technology History.
San Diego: University of San Diego, 2015. Disponível em: Internet Archive
Wayback Machine.

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