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| Imagem: James Ramsay |
Sua vida foi uma verdadeira aventura, repleta de glória,
controvérsias e uma genialidade militar que o transformou em uma lenda dos
mares. Ele não era um herói comum; era um "solucionador de problemas"
que, embora buscasse pagamento e reconhecimento, entregava resultados onde
outros falhavam.
Um Início Turbulento: Da Nobreza aos Mares Revoltos
Thomas Cochrane nasceu em 1775, na Escócia, em uma família
nobre com finanças em declínio. Desde cedo, mostrou um espírito inquieto e
inteligência acima da média. Sua carreira na Marinha Real Britânica começou
cedo, destacando-se logo por sua bravura e táticas inovadoras.
Mestre na guerra de corso, capturou navios inimigos e causou
estragos nas frotas francesas e espanholas durante as Guerras Napoleônicas. Sua
reputação cresceu, assim como sua lista de inimigos. Homem de princípios, mas
de temperamento difícil, Cochrane não hesitava em desafiar a corrupção e a
burocracia de seus superiores.
Essa postura contribuiu para que fosse injustamente
envolvido em uma acusação de fraude na bolsa de valores em 1814. Apesar de
jurar inocência, foi condenado, expulso da Marinha Britânica e despojado de
suas honrarias. Foi um golpe duro, mas a história de Cochrane estava longe de
terminar.
O Chamado da Liberdade: A América do Sul em Chamas
Com a carreira na Europa arruinada, Cochrane buscou novos
horizontes na América do Sul, um continente em plena efervescência, lutando
contra o domínio colonial. As jovens nações precisavam desesperadamente de
poder naval, e Cochrane tinha experiência de sobra.
Ele era o perfil exato que as novas repúblicas buscavam: um
líder carismático e um estrategista brilhante. Sua fama de "Lobo do
Mar" o precedia. Sua chegada ao Chile, em 1818, marcou o início de uma
nova fase. Ele estava pronto para provar seu valor novamente, desta vez pela
causa da independência.
Fundador de Marinhas: O Legado Chileno
No Chile, Cochrane encontrou sua primeira grande
oportunidade de redenção. Contratado para organizar a recém-criada esquadra
chilena, ele transformou uma frota modesta em uma força formidável.
Liderou ataques audaciosos, como a tomada das fortalezas de
Valdivia, consideradas inexpugnáveis, utilizando táticas de desembarque noturno
e surpresa. Também foi fundamental para a libertação do Peru, transportando as
tropas do General San Martín e bloqueando o porto de Callao. Sua atuação
garantiu a independência dessas nações e estabeleceu as bases de suas marinhas
modernas.
O Brasil Pede Socorro: Um Mercenário a Serviço do Império
Após as vitórias no Pacífico, a fama de Cochrane chegou ao
Atlântico. Quando o Brasil declarou independência em 1822, a situação era
crítica. Embora D. Pedro I tivesse dado o Grito do Ipiranga, províncias
importantes como a Bahia, o Maranhão e o Pará permaneciam leais a Portugal.
O governo brasileiro, sob a liderança de José Bonifácio,
decidiu contratar o renomado almirante. Cochrane chegou ao Rio de Janeiro em
1823, atraído pela promessa de reabilitação e fortuna. Para o Brasil, ele era a
solução urgente; para Cochrane, uma nova chance de glória.
Táticas Ousadas e Blefes Geniais: A Campanha da Bahia
A primeira missão foi na Bahia, onde as tropas portuguesas
resistiam em Salvador. A cidade estava cercada por terra, mas os portugueses
controlavam o mar. Cochrane, com uma frota inferior numericamente, optou por
não enfrentar a esquadra portuguesa em batalha aberta.
Utilizando táticas de guerrilha naval e a velocidade de seus
navios, ele cortou o suprimento inimigo. A pressão do bloqueio forçou os
portugueses a evacuarem Salvador em 2 de julho de 1823. Cochrane perseguiu a
frota inimiga até o Atlântico Norte, garantindo que não retornassem.
O Mestre do Blefe: Maranhão e Pará
Foi no Norte que a genialidade de Cochrane brilhou através
da guerra psicológica. Após a Bahia, dirigiu-se ao Maranhão a bordo da nau
capitânia Pedro I. Sabendo que não tinha força suficiente para uma
invasão, usou sua reputação.
Ao chegar a São Luís, anunciou que uma "poderosa
esquadra brasileira" estava logo atrás dele (o que era mentira) e que a
resistência seria inútil. Aterrorizadas pela fama do almirante, as autoridades
portuguesas se renderam sem disparar um tiro.
Para o Pará, Cochrane utilizou a mesma tática, mas enviou
seu subordinado, John Pascoe Grenfell, a bordo do brigue Maranhão.
Grenfell replicou o blefe do seu comandante: afirmou que a grande frota de
Cochrane estava a caminho de Belém. O pânico se instalou e os portugueses se
renderam. Com astúcia e desinformação, Cochrane garantiu a integridade
territorial do Brasil quase sem derramamento de sangue no Norte.
Glória, Controvérsias e Legado
A figura de Thomas Cochrane é complexa. Ele lutava por
dinheiro e honra, e sua passagem pelo Brasil foi marcada por disputas
acaloradas sobre pagamentos e presas de guerra. Sentindo-se injustiçado pelo
governo imperial, partiu em 1825 de forma intempestiva.
Ainda lutaria pela independência da Grécia antes de ser
finalmente perdoado pela Coroa Britânica, recuperando suas honrarias e morrendo
em 1860 como um herói. No Brasil, ele é lembrado como um dos pilares da nossa
história naval. Sem sua audácia, o mapa do Brasil poderia ser muito diferente
hoje. Ele foi o pirata que virou herói, o mercenário da liberdade cujo nome
ecoa na história naval sul-americana.
Referências Bibliográficas
BEAGLEHOLE, J. C. The Life of Captain James Cook.
Stanford: Stanford University Press, 1974.
COCHRANE, Thomas. The Autobiography of a Seaman.
London: Richard Bentley, 1860.
GRAHAM, Maria. Journal of a Residence in Chile
During the Year 1822. London: John Murray, 1824.
HUMPHREYS, R. A. Liberation in South America
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American Studies, 1983.
POCOCK, Tom. The Terror Before Trafalgar: Nelson,
Napoleon, and the Secret War. New York: W.W. Norton & Company, 2002.
SALLES, Ricardo. Nostalgia Imperial: A Formação da
Identidade Nacional Brasileira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
VALE, Brian. Independência: a libertação do Brasil.
Rio de Janeiro: Record, 2022.
VALE, Brian. Cochrane in the Pacific: Fortune and
Freedom in Spanish America. London: I.B. Tauris, 2008. (Cobre o período no
Chile e Peru mencionado no texto).
VIANNA, Hélio. História da Marinha Brasileira.
Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1999.

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