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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Líbero Badaró: A Pena que Derrubou um Império

 "Morre um liberal, mas não morre a liberdade."

Domínio público/Wikimedia
A frase, supostamente pronunciada em seu leito de morte, ecoou muito além das ruas de São Paulo em 1830. Ela atravessou a Serra do Mar, chegou ao Rio de Janeiro e tornou-se o grito de guerra que culminaria no fim do Primeiro Reinado. Esta é a história de Líbero Badaró, o jornalista italiano que provou que a tinta de um jornal pode ser mais perigosa para um trono do que a pólvora de um canhão.

O Médico que Virou a Voz da Oposição

Giovanni Battista Libero Badaró não nasceu no Brasil, mas adotou a causa brasileira com um fervor que poucos nativos possuíam. Chegado da Itália em 1826, instalou-se em São Paulo inicialmente como médico e educador. Contudo, o clima político efervescente do Primeiro Reinado — marcado pelo autoritarismo de Dom Pedro I, a dissolução da Assembleia Constituinte e a repressão violenta à Confederação do Equador — despertou nele uma vocação mais perigosa: o jornalismo político.

Em 1829, Badaró fundou o "O Observador Constitucional". O nome não era acidental; era um manifesto. Seu objetivo era vigiar o cumprimento da Constituição outorgada em 1824 e denunciar os excessos do "Poder Moderador" e dos aliados absolutistas do Imperador.

A Pena Afiada contra o Trono

Badaró usava a sátira, a crítica direta e a denúncia. Ele não poupava as autoridades locais, especialmente o Ouvidor Cândido Japiaçu, figura carimbada do autoritarismo local e protegido político do governo imperial.

Ele encarnava a imprensa não apenas como veículo de informação, mas como ferramenta de fiscalização do poder público. Em suas colunas, a liberdade de expressão não era um conceito abstrato, mas uma prática diária de resistência. Ele alertava que a independência do Brasil corria risco de se tornar uma nova forma de absolutismo.

O Crime que Abalou o Brasil

A coragem cobrou seu preço na noite de 20 de novembro de 1830. Ao voltar para sua casa na Rua de São José (hoje Rua Líbero Badaró), no centro de São Paulo, o jornalista foi emboscado e baleado.

Badaró não morreu imediatamente. Sua agonia durou horas, tempo suficiente para transformar o atentado em um martírio político. Embora os executores materiais fossem figuras obscuras, a opinião pública não teve dúvidas sobre os mandantes morais: os absolutistas ligados ao Imperador. A morte de Badaró chocou a nação, e seu enterro foi uma das maiores manifestações políticas que São Paulo já vira.

O Caminho para a Abdicação

O sangue de Badaró manchou a reputação de Dom Pedro I de forma irreversível. O imperador, já desgastado pela crise econômica e pela questão sucessória em Portugal, viu sua popularidade despencar.

Ao viajar para Minas Gerais no início de 1831, Dom Pedro I foi recebido não com festas, mas com sinos tocando em luto e faixas homenageando Líbero Badaró. O fantasma do jornalista o perseguiu até o Rio de Janeiro, onde a tensão explodiu na famosa Noite das Garrafadas. A impossibilidade de punir os culpados pelo crime foi a prova final de que não havia justiça sob aquele governo. Cinco meses após o atentado, em 7 de abril de 1831, o Imperador abdicava do trono.

Legado

Líbero Badaró pagou com a vida, mas venceu a batalha política. Ele permanece como um símbolo atemporal da liberdade de imprensa no Brasil: a ideia de que a verdade, quando impressa e distribuída, possui uma força que nem a violência do Estado pode silenciar.

Referências Bibliográficas

ARMITAGE, John. História do Brasil: desde a chegada da família real de Bragança, em 1808, até a abdicação do imperador D. Pedro I, em 1831. Brasília: Senado Federal, 2011.

BASILE, Marcello. O Laboratório da Nação: a era regencial (1831-1840). In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (org.). O Brasil Imperial: volume II (1831-1870). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.