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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tomógrafo: A Revolução da Tomografia Computadorizada EMI

A descoberta dos raios X no fim do século XIX revolucionou o diagnóstico médico. Entretanto, os raios X possuíam certas limitações de imagem que só seriam solucionadas com a introdução da tomografia computadorizada pela EMI, em 1971. O subsequente desenvolvimento do tomógrafo abriu caminho para imagens de diagnóstico em 3D das estruturas internas do corpo humano.

Os Beatles e a tomografia do cérebro

A EMI é mais conhecida por sua contribuição à indústria musical; porém, entre as décadas de 1940 e 1980, a empresa contou com uma divisão de equipamentos eletrônicos que produziu radares durante a guerra e aparelhos de transmissão no período pós-guerra. Em 1958, sob a liderança de Godfrey Hounsfield (1919-2004), a empresa desenvolveu o primeiro computador transistorizado do Reino Unido. Aproveitando os recursos que a EMI vinha obtendo após fechar contrato com os Beatles em 1962, Hounsfield começou a trabalhar em um novo e revolucionário sistema de imagens do corpo humano: a tomografia computadorizada, conhecida simplesmente como TAC ou TC.

Em 1967, Hounsfield visitou a instituição que, na época, era referência em neurologia no Reino Unido — o National Neurological Hospital de Londres — para propor o desenvolvimento de um novo aparelho de raios X capaz de produzir imagens de seções do cérebro dos pacientes. O chefe de neurorradiologia respondeu que as técnicas existentes (pneumoencefalografia, planigrafia e angiografia) já eram capazes de fornecer imagens para diagnóstico, portanto, não via necessidade para um novo tipo de scanner. Na verdade, as técnicas listadas pelo médico estavam muito aquém do que Hounsfield propunha. A pneumoencefalografia, por exemplo, exigia a drenagem de quase todo o fluido cerebral, que era então substituído por gás para melhorar a qualidade dos raios X do cérebro. O procedimento, além de extremamente doloroso e arriscado, necessitava de um período de recuperação que variava de dois a três meses.

Sem se abalar pela recusa categórica, Hounsfield conseguiu uma reunião com o chefe de neurorradiologia do Atkinson Morley Hospital (AMH), na região sudoeste de Londres, onde foi recebido de forma bem mais favorável. Quatro anos depois, o tomógrafo produziria as primeiras imagens do cérebro no AMH, revolucionando da noite para o dia o campo da neurologia. Embora as primeiras imagens tivessem uma resolução relativamente baixa ( pixels), elas ofereceram uma ferramenta de diagnóstico incomparável, descrita na época como "melhor do que uma sala cheia de neurologistas". A TC, que vinha sendo desenvolvida de forma independente nos EUA, tornou-se posteriormente capaz de oferecer imagens em 3D do cérebro e de outras estruturas anatômicas.

Peça-chave: Técnica de Reconstrução Algébrica

A Técnica de Reconstrução Algébrica (Algebraic Reconstruction Technique — ART) é um algoritmo iterativo usado para a reconstrução de imagens a partir de uma série de projeções angulares. A técnica foi adaptada para uso na tomografia computadorizada por Godfrey Hounsfield em seu tomógrafo de 1971.

O tomógrafo é uma evolução da técnica de tomografia por raios X descoberta no início do século XX, na qual o radiologista obtinha uma imagem seccional através do corpo do paciente ao mover o tubo de raios X e a chapa fotográfica em direções opostas durante a exposição. O protótipo inicial do scanner produziu sua primeira imagem no AMH em 1º de outubro de 1971.

A máquina original foi projetada apenas para realizar imagens do cérebro; portanto, o dispositivo tinha espaço restrito à cabeça do paciente. Em 1973, Hounsfield desenvolveu um tomógrafo de corpo inteiro. O scanner possuía um tubo de raios X montado em cima do pórtico móvel (gantry) com um único detector fotomultiplicador na parte inferior. Em operação, o tomógrafo capturava 160 imagens paralelas ao longo de 180 graus, com cada varredura levando pouco mais de cinco minutos. Os dados eram enviados por fita para um computador de grande porte para serem processados por meio da ART, processo que levava 2 horas e meia. O primeiro tomógrafo EMI comercializado capturava as imagens em cerca de quatro minutos, e o tempo de processamento por imagem era de sete minutos. A versão comercial do scanner necessitava de um tanque de Plexiglas cheio de água e de uma touca de borracha colocada em volta da cabeça do paciente para reduzir a amplitude dos raios X que chegavam aos detectores.

Complementos Técnicos e Históricos

Paralelamente ao trabalho de Hounsfield na EMI, o físico sul-africano Allan McLeod Cormack, então na Tufts University (EUA), desenvolvia de forma independente os fundamentos matemáticos necessários para a reconstrução de imagens a partir de projeções de raios X — pesquisa iniciada no Groote Schuur Hospital, na África do Sul, no início da década de 1960. A base matemática por trás da ART remonta, inclusive, à transformada de Radon, formulada pelo matemático austríaco Johann Radon em 1917.

Por suas contribuições conjuntas ao desenvolvimento da tomografia computadorizada, Hounsfield e Cormack receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1979.

O primeiro tomógrafo comercial, o EMI CT 1000, foi lançado em 1973. Pouco depois, surgiram os primeiros scanners de corpo inteiro, como o ACTA Scanner, desenvolvido por Robert Ledley, e o EMI CT 5000. Nas décadas seguintes, a tecnologia evoluiu para a TC helicoidal (espiral), nos anos 1980-90, e posteriormente para a TC multislice, nos anos 2000, reduzindo drasticamente o tempo de exame e ampliando a resolução das imagens.

Referências Bibliográficas

CHALINA, Eric. 50 Máquinas que mudaram o Rumo da História. Rio de Janeiro: GMT Editores Ltda., 2014.

SALTON Cursos. "Prêmios Nobel e Outros Destaques - 1979: GODFREY N. HOUNSFIELD e ALLAN MCLEOD CORMACK". Introdução à TC. Acesso em: 01 de setembro de 2024.

Tomografia Computadorizada: evolução marcada por gerações. Acesso em: 01 de setembro de 2024.