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| Foto: Eitan Abramovich/ AFP |
No artigo anterior, exploramos os
segredos técnicos que permitiram a Machu Picchu resistir a terremotos, chuvas
torrenciais e à passagem do tempo. Mas essa mesma sofisticação levanta uma
questão intrigante: se os incas foram capazes de erguer uma cidade tão
avançada, por que ela simplesmente desapareceu da história por séculos? A
resposta envolve geografia extrema, silêncio estratégico e um golpe de sorte
acadêmico em 1911.
Uma cidade que nunca foi "perdida" para todos
Ao contrário da imagem popular de uma "cidade
perdida", Machu Picchu nunca foi completamente esquecida pelas populações
locais. Camponeses quéchuas da região já conheciam as ruínas e inclusive
cultivavam pequenas áreas próximas ao sítio décadas antes de sua
"descoberta" oficial (Bingham, 1948). O que faltava era o
reconhecimento formal da comunidade científica internacional — e é exatamente
essa lacuna que Hiram Bingham, professor da Universidade Yale, viria a
preencher.
Bingham não buscava originalmente Machu Picchu. Sua expedição de 1911 tinha como objetivo localizar Vilcabamba, a última capital do Império Inca na resistência contra a conquista espanhola (Bingham, 1911). Foi um agricultor local, Melchor Arteaga, quem o guiou até o topo da montanha, onde as ruínas repousavam cobertas por densa vegetação.
O papel do isolamento geográfico
A localização de Machu Picchu — a 2.430 metros de altitude,
cercada por picos escarpados e pela floresta nublada andina — funcionou como
uma barreira natural quase impenetrável. Diferente de Cusco ou do Vale Sagrado,
rotas estratégicas e economicamente relevantes para os colonizadores espanhóis,
Machu Picchu não estava no caminho de nenhuma rota comercial ou militar
expressiva (Reinhard, 2007).
Esse isolamento é reforçado por evidências arqueológicas de
que o local pode ter sido abandonado antes mesmo da chegada formal dos
espanhóis ao território inca, possivelmente devido a epidemias — como a
varíola, introduzida pelos europeus, que se alastrou pelos Andes com mais
rapidez do que os próprios exércitos conquistadores (Cook, 1981). Sem uma
população residente expressiva e sem valor militar imediato, o sítio
simplesmente não entrou nos registros coloniais.
O silêncio dos cronistas espanhóis
Um dos maiores enigmas históricos é a ausência quase total
de menções a Machu Picchu nos relatos coloniais espanhóis, que foram
extremamente detalhados em relação a outros centros incas, como Cusco e
Sacsayhuamán. Historiadores sugerem que os próprios incas mantiveram sua
localização sob reserva, uma vez que o sítio funcionava primordialmente como
residência real e santuário religioso de Pachacuti — um domínio de acesso
restrito, e não um centro administrativo aberto ao público geral (Reinhard,
2007).
Essa hipótese de "cidade sagrada reservada" ganha
consistência ao analisar a arquitetura ritual da cidadela, a exemplo do Templo
do Sol e do Intihuatana. Estruturas ligadas a ritos exclusivos da elite
reforçam a tese de que Machu Picchu não fora concebida para circulação ampla,
permanecendo restrita até mesmo para grande parte dos súditos do império
(Bauer, 2004).
A "descoberta" que reescreveu a arqueologia
moderna
Quando Bingham alcançou o sítio em 24 de julho de 1911,
deparou-se não com uma cidade intocada, mas com ruínas tomadas por vegetação,
parcialmente exploradas e ocupadas por agricultores locais. Ainda assim, a
repercussão de suas publicações — em especial a edição histórica da National
Geographic em 1913 — foi imediata: Machu Picchu projetou-se mundialmente
como o maior ícone da engenharia e da civilização inca (Bingham, 1913).
A expedição, contudo, abriu controvérsias éticas duradouras.
Milhares de artefatos escavados foram transferidos para a Universidade Yale sob
a premissa de "empréstimo temporário de estudo" — acervo que só
retornou definitivamente ao Peru um século mais tarde, em 2011, após longas
disputas diplomáticas (Salvatore, 2011). O episódio tornou-se um precedente
fundamental nos debates modernos sobre repatriação de patrimônio e ética na
arqueologia.
O legado da redescoberta
A história da redescoberta de Machu Picchu evidencia mais do
que acidentes geográficos ou sorte científica: expõe como a arqueologia
tradicional frequentemente rotulou como "descoberta" aquilo que povos
nativos preservavam na prática cotidiana há gerações. Declarada Patrimônio
Mundial pela UNESCO em 1983 e eleita uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo
Moderno, a cidadela continua a suscitar reflexões cruciais sobre soberania
cultural, memória e autoria histórica.
No próximo artigo desta série, exploraremos as conexões
astronômicas e espirituais de Machu Picchu, detalhando como templos e pedras
cerimoniais foram calculados para alinhar-se perfeitamente aos solstícios e às
constelações andinas.
Você também pode gostar:
A
Arte e a Arquitetura Incaicas: Expressões da Cosmovisão Andina
Machu
Picchu: A Redescoberta que Chocou o Mundo Ocidental
Referências Bibliográficas
BAUER, Brian S. Ancient Cuzco: Heartland of the Inca.
Austin: University of Texas Press, 2004.
BINGHAM, Hiram. Across South America: An Account of a
Journey from Buenos Aires to Lima. Boston: Houghton Mifflin, 1911.
BINGHAM, Hiram. In the Wonderland of Peru: The Work
Accomplished by the Peruvian Expedition of 1912 Under the Auspices of Yale
University and the National Geographic Society. The National Geographic
Magazine, v. 24, n. 4, p. 387–573, abr. 1913.
BINGHAM, Hiram. Lost City of the Incas: The Story of
Machu Picchu and Its Builders. New York: Duell, Sloan and Pearce, 1948.
COOK, Noble David. Demographic Collapse: Indian Peru,
1520-1620. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
REINHARD, Johan. Machu Picchu: Exploring an Ancient
Sacred Center. Los Angeles: Cotsen Institute of Archaeology, 2007.
SALVATORE, Ricardo D. The Yale-Peru Machu Picchu Dispute: A
Case Study in Cultural Heritage Repatriation. International Journal of
Cultural Property, v. 18, n. 3, p. 303–327, 2011.

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