| Diego Celso/Licença CC BY-SA |
No artigo anterior desta série, desvendamos os segredos da
impressionante engenharia inca. Mas a cidade que resistiu ao tempo e à fúria da
natureza não escapou do esquecimento.
Os próprios colonizadores espanhóis, que documentaram
meticulosamente as cidades incas conquistadas, jamais mencionaram Machu
Picchu em seus registros. Como um centro urbano tão impressionante passou
completamente despercebido?
Uma cidade que nunca foi conquistada
A explicação mais aceita pelos historiadores modernos é tão
simples quanto fascinante: os espanhóis nunca souberam da existência de
Machu Picchu.
Diferente de cidades como Cusco ou Ollantaytambo — que foram
tomadas, ocupadas e profundamente modificadas pela Coroa espanhola —, Machu
Picchu permaneceu intocada porque não consta em nenhuma crônica colonial
conhecida da época.
Estudos arqueológicos indicam que o local já havia sido
abandonado pelos incas antes mesmo da chegada das tropas colonizadoras. O
motivo mais provável? As ondas de epidemias (como a varíola trazida pelo
contato europeu nas Américas), que se propagaram pelas rotas comerciais dos
Andes mais rápido do que os próprios conquistadores, desestruturando o império
e esvaziando a cidadela.
A floresta tropical como guardiã silenciosa
Sem a presença humana e sem a manutenção constante dos
terraços e canais, a natureza fez o restante do trabalho.
Em poucas décadas, a densa vegetação subtropical cobriu
templos, praças e palácios de pedra. Essa camuflagem natural tornou o complexo
praticamente invisível do fundo do vale do rio Urubamba.
Embora alguns agricultores e famílias locais soubessem da
existência de antigas ruínas de pedra no alto das montanhas, para o mundo
acadêmico e ocidental a "cidade perdida" não passava de uma lenda.
Hiram Bingham e a expedição de 1911
Em 24 de julho de 1911, o historiador e professor da
Universidade de Yale Hiram Bingham mudou o rumo da arqueologia moderna.
Guiado pelo agricultor local Melchor Arteaga, Bingham subiu as encostas
íngremes e deparou-se com as ruínas monumentais encobertas pela mata.
Curiosamente, Bingham não procurava Machu Picchu: ele
buscava Vilcabamba, o lendário último refúgio e capital da resistência
inca contra a invasão espanhola.
Décadas de pesquisas posteriores comprovaram que Machu
Picchu não era Vilcabamba, mas sim um suntuoso complexo cerimonial e retiro
real edificado sob o comando do imperador Pachacuti.
Quando Bingham publicou sua expedição com o apoio da revista
National Geographic, em 1913, as imagens das construções de pedra
suspensas entre as nuvens chocaram o público e transformaram o sítio no maior
ícone do mistério andino.
O debate histórico: Descobrimento ou divulgação?
Atualmente, o termo "descoberta" aplicado a
Bingham é amplamente debatido:
- Pioneiros
anônimos: Exploradores e fazendeiros peruanos já haviam visitado e
deixado marcas nas ruínas anos antes de 1911.
- O
mérito científico: O papel crucial de Bingham foi catalogar,
fotografar e introduzir o sítio nos círculos científicos internacionais
com escavações sistemáticas.
- A
disputa diplomática: A expedição levou milhares de artefatos,
cerâmicas e ossadas para a Universidade de Yale, iniciando um longo
impasse diplomático com o governo do Peru que só foi resolvido
integralmente entre 2011 e 2012, quando as peças foram finalmente
repatriadas ao seu país de origem.
O que vem a seguir?
No próximo artigo da nossa série especial, vamos mergulhar
no significado espiritual e astronômico de Machu Picchu: entenda como os
incas alinharam templos, janelas e rochas sagradas diretamente com o movimento
do Sol e das constelações, transformando toda a montanha em um verdadeiro
observatório sagrado.
Referências Bibliográficas
Bingham, Hiram (1948). Lost City of the Incas: The
Story of Machu Picchu and Its Builders. New York: Duell, Sloan and Pearce.
Wright, Kenneth R. & Valencia Zegarra, Alfredo
(2004). Machu Picchu: A Civil Engineering Marvel. Reston: ASCE
Press.
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