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Muito antes do Spotify, dos fones com cancelamento de ruído
e do iPod, foi essa caixinha metálica que deu à humanidade a liberdade de
escolher a própria trilha sonora para caminhar pela cidade. O Walkman não foi a
primeira tentativa de criar um som portátil, mas foi o primeiro a transformar
essa ideia em um fenômeno cultural global.
Uma invenção que quase não viu a luz do dia
A história do áudio portátil começa antes da Sony, com um
inventor teuto-brasileiro: Andreas Pavel (n. 1945).
Em 1972, Pavel criou o "Stereobelt", um
cinto com tocador de fita cassete acoplado a fones de ouvido. Ele tentou vender
a ideia para as grandes marcas de eletrônicos, mas ouviu repetidos
"nãos". A mentalidade da época era cética: executivos simplesmente
não acreditavam que as pessoas aceitariam andar na rua usando fones de ouvido.
Pavel patenteou seu invento na Itália em 1977 e em outros
países em 1978. No entanto, antes que os processos fossem concluídos, a Sony
surpreendeu o mercado com o TPS-L2.
O desenlace foi uma batalha judicial digna de Davi contra
Golias que durou 25 anos. O conflito só terminou em 2004 — ironicamente
na semana do aniversário de 25 anos do Walkman —, quando a Sony e Pavel
fecharam um acordo extrajudicial estimado em cerca de US$ 10 milhões.
A engenharia dos três visionários da Sony
Nos bastidores da Sony, a criação do aparelho foi conduzida
por três figuras centrais:
- Masaru
Ibuka (co-fundador)
- Akio
Morita (presidente)
- Kozo
Ohsone (gerente da Divisão de Gravação)
A resistência interna foi grande. Muitos questionavam a
viabilidade comercial do projeto, argumentando que "um tocador que não
grava fitas jamais vai vender". A liderança, porém, bancou o risco.
O ponto de partida foi o Pressman TCM-100 (1978), um
gravador portátil usado por repórteres. A equipe de engenharia modificou o
chassi para torná-lo mais leve, retirou os componentes de gravação e adicionou
recursos pensados exclusivamente para o prazer de ouvir:
- Áudio
Estéreo de alta fidelidade: uma inovação em players daquele porte;
- Entradas
duplas de fone ("Guys & Dolls"): pensadas para
que duas pessoas pudessem compartilhar a música;
- Botão
"Hotline" (laranja): ao ser pressionado, diminuía o
volume e ativava um microfone embutido, permitindo conversar com quem
estava ao lado sem precisar tirar os fones ou parar a fita.
Um ícone, quatro nomes diferentes
Você sabia que o nome "Walkman" quase ficou
restrito ao mercado japonês?
Com receio de que o termo soasse estranho gramaticalmente ou
"oriental demais" para o público ocidental, a Sony tentou adaptá-lo:
- 🇺🇸
Estados Unidos: Sound-About
- 🇬🇧
Reino Unido: Stowaway
- 🇸🇪
/ 🇦🇺 Suécia e Austrália: Freestyle
A tentativa de renomear o produto caiu por terra
rapidamente. O sucesso no Japão foi tão estrondoso e tantos turistas compravam
o aparelho como souvenir que o nome Walkman se espalhou organicamente
pelo planeta, tornando-se sinônimo de toda a categoria.
O legado: o nascimento do "Efeito Walkman"
O impacto do TPS-L2 foi além dos números astronômicos de
vendas e da consolidação do Japão na vanguarda da tecnologia: ele transformou a
própria convivência urbana.
Pesquisadores batizaram essa transformação comportamental de
"Efeito Walkman" — o poder de controlar a própria paisagem
sonora e se isolar no ritmo de suas preferências em meio ao caos da cidade. O
pesquisador cultural Iain Chambers definiu o hábito como a capacidade de "domesticar
o ambiente externo".
Sem o Walkman abrindo caminho nos anos 80, o consumo de
áudio individualizado que hoje parece óbvio em nossos smartphones e fones
Bluetooth talvez tivesse demorado décadas a mais para existir.
Hoje, o TPS-L2 original repousa em museus renomados como o Smithsonian,
em Washington. Um tributo definitivo à pequena revolução sobre rodas e trilhos
que ensinou a humanidade a caminhar no próprio compasso.
E você, chegou a usar fita cassete?
Você teve um Walkman ou outro toca-fitas na sua época?
Qual era a primeira fita que você colocava para tocar? Deixe sua história nos
comentários!
Fontes e Leituras Recomendadas:
CHALINE, Erich. 50 máquinas que mudaram o rumo da
história. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
DOWLING, Stephen. "The music you could take
anywhere". BBC News, 2004.
Sony Group Portal. "Product & Technology
Milestones – Personal Audio".
National Museum of American History. "The Sony
TPS-L2 'Walkman' Cassette Player". Smithsonian, 2020.
PECKHAM, Matt. "As Sony's Walkman Turns 35, a Look
Back at Its Inception". TIME, 2014.

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