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sábado, 28 de junho de 2025

Escultura Romana em Perspectiva Crítica: Entre Conservação, Performance e Resistência Cultural

A escultura romana tem atravessado os séculos como símbolo de poder, civilização e estética canônica. Contudo, no cenário contemporâneo, sua presença extrapola o campo da admiração museológica ou da iconografia oficial. Ela emerge como ponto de interrogação crítica e ferramenta de resistência cultural. Este texto propõe uma reflexão sobre a escultura romana como linguagem performativa, instrumento de discurso político e objeto de disputa simbólica nas práticas culturais do século XXI.

Escultura Romana como Dispositivo Performativo

Nas últimas décadas, a escultura romana deixou de ser apenas um objeto de contemplação estática para ser incorporada a performances artísticas que exploram sua carga simbólica. Artistas e coletivos têm utilizado réplicas ou imagens clássicas em atos públicos, manifestações e instalações efêmeras. Em contextos como o das Bienais de Arte ou protestos decoloniais, a pose heroica dos imperadores ou a serenidade das matronas romanas são ressignificadas como gestos de ironia ou confronto. Como destaca Claire Bishop (2012), a performance contemporânea frequentemente instrumentaliza ícones históricos para desestabilizar suas leituras convencionais, o que inclui o corpo escultórico romano como palco simbólico de novas narrativas.

Museus, Narrativas e Curadorias Contestadas

A presença massiva de esculturas romanas em museus europeus continua a provocar tensões entre conservação patrimonial e justiça histórica. Muitas instituições têm promovido curadorias críticas, que apresentam as peças clássicas acompanhadas de contextos sobre sua origem, deslocamento e apropriação. A iniciativa do British Museum de contextualizar suas coleções romanas com dados sobre escavações coloniais, por exemplo, abre espaço para narrativas mais complexas e plurais sobre esses objetos (GONZALEZ, 2021). O próprio conceito de “universalismo museológico” tem sido questionado por teóricos que apontam para o eurocentrismo embutido na consagração do “clássico”.

Escultura, Gênero e Corpo Político

Outro eixo relevante nas releituras da escultura romana é o uso de suas representações corporais para discutir questões de gênero e normatividade. A predominância de corpos masculinos idealizados nos acervos romanos tem sido contraposta por artistas que inserem corpos trans, gordos, racializados ou não-binários em moldes neoclássicos. Essa desconstrução da “beleza clássica” não apenas desafia o cânone estético, mas também expõe a historicidade do gosto e a exclusão sistemática de corpos dissidentes no imaginário ocidental (BUTLER, 2004). A escultura romana, assim, passa a ser reconfigurada como campo de disputa entre tradição e diversidade corporal.

Escultura Romana e Memória Urbana

Cidades como Roma, Paris, Washington e Buenos Aires ostentam esculturas inspiradas no modelo romano em praças, palácios e tribunais. Contudo, movimentos sociais têm questionado a permanência de monumentos que celebram figuras associadas a regimes de opressão ou valores coloniais. A derrubada ou recontextualização de estátuas tem se tornado um gesto político — não de apagamento do passado, mas de reescrita crítica da memória pública. Nesse sentido, a escultura romana, quando replicada em ambientes urbanos, torna-se um terreno de negociação entre memória, justiça histórica e direito à cidade (YOUNG, 2020).

Conclusão

A escultura romana permanece viva não apenas por seu valor artístico ou legado histórico, mas por sua capacidade de ser continuamente reinscrita em debates urgentes sobre identidade, poder, corpo e território. Ao transitar entre museus, ruas, redes digitais e atos performativos, ela revela sua natureza dinâmica, multifacetada e profundamente política. As releituras contemporâneas da escultura romana, portanto, não diluem sua importância: ao contrário, ampliam seu alcance e a resgatam como linguagem crítica do presente.

Referências Bibliográficas

  • BISHOP, Claire. Artificial Hells: Participatory Art and the Politics of Spectatorship. London: Verso, 2012.
  • BUTLER, Judith. Undoing Gender. New York: Routledge, 2004.
  • GONZALEZ, Gabriela. Museus e Memórias Coloniais: Curadorias Críticas no Século XXI. São Paulo: Ed. Unesp, 2021.
  • YOUNG, James E. The Texture of Memory: Holocaust Memorials and Meaning. New Haven: Yale University Press, 2020.