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sábado, 15 de novembro de 2025

As Razões do Golpe Republicano de 15 de Novembro de 1889

Henrique Bernardelli
O 15 de novembro de 1889 representa um marco decisivo na história do Brasil: a Proclamação da República e o fim do Império. Ao contrário de revoluções populares que transformaram países como França ou Estados Unidos, no Brasil o movimento foi um golpe militar articulado por uma elite descontente, executado pelo Exército e acompanhado por uma população majoritariamente alheia ao processo.

Laurentino Gomes, em 1889: Como Um Império Deveria Ter Morrido (2013), destaca essa desconexão entre a corte imperial e a realidade brasileira. O Baile da Ilha Fiscal, realizado dias antes do golpe, tornou-se símbolo desse distanciamento — um luxo derradeiro de um regime que já não conseguia sustentar-se.

Este artigo aprofunda as causas que levaram ao fim do Império, articulando a narrativa de Gomes a outras importantes interpretações historiográficas.

Causas Políticas

O desgaste político do Império era complexo e envolvia três grandes conflitos que marcaram o fim do Segundo Reinado: a Questão Militar, a Questão Religiosa e a Questão Abolicionista.

A Questão Militar

Após a Guerra do Paraguai, o Exército emergiu como uma instituição fortalecida e consciente de seu papel nacional. Mesmo assim, os militares sentiam-se desprestigiados pelo governo imperial, que lhes restringia manifestações políticas e mantinha uma estrutura conservadora, avessa a reformas (Carvalho, 1990).

A imprensa militar passou a questionar dom Pedro II e sua incapacidade de modernizar o país. Laurentino Gomes (2013) observa que os republicanos aproveitaram essa insatisfação para arregimentar apoio entre oficiais, transformando o Exército no principal agente da futura ruptura.

A Questão Religiosa

Desde 1824, a Igreja Católica era subordinada ao Estado pelo regime de padroado. O conflito eclodiu quando Dom Vital e Dom Macedo, bispos de Olinda e Belém, obedeceram à ordem papal contra a maçonaria e foram punidos pelo governo imperial, criando um racha entre Igreja e Coroa (Mota, 1973).

Com isso, a monarquia perdeu um aliado tradicional e central para sua legitimidade.

A Questão Abolicionista

A abolição da escravatura, celebrada em 1888, enfraqueceu ainda mais o Império. A Lei Áurea, apesar de moralmente necessária, retirou da monarquia o apoio dos grandes proprietários rurais, insatisfeitos por não receberem indenização pela perda de seus escravos (Reis, 1987).

A elite agrária, antes sustentáculo da monarquia, passou a flertar com o republicanismo.

O Desgaste da Figura Imperial

Idoso e debilitado, Dom Pedro II demonstrava aparente cansaço político. Sua falta de interesse pela sucessão — especialmente rejeitando a Princesa Isabel, vista como impopular e excessivamente religiosa — intensificou a percepção de estagnação (Nabuco, 1997).

O Império parecia incapaz de se renovar.

Causas Sociais e Econômicas

A conjuntura social e econômica também contribuía para o ambiente de mudança.

O país enfrentava crise econômica, dependência excessiva do café, aumento da dívida externa, inflação e ausência de investimentos em infraestrutura (Fernandes, 1975). Enquanto isso, surgia nas cidades uma pequena, mas influente, classe média urbana, composta por funcionários públicos, comerciantes e profissionais liberais, que se sentiam excluídos do sistema político imperial.

Paralelamente, crescia nas escolas militares e entre intelectuais a influência do positivismo, que defendia um Estado racional e moderno. Benjamin Constant, professor da Escola Militar, foi peça fundamental para difundir essas ideias, que moldariam o futuro regime republicano — inclusive o lema "Ordem e Progresso" (Carvalho, 1990).

Causas Militares

O Exército, cada vez mais politizado e ressentido, passou a enxergar-se como guardião moral da nação. Muitos oficiais se sentiam humilhados pela interferência civil em suas decisões e pela falta de reconhecimento após a Guerra do Paraguai.

Nesse contexto, a figura do marechal Deodoro da Fonseca, tradicional monarquista, tornou-se central. Influenciado por Benjamin Constant e pressionado por jovens oficiais republicanos, Deodoro acabou aderindo ao movimento (Gomes, 2013).

A crise ministerial de 1889 e a percepção de que o governo tramava contra a corporação serviram como estopim para a ação militar.

O Golpe de 15 de Novembro

Na manhã de 15 de novembro de 1889, tropas lideradas por Deodoro marcharam do Campo de Santana em direção ao centro do Rio de Janeiro. Inicialmente, o marechal pretendia apenas derrubar o gabinete do Visconde de Ouro Preto. No entanto, a combinação de pressões políticas, tensões pessoais e rumores sobre supostas conspirações transformou a ação em um golpe contra a monarquia.

Dom Pedro II, adoentado e desmobilizado politicamente, não ordenou resistência.

Conforme destaca Laurentino Gomes (2013), a população encontrava-se "bestializada": assistia aos acontecimentos sem entendê-los e sem participar. Não houve revolta, entusiasmo ou enfrentamento — apenas um golpe burocrático-militar que alterou a forma de governo.

No fim da tarde, foi proclamada a República. Em seguida, a família imperial foi exilada e partiu rumo à Europa.

Perspectiva Crítica

A Proclamação da República nasceu sob forte caráter antidemocrático. A população não foi consultada, não houve plebiscito, nem mobilização popular. Por isso, muitos historiadores defendem que a República brasileira começou sem legitimidade social ampla.

Nas primeiras décadas do novo regime, persistiram problemas estruturais: concentração de poder, exclusão política, desigualdade social e manutenção da ordem agrária. A chamada República Velha (1889–1930) consolidou oligarquias regionais e práticas como coronelismo e fraudes eleitorais (Bandeira, 1975).

A promessa positivista de ordem e progresso demorou a se materializar para a maior parte da população.

Conclusão

O golpe republicano de 15 de novembro de 1889 foi o resultado de um alinhamento de tensões políticas, sociais, econômicas e militares que corroeram a sustentação do Império. Entre os principais fatores estão:

  • O distanciamento entre o governo imperial e setores-chave da sociedade;
  • O fortalecimento do Exército e sua politização;
  • A influência do positivismo entre militares e intelectuais;
  • A crise econômica e o surgimento de novas classes urbanas;
  • A perda de apoio da Igreja e dos grandes proprietários.

A Proclamação da República não foi uma revolução popular, mas um golpe de Estado conduzido por uma elite militar. Isso marcou profundamente a trajetória política do país e ajudou a moldar a cultura republicana que se seguiria.

Referências Bibliográficas

  • Alves, Francisco das Neves. Metrópole do Sul: A Transformação Porto-Alegrense no Século XIX. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.
  • Bandeira, Moniz. O Milagre Brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 1975.
  • Carvalho, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • Fernandes, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
  • Gomes, Laurentino. 1889: Como Um Império Deveria Ter Morrido. São Paulo: Globo Editores, 2013.
  • Mota, Carlos Guilherme (org.). Brasil em Perspectiva. São Paulo: DIFEL, 1973.
  • Nabuco, Joaquim. Um Estadista do Império. São Paulo: Editora 34, 1997.
  • Reis, João José. Rebelião Escrava no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  • Toledo, Roberto Pompeu de. A Longa Noite da Alma Brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2011.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

A República "Mal-Amada" e o Desvendamento de um Mito

Laurentino Gomes inicia sua análise questionando a "mal-amada" República brasileira, cuja data de celebração, 15 de novembro, carece do prestígio de outras efemérides nacionais. Ele imediatamente desafia a narrativa simplista de uma transição pacífica, um "passeio militar" como muitos livros didáticos a descrevem. Conforme a Introdução e o Capítulo 18, "Os Bestializados", a Proclamação da República não foi um movimento com intensa participação popular, mas sim um golpe militar com escassa adesão civil, um "fato consumado" assistido pela população de forma "bestializada, atônita, surpresa, sem conhecer o que significava". A resenha destaca que a ausência de derramamento de sangue em 1889 contrastou dramaticamente com as guerras civis e conflitos que assolariam o país na primeira fase republicana, como a Revolução Federalista e a Revolta da Armada, cujas cicatrizes custaram dezenas de milhares de vidas.

As Forças por Trás da Mudança de Regime

A obra se aprofunda nos múltiplos fatores que levaram ao colapso da Monarquia. O autor argumenta que a República foi mais resultado do "esgotamento da Monarquia do que do vigor dos ideais e da campanha republicanos" (Introdução).

1. O Imperador Cansado e a Miragem do Império: O Capítulo 5, "Dom Pedro II", e o Capítulo 14, "O Imperador Cansado", oferecem um retrato de um monarca culto e dedicado, mas fragilizado pela idade e pela doença. Sua apatia diante das conspirações iminentes e sua crença ingênua de que "isso não vai dar em nada" contribuíram para a inércia do governo. O Capítulo 4, "A Miragem", discute a contradição entre a imagem idealizada de um "Império tropical" civilizado e europeizado e a realidade de um país agrário, escravocrata, analfabeto e profundamente desigual. As leis e rituais do Império, muitas vezes importados, não se alinhavam à realidade nacional, o que gerava uma instabilidade latente. A Monarquia, vista como um "gigante de pés de barro" (Introdução), não conseguia mais sustentar essa fachada.

2. A Questão Militar e o Ascenso do Positivismo: Laurentino Gomes dedica capítulos cruciais, como o Capítulo 8, "A Mocidade Militar", e o Capítulo 9, "A Chama nos Quartéis", à "Questão Militar". Esta série de conflitos entre o Exército e o governo imperial expôs a fragilidade da autoridade monárquica sobre os quartéis. O autor explora como o sentimento de "desprestígio" e "mal-recompensa" entre os militares, muitos deles veteranos da Guerra do Paraguai, criou um terreno fértil para a insubordinação. Nesse contexto, o positivismo de Auguste Comte, trazido por figuras como o "professor" e tenente-coronel Benjamin Constant (analisado em profundidade no Capítulo 11), ofereceu uma nova ideologia para a "mocidade militar". A busca por "ordem e progresso", a ideia de uma ditadura republicana liderada por uma elite esclarecida, e o desprezo pelas "becas" (civis) foram pilares que moldaram a mentalidade golpista.

3. Os Republicanos Civis e a Ação dos Abolicionistas: O Capítulo 7, "Os Republicanos", revela a diversidade e as contradições do movimento republicano civil. De radicais como Antônio da Silva Jardim, que pregava a execução da família imperial, a moderados que esperavam a morte de Dom Pedro II, a falta de unidade e a fraqueza eleitoral dos republicanos civis são evidentes. Eles, no entanto, souberam usar a imprensa e a retórica para instigar os militares. O Capítulo 12, "Os Abolicionistas", e o Capítulo 13, "A Redentora", destacam o papel crucial da abolição da escravatura. A Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, embora popular entre a massa, alienou a poderosa aristocracia rural, especialmente os barões do café, que se sentiram traídos e migraram em massa para a causa republicana. A imagem da "Redentora", apesar de honrosa para Isabel, também a tornou um alvo das críticas republicanas, que a viam como excessivamente religiosa e submissa ao marido, o Conde d'Eu.

Os Protagonistas e o Momento do Golpe

Laurentino Gomes humaniza os personagens centrais, desmistificando-os. O "marechal vaidoso", Deodoro da Fonseca (Capítulo 10), é retratado em sua relutância inicial em derrubar a Monarquia, sua saúde debilitada e sua eventual adesão à República mais por ressentimento pessoal contra o governo imperial – especialmente a indicação de Gaspar Silveira Martins – do que por convicção ideológica. A cena em que Deodoro, em seu leito de doente, é convencido a liderar o golpe, revela a fragilidade do processo.

O autor também narra com detalhes o famoso Baile da Ilha Fiscal (Capítulo 15), um evento de grande simbolismo. Essa última grande festa da Monarquia, com sua opulência e despreocupação, serviu como cenário irônico para a conspiração militar que se desenrolava simultaneamente. A desorganização e a superficialidade da corte, contrastando com a determinação dos conspiradores, são ressaltadas.

O Capítulo 16, "A Queda", descreve a falta de resistência por parte do governo imperial, a incredulidade de Dom Pedro II e a rapidez com que o poder foi tomado. O Brasil, de repente, encontrou-se em um vácuo político, sem monarquia e ainda sem uma República consolidada. O Capítulo 17, "O Adeus", relata a melancólica partida da família imperial para o exílio, um momento de dignidade e tristeza que encerrou um capítulo de quase sete décadas da história brasileira.

O Início Turbulento e as Marcas Duradouras

Os Capítulos 19 ("Ordem e Progresso") e 20 ("O Difícil Começo") mostram os esforços do novo regime para consolidar-se e criar uma nova identidade nacional, rebatizando ruas e heróis, elevando Tiradentes à condição de mártir republicano. No entanto, o otimismo inicial deu lugar a um período de grande instabilidade. O "Encilhamento" (Capítulo 21), uma bolha especulativa fomentada pelas políticas financeiras de Rui Barbosa, causou caos econômico e inflação, expondo a ingenuidade dos novos líderes.

O "Marechal de Ferro", Floriano Peixoto (Capítulo 22), emerge como a figura central da consolidação republicana. Sua postura autoritária, sua perseguição implacável a opositores e a violência das guerras civis (como a Revolução Federalista, detalhada no Capítulo 23, "Paixão e Morte", com suas brutais "degolas") revelam o alto preço pago pela estabilização do regime. A "República da Espada" impôs a ordem à força, distanciando-se do ideal democrático e popular.

Finalmente, o Capítulo 24, "O Desafio", aborda a transição para o governo civil com Prudente de Morais. A obra conclui que, apesar das promessas e do ideal de uma República inclusiva, o regime consolidado na "República Velha" manteve muitas das características oligárquicas e excludentes do Império, apenas mudando os nomes dos atores. A "política dos governadores" e o "coronelismo" perpetuaram um sistema de poder concentrado e distante do povo. Laurentino Gomes deixa o leitor com a reflexão de que a verdadeira "República do povo" só começaria a tomar forma muito tempo depois, com movimentos como as "Diretas Já", um desafio que os brasileiros ainda enfrentam.

Considerações Finais

"1889" é uma obra-prima de narrativa histórica. Laurentino Gomes demonstra maestria em tecer uma tapeçaria rica em detalhes, utilizando uma vasta gama de fontes primárias e secundárias, muitas das quais são referenciadas na sua extensa bibliografia (com citações de 300 a 402 no seu material). Sua capacidade de apresentar múltiplas perspectivas, desconstruir mitos e expor as complexidades e contradições do período torna a leitura instigante. O estilo jornalístico, com anedotas e descrições vívidas, cativa o leitor sem comprometer a profundidade da análise.

Para quem busca expandir seus conhecimentos e ter acesso a análises aprofundadas sobre a história do Brasil, a leitura de "1889" é especialmente valiosa. Ela oferece uma perspectiva aprofundada sobre as raízes de nossa formação, abordando temas que ressoam diretamente com o cenário político e social atual. A obra é um convite à reflexão crítica sobre o passado para melhor compreender o presente e, talvez, vislumbrar caminhos para um futuro mais equitativo. É uma jornada histórica que vale a pena ser empreendida.

 

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