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O “Rio Grande” não é o que se imagina
Ao contrário do que o nome sugere à primeira vista, o estado
não foi nomeado em homenagem a um rio de extensão quilométrica (como o Amazonas
ou o São Francisco). O "Rio Grande" que batiza o estado é o Rio
Potengi.
Para os exploradores portugueses que chegaram à costa no
século XVI, a foz do Rio Potengi impressionava pela sua largura e pela
imponência de seu estuário. Ao adentrarem a barra (onde hoje se localiza a
capital, Natal, e o Forte dos Reis Magos), eles se depararam com um vasto corpo
d'água salobra que parecia, de fato, um "rio grande". Nos primeiros
mapas e documentos coloniais, a região passou a ser referida como a terra do
Rio Grande.
A raiz indígena: O rio dos camarões
Antes da chegada dos portugueses, os habitantes nativos da
região (indígenas Potiguaras) já tinham um nome para aquele curso d'água:
Potengi. Em Tupi, a etimologia é clara:
- Potinga:
Camarão;
- 'y:
Água ou rio.
Ou seja, Potengi significa "Rio dos Camarões".
Curiosamente, embora os portugueses tenham mudado o nome geográfico oficial
para "Rio Grande", a identidade indígena prevaleceu no gentílico.
Quem nasce no Rio Grande do Norte é potiguar, que em tupi significa
"comedor de camarão" (poti = camarão + uwar = comedor).
É uma das poucas instâncias no Brasil onde o nome do estado é português, mas o
nome do povo permanece indígena.
Por que "Do Norte"?
Durante grande parte do período colonial, a capitania era
conhecida apenas como Capitania do Rio Grande. O sufixo "do Norte" só
se tornou necessário e oficial mais tarde, por uma questão de desambiguação
geográfica.
No extremo sul da colônia, os portugueses descobriram outra
grande entrada de água (que na verdade é um canal que liga a Lagoa dos Patos ao
mar, mas que foi confundida com a foz de um rio). Aquele local foi batizado de
Rio Grande de São Pedro. Com o tempo, para evitar confusões administrativas e
militares entre as duas províncias distantes:
- O
Rio Grande de cima virou Rio Grande do Norte;
- O
Rio Grande de baixo virou Rio Grande do Sul.
O brasão e a identidade
O nome do estado é tão central para sua identidade que está
representado visualmente em seus símbolos oficiais. O brasão de armas do Rio
Grande do Norte apresenta, no centro, uma jangada navegando sobre as águas,
representando a costa e a economia pesqueira, mas também fazendo alusão ao rio
que deu nome à terra.
Além disso, a geografia do Potengi foi estratégica. Foi na
sua foz que se construiu a Fortaleza dos Reis Magos (iniciada em 6 de janeiro
de 1598, Dia de Reis), marco inicial da fundação da cidade de Natal e da
consolidação do domínio português na região contra invasores franceses.
Conclusão
O nome Rio Grande do Norte é, portanto, uma sobreposição de
camadas históricas. Ele nasce da visão impressionada dos navegadores europeus
diante da foz do Rio Potengi, convive com a raiz tupi que nos deu o termo
"potiguar" e ganha seu sobrenome "do Norte" pela
necessidade de se diferenciar dentro de um país de dimensões continentais. É um
nome que conta a história de um encontro de águas e de culturas, definindo não
apenas um lugar no mapa, mas a alma de um povo.
Referências Bibliográficas
CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte.
2. ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.
GALVÃO, Hélio. História da Fortaleza da Barra. Rio de
Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1979.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Rio
Grande do Norte: Histórico. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rn/historico.
Acesso em: 14 fev. 2026.
SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 5.
ed. São Paulo: Editora Nacional, 1987.
TIBIRIÇÁ, Luís Caldas. Dicionário Tupi-Português. São
Paulo: Traço Editora, 1984.
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História Geral do Brasil.
7. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1962.

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