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No centro dessa história está a Vestas HVK 10,
turbina desenvolvida por Henrik Stiesdal e Karl Erik Jørgensen e licenciada
pela Vestas em 1979 — o marco que transformou uma fábrica local de
eletrodomésticos e guindastes hidráulicos na maior produtora de aerogeradores
do mundo.
A crise que plantou a semente
O gatilho para essa revolução foi o primeiro choque do
petróleo, em 1973. Na época, mais de 90% da matriz energética dinamarquesa
dependia de combustíveis fósseis importados. Com a disparada dos preços, Henrik
Stiesdal, então com 16 anos, decidiu agir: como não havia turbinas comerciais
para uso doméstico, resolveu construir a sua própria.
Seu primeiro protótipo utilizava apenas duas pás. A
intensidade dos testes levou Stiesdal a redesenhar a máquina, adicionando uma
terceira pá ao projeto original elaborado com Karl Erik Jørgensen — decisão
técnica que viria a se consolidar como o padrão estético e funcional de toda a
indústria global.
Da oficina à fábrica: o nascimento da HVK
Jørgensen e Stiesdal fundaram a Herborg Vindkraft (HVK),
batizada com o nome da vila onde viviam. O rotor de fibra de vidro de 10 metros
de diâmetro foi fabricado pela Økær Vind Energi, empresa fundada em 1977 por
Erik Grove-Nielsen. Todos faziam parte da rede de inventores da OVE
(Organização para Energias Renováveis).
Paralelamente, a fabricante Vestas tentava desenvolver seus
próprios modelos desde 1971 sob a liderança do engenheiro Birger Madsen, mas
sem viabilidade comercial. Em busca de capital para escala, Jørgensen e
Stiesdal apresentaram seu projeto à empresa. A Vestas validou o conceito tri-pá
e comprou a licença de fabricação.
Em 1979, entrava no mercado a primeira turbina comercial
oficial da linha: a Vestas HVK 10, com rotor de 10 metros e capacidade
nominal de 30 kW.
Anatomia e funcionamento do sistema
A HVK 10 era uma turbina de eixo horizontal (HAWT) com três
pás de fibra de vidro de 5 metros de raio. Ao contrário das torres tubulares
modernas de aço ou concreto, os primeiros modelos operavam sobre postes de
treliça metálica, similares a torres de transmissão.
O funcionamento baseava-se em quatro etapas:
- Captação:
O vento movimenta as três pás do rotor, ligadas a um eixo principal de
baixa rotação;
- Multiplicação:
O eixo aciona uma caixa de engrenagens (gearbox), elevando a
rotação mecânica;
- Geração:
A rotação amplificada alimenta o gerador assíncrono, produzindo
eletricidade;
- Orientação:
Um sistema de cata-vento e anemômetro alinha continuamente a nacele na
direção do vento.
O avanço nos freios aerodinâmicos
Em 1978, rajadas severas destruíram diversos protótipos na
Dinamarca devido ao superaquecimento e falha dos freios a tambor mecânicos. A
solução dos engenheiros dinamarqueses foi implementar freios aerodinâmicos nas
pontas das pás (mecanismos móveis acionados por força centrífuga). A evolução
para pontas integradas controladas reduziu o ruído e se tornou a regra de
segurança no setor por décadas.
Por que a Dinamarca liderou essa corrida?
Mais do que a presença de ventos constantes, o diferencial
dinamarquês foi um ecossistema descentralizado: oficinas mecânicas ágeis,
incentivos governamentais bem calibrados e cooperativas locais dispostas a
investir para reduzir gastos com eletricidade. O modelo de três pás a montante
com gerador na nacele (Danish Concept) superou os projetos complexos e
custosos de multinacionais estrangeiras.
Henrik Stiesdal continuou ativo no setor e, mais tarde, como
CTO da Bonus Energy (incorporada pela Siemens Wind Power), liderou o projeto de
Vindeby (1991), o primeiro parque eólico offshore do mundo. A história
da HVK 10 prova como soluções práticas e bem projetadas em pequena escala
conseguem reestruturar a matriz energética de todo o planeta.
Referências Bibliográficas
CHALINE, Erich. 50 máquinas que mudaram o rumo da
história. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
EUROPEAN INVESTMENT BANK (EIB). The history of renewable
energy hits a modern renaissance. 2024. Disponível em: https://www.eib.org/en/essays/history-renewable-energy.
EUROPEAN PATENT OFFICE (EPO). Henrik Stiesdal — European
Inventor Award. Disponível em: https://www.epo.org/en/news-events/european-inventor-award/meet-the-finalists/henrik-stiesdal.
JONES, Geoffrey; BOUAMANE, Loubna. Historical
Trajectories and Corporate Competences in Wind Energy. Harvard Business
School, 2011.
KROHN, Soren. Danish Wind Turbines: An Industrial Success
Story. Copenhague: Danish Wind Turbine Manufacturers Association, 2001.
VESTAS. From 1971-1986 — Company History. Disponível
em: https://www.vestas.com/en/about/this-is-vestas/history/from-1971-1986.




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