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| Henri-François Riesenee/Wikipédia Domínio Público |
Por que D. João VI é central para entender a
Independência
D. João VI foi o monarca que, ao transferir a corte para o
Rio de Janeiro em 1808, alterou o centro de gravidade do Império Português. O
que antes era uma colônia administrada à distância passa a abrigar o governo, a
burocracia e a vida política da monarquia. Esse deslocamento não foi apenas
geográfico; ele criou novas instituições, garantiu autonomia às elites locais e
estabeleceu o Rio como um centro permanente de poder.
O fato é: quando a crise estoura, Dom Pedro não herda
um vazio. Ele herda um Estado em funcionamento, construído pelo pai.
A Corte no Rio (1808): Modernização e Consequências
A permanência da corte consolidou transformações que
ampliaram a capacidade governativa local. Muitas medidas joaninas foram
pragmáticas, mas produziram efeitos profundos: o Brasil experimentou uma
centralização e um prestígio que contrastavam com a antiga condição colonial.
Essa modernização, porém, trouxe tensões: disputas por
cargos e o atrito entre os interesses "do Reino" e "do
Brasil". A Independência não surge do nada em 1822; ela amadurece sobre as
bases — e as promessas implícitas — estabelecidas desde 1808.
3) Reino Unido (1815) e a Pressão das Cortes (1820)
A elevação do Brasil a Reino Unido em 1815 deu forma legal à
nova realidade: o Brasil deixava de ser colônia. Contudo, a Revolução Liberal
do Porto (1820) em Portugal mudou o jogo. As Cortes de Lisboa passaram a exigir
a volta do Rei e a recentralização do império. Para os brasileiros, isso
soava como um rebaixamento político inaceitável.
O Retorno de D. João VI (1821): O Rei sai, mas a
Estratégia fica
Ao retornar a Lisboa em 1821, D. João VI deixou Dom Pedro
como Regente. Mais do que uma simples partida, foi um movimento calculado. Reza
a tradição que o pai teria aconselhado o filho:
"Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti,
que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros." Essa
frase resume a "sombra" do Rei: ele aceita a possibilidade da ruptura
desde que ela permaneça sob o controle da Dinastia de Bragança.
O Pai como Limite Moral e Álibi Político
Para Dom Pedro, a figura do pai funcionava de duas formas:
- Limite
Moral: A ideia de não romper "contra o pai" pesava na
retórica de legitimidade.
- Álibi
Político: A narrativa de que a culpa da separação era da
"intransigência das Cortes" — e não de uma desobediência ao Rei
— permitiu que Dom Pedro mantivesse o apoio de grupos conservadores que
temiam uma revolução republicana.
Conclusão
D. João VI não foi apenas o rei que "fugiu" ou
"voltou". Ele foi o governante que transformou o Brasil em um centro
de poder e, depois, tentou administrar as consequências dessa mudança. A
Independência foi o desfecho de uma tensão que ele não criou sozinho, mas que
soube conduzir até onde foi possível, deixando para Dom Pedro a execução do ato
final dentro de um tabuleiro que o pai ajudou a montar.
Referências Bibliográficas
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elite política imperial. Rio de Janeiro: Campus, 1980.
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da Universidade de São Paulo, 1994.
GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um
príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história
de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Globo, 2007.
GOMES, Laurentino. 1822: como um homem sábio, uma
princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram Dom Pedro a criar o
Brasil. Rio de Janeiro: Globo, 2010.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História Geral da
Civilização Brasileira. Tomo II: O Brasil Monárquico. São Paulo: DIFEL,
1960-1972.
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SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil:
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