A discussão sobre energia solar costuma ficar presa em dois
pontos: economia na conta de luz e redução de emissões. Só que existe um
terceiro efeito, muitas vezes subestimado, que faz a transição energética sair
do campo “ambiental” e entrar direto no campo da saúde pública: quando a matriz
energética e os usos finais de energia (como eletricidade e calor industrial)
deixam de depender de combustíveis fósseis, a tendência é cair a emissão de
poluentes que pioram (e desencadeiam) doenças respiratórias e cardiovasculares.
No Brasil, onde o SUS absorve grande parte do custo do
tratamento de condições crônicas e agudas associadas à poluição do ar, pensar
energia solar como estratégia de saúde não é exagero — é planejamento.
Impacto da poluição do ar associada a combustíveis
fósseis
A queima de combustíveis fósseis em usinas termelétricas,
processos industriais e, principalmente, em transportes (diesel e gasolina)
gera uma combinação de poluentes com efeito direto no pulmão:
Material particulado fino (PM2,5): penetra
profundamente nas vias aéreas e alcança a corrente sanguínea. Está associado ao
agravamento de asma, bronquite, DPOC e a maior risco cardiovascular.
Óxidos de nitrogênio (NOx): irritam o sistema
respiratório, favorecem crises asmáticas e participam da formação de ozônio
troposférico.
Dióxido de enxofre (SO₂): relacionado a irritação
bronquial e piora de sintomas respiratórios, além de contribuir para partículas
secundárias.
Ozônio (O₃) ao nível do solo (formado por reações
fotoquímicas): aumenta inflamação das vias aéreas e está ligado a maior procura
por serviços de emergência.
A literatura de saúde ambiental é consistente ao apontar que
a exposição crônica à poluição do ar aumenta o risco de adoecimento, e que a exposição
aguda eleva internações e mortalidade em dias/semana de pior qualidade do ar.
Em outras palavras: não é só “o ar está ruim”; é “o ar está cobrando um custo
médico real”.
Benefícios de saúde da energia limpa (com foco na
transição solar)
A energia solar não “limpa o ar” sozinha, porque parte
relevante da poluição urbana vem dos veículos. Mas ela é peça central por três
razões:
Deslocamento de geração fóssil
Em sistemas elétricos onde termelétricas entram para atender demanda (pico ou
base), cada MWh gerado por solar que substitui térmica tende a evitar emissões
locais e regionais.
Eletrificação de usos finais
A solar ganha ainda mais impacto quando combinada com:
eletrificação de processos industriais (onde viável),
bombas de calor em substituição a caldeiras fósseis,
recarga de veículos elétricos com maior participação de
renováveis.
Aqui, a lógica é: menos combustão = menos poluentes.
Redução de poluentes de curta duração e co-benefícios
climáticos
A transição solar reduz CO₂ (efeito climático de longo prazo) e, ao mesmo
tempo, pode reduzir poluentes como PM2,5 e precursores de ozônio (efeito
sanitário mais imediato). Por isso, muitos autores tratam como co-benefícios:
política climática que vira política de saúde.
Um ponto importante para blog: o ganho em saúde não é
“apenas futuro”. Em localidades onde há substituição relevante de térmicas
fósseis e redução de emissões, o resultado pode aparecer em menos atendimentos
por crises respiratórias, menos dias de trabalho perdidos e menor pressão sobre
a rede.
Redução de custos no SUS com transição energética
Quando a poluição do ar contribui para mais crises de asma,
exacerbações de DPOC, pneumonias e eventos cardiovasculares, a consequência é
aumento de:
atendimentos de urgência/emergência,
internações,
uso de medicações e acompanhamento de longo prazo,
afastamentos e perda de produtividade (impacto
socioeconômico indireto).
A transição energética, ao reduzir parte da carga de
poluentes, pode funcionar como uma forma de prevenção estrutural. Não substitui
vacinação, atenção primária ou saneamento, mas reduz um fator de risco
ambiental que “empurra” pessoas para o sistema.
No contexto brasileiro, essa discussão pode ser conectada a
duas frentes bem práticas:
Políticas públicas de energia (expansão de
renováveis, modernização de redes, armazenamento e gestão de demanda), com
efeitos indiretos na saúde.
Eficiência energética e geração distribuída em
equipamentos públicos, como hospitais, UBS e unidades administrativas,
reduzindo custo operacional e liberando recursos — ainda que isso seja um
efeito orçamentário, não diretamente “epidemiológico”.
Em termos de comunicação: energia solar pode ser apresentada
como investimento que evita gasto, e não só como gasto “verde”.
Qualidade de vida e sustentabilidade: o efeito que a
população sente
Além de indicadores clínicos, a melhora da qualidade do ar
costuma se traduzir em efeitos cotidianos:
menos falta de ar e crises em pessoas com asma/alergias,
mais conforto para idosos e crianças (grupos mais
vulneráveis),
mais disposição para atividades ao ar livre,
percepção de bem-estar urbano (rua mais “respirável”, menos
cheiro de fumaça, menos irritação ocular).
E há um componente de justiça ambiental: a poluição tende a
afetar mais quem mora próximo a vias de grande tráfego, zonas industriais e
regiões com menor infraestrutura urbana. Políticas de transição energética bem
desenhadas podem reduzir desigualdades em saúde — desde que os benefícios (incluindo
acesso à energia limpa) não fiquem restritos a quem já tem mais renda.
Conclusão: transição solar também é política de saúde
Ao conectar energia solar e saúde pública, a conversa muda
de “qual tecnologia é mais barata?” para “qual modelo reduz risco, doença e
custo social?”. A evidência internacional indica que reduzir poluição do ar é
uma das medidas com melhor relação custo-benefício em saúde coletiva. E, nesse
pacote, ampliar energia limpa — com a solar como protagonista — aparece como
estratégia com ganho duplo: menos emissões e menos adoecimento.
Se a transição energética é um caminho para cumprir metas
climáticas, ela também pode ser uma forma inteligente de prevenir doenças
respiratórias e aliviar, no médio e longo prazo, a pressão sobre sistemas
públicos como o SUS.
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