![]() |
| Imagem desenvolvida por IA |
No artigo anterior, contamos como o Império Inca, sob o
comando visionário de Pachacuti, decidiu construir Machu Picchu em um dos
pontos mais inóspitos dos Andes. Mas a pergunta que fica é: como, sem
ferramentas de ferro, sem a roda e sem animais de tração pesada, eles
conseguiram erguer uma cidade tão precisa e duradoura?
A resposta está em um domínio de engenharia tão avançado que
arqueólogos e engenheiros modernos ainda o estudam como referência técnica.
Pedras que abraçam terremotos
A técnica mais icônica de Machu Picchu é o encaixe de blocos
de pedra sem uso de argamassa, conhecida como ashlar. As pedras são
talhadas com tamanha precisão que se encaixam perfeitamente umas nas outras,
muitas vezes sem espaço suficiente para inserir uma lâmina entre elas (Protzen,
1993).
Essa técnica não era apenas estética — era funcional. O Peru
está localizado em uma zona de intensa atividade sísmica, e estruturas rígidas
costumam colapsar durante terremotos. As paredes incas, no entanto, foram
projetadas para "dançar": durante um tremor, as pedras se movem
levemente, absorvem a energia sísmica e depois retornam à posição original,
fenômeno conhecido como resposta sismo-resistente (Wright & Valencia
Zegarra, 2004). Estudos de simulação estrutural mostram que essa flexibilidade
controlada é o principal motivo pelo qual muros incas resistem a tremores que
destruiriam construções coloniais espanholas erguidas séculos depois com
argamassa rígida (Ogburn, 2015).
Um sistema hidráulico à frente de seu tempo
Machu Picchu recebe, em média, mais de 1.800 mm de chuva por
ano — volume capaz de destruir construções em poucas décadas se a água não for
corretamente escoada (Wright, Valencia Zegarra & Lorah, 1997).
Para resolver esse problema, os incas construíram um
sofisticado sistema de drenagem subterrânea, formado por canais escavados sob
os pátios, terraços e caminhos da cidade. Esses dutos direcionam a água da
chuva para fora da estrutura urbana, evitando erosão e infiltrações nas
fundações (Wright & Valencia Zegarra, 2004).
Complementando esse sistema, há uma rede de 16 fontes de
água interligadas por canais de pedra, alimentadas por uma nascente natural
localizada a cerca de 750 metros da cidade. O engenheiro Kenneth Wright, que
estudou extensivamente o sistema hídrico do sítio, descreveu essa engenharia
como "surpreendentemente moderna", capaz de fornecer água potável de
forma constante mesmo durante períodos de seca (Wright, Valencia Zegarra &
Lorah, 1997).
Terraços que sustentam a montanha
Os famosos terraços agrícolas (andenes) de Machu
Picchu não serviam apenas para o cultivo de milho, batata e outros alimentos
andinos — desempenhavam uma função geotécnica essencial.
Cada terraço é construído em camadas: uma base de pedras
grandes, seguida por camadas de cascalho, areia e, por fim, terra fértil na
superfície. Essa estrutura em camadas funciona como um sistema de drenagem
natural, impedindo o acúmulo de água que poderia causar deslizamentos de terra
nas encostas extremamente inclinadas da montanha (Kendall, 1985).
Sem esses terraços, a erosão e as chuvas intensas
provavelmente teriam destruído as fundações da cidade há séculos. Eles são, em
essência, tanto uma solução agrícola quanto uma armadura estrutural para a
montanha.
Um mistério ainda maior
Essa mesma engenhosidade construtiva pode explicar por que a
cidade permaneceu praticamente intacta e oculta por quase quatro séculos —
ignorada pelos cronistas espanhóis, encoberta pela vegetação da floresta andina
e apresentada formalmente ao mundo ocidental apenas em 1911, pelo explorador
norte-americano Hiram Bingham (Bingham, 1948).
No próximo artigo desta série, vamos explorar justamente
essa redescoberta: como Machu Picchu, uma cidade construída com tamanha
sofisticação, permaneceu invisível ao mundo por tanto tempo — e o que esse
evento revelou sobre a própria história da arqueologia moderna.
Referências Bibliográficas
BINGHAM, Hiram. Lost City of the Incas: The Story of
Machu Picchu and Its Builders. New York: Duell, Sloan and Pearce, 1948.
KENDALL, Ann. Aspects of Inca Architecture: Description,
Function and Chronology. Oxford: British Archaeological Reports, 1985.
OGBURN, Dennis E. Assessing the Level of Visibility of
Cultural Objects in Past Landscapes. Journal of Archaeological Science,
v. 33, n. 3, 2015.
PROTZEN, Jean-Pierre. Inca Architecture and Construction
at Ollantaytambo. New York: Oxford University Press, 1993.
WRIGHT, Kenneth R.; VALENCIA ZEGARRA, Alfredo; LORAH,
William L. Ancient Machu Picchu Drainage Engineering. Journal of Irrigation
and Drainage Engineering, v. 123, n. 5, 1997.
WRIGHT, Kenneth R.; VALENCIA ZEGARRA, Alfredo. Machu
Picchu: A Civil Engineering Marvel. Reston: ASCE Press, 2004.
.jpg)








.jpg)