Radio Evangélica

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segunda-feira, 24 de março de 2025

Resenha do Livro Dom Casmurro, de Machado de Assis

Publicado em 1899, Dom Casmurro é uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira e um marco do Realismo no Brasil. Escrito por Machado de Assis, o romance explora temas como ciúme, memória, traição e as complexidades das relações humanas. O autor, que viveu em um período de transição entre o Romantismo e o Realismo, utiliza a narrativa em primeira pessoa para apresentar a história sob a perspectiva de Bento Santiago, o protagonista.

A obra é estruturada como uma espécie de memorial, em que Bentinho, já envelhecido e recluso, decide escrever suas memórias para reconstruir sua trajetória desde a juventude até a fase adulta. A narrativa gira em torno de sua relação com Capitu, uma mulher de personalidade forte, olhos descritos como "olhos de ressaca" ou "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". O relacionamento entre eles, que começa na adolescência, é marcado por uma intensa paixão, mas também pelo ciúme doentio de Bentinho.

O grande ponto de tensão do romance é a dúvida em relação à fidelidade de Capitu. Bentinho, tomado pelo ciúme, passa a acreditar que seu filho Ezequiel não é seu, mas fruto de uma traição entre Capitu e seu melhor amigo, Escobar. Machado de Assis conduz a narrativa de forma ambígua, sem fornecer provas concretas da infidelidade, o que mantém o leitor em um estado de incerteza permanente.

Um dos aspectos mais notáveis do livro é a maneira como Machado de Assis desconstrói a confiança na memória e na verdade subjetiva. Por ser narrado por Bentinho, a história é apresentada sob seu ponto de vista, repleto de ressentimentos e inseguranças, o que levanta questionamentos sobre a confiabilidade do narrador. A dúvida central – Capitu traiu ou não traiu? – permanece sem resposta definitiva até o fim do romance, deixando ao leitor a tarefa de interpretar as pistas e tirar suas próprias conclusões.

O título Dom Casmurro faz referência ao apelido que o protagonista recebe em sua velhice, refletindo sua personalidade introspectiva e amarga. A obra, além de explorar o drama pessoal de Bentinho, também aborda críticas sutis à sociedade patriarcal da época, destacando o papel restritivo imposto às mulheres e a maneira como a obsessão masculina pelo controle pode destruir relações.

Em síntese, Dom Casmurro é uma obra-prima do Realismo brasileiro que transcende sua época e permanece atual por sua profundidade psicológica e estrutura narrativa inovadora. A genialidade de Machado de Assis reside na capacidade de criar um enigma emocional e moral que ecoa no leitor muito tempo após a leitura, reforçando a ideia de que a verdade, muitas vezes, é moldada pelas nossas percepções e sentimentos.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Esaú e Jacó: A Dualidade entre Monarquismo e Republicanismo no Romance de Machado de Assis

Esaú e Jacó, escrito por Machado de Assis em 1904, é um romance brasileiro narrado pelo conselheiro Aires que aborda as desavenças ideológicas entre dois irmãos gêmeos, Pedro e Paulo. A obra faz referência à passagem bíblica de Gênesis 25:23, que diz: "E o Senhor lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor." Assim como Esaú e Jacó na Bíblia, há uma disputa entre os irmãos ainda no ventre da mãe.

Natividade e Agostinho Santos, os pais dos gêmeos, tinham expectativas diferentes sobre o sexo de seus filhos: enquanto Natividade queria um menino, Agostinho desejava uma menina. Acabaram tendo dois garotos, Pedro e Paulo, nomes que também remetem à Bíblia, onde há registros de desavenças entre os Apóstolos Pedro e Paulo.

Ambientado em um período cinco anos após a Proclamação da República, o romance simboliza a divisão do povo brasileiro entre republicanos e monarquistas. Pedro, um médico conservador, representa a tradição monarquista, enquanto Paulo, um advogado, é defensor do republicanismo. As desavenças entre os irmãos são constantes e se tornam ainda mais acirradas quando ambos se apaixonam por uma moça chamada Flora. Flora demonstra simpatia pelos dois, mas nunca toma uma decisão concreta sobre qual deles escolher.

A mãe dos irmãos, aflita com a situação, deseja que haja união entre eles, acreditando que, por serem gêmeos, deveriam ser mais unidos, e não viver em constantes desavenças. Em momentos de tragédia, como as mortes de Flora e de Natividade, os irmãos registram duas tréguas. No leito de morte, Natividade implora para que os irmãos cessem as desavenças, e Pedro e Paulo se comprometem a obedecer à mãe. Contudo, a ideia não é de uma trégua permanente, mas de suportarem as diferenças um do outro. Essa paz é temporária, e os conflitos inevitavelmente retornam.

A narrativa de Machado de Assis utiliza essa dualidade entre Pedro e Paulo para explorar temas mais amplos, como política, identidade nacional e as complexidades das relações humanas. A simbologia bíblica de Esaú e Jacó adiciona profundidade à narrativa, mostrando que, assim como na Bíblia, os conflitos entre os irmãos são inevitáveis, mesmo quando tentam fazer as pazes. O romance é um retrato da sociedade brasileira da época, com suas divisões ideológicas e anseios por unidade, que continua a ressoar na compreensão contemporânea do país.


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