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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Domitila de Castro: A Mulher que Governou os Bastidores do Império com Paixão e Escândalo

Conheça a trajetória da Marquesa de Santos, a amante de Dom Pedro I que virou símbolo de poder paralelo, paixão proibida e transformação social no Brasil Imperial.

Retrato de Domitila de Castro do Canto e Mello, a Marquesa de Santos -
Wikimedia Commons
No coração do Primeiro Reinado, uma mulher sem cargo político tornou-se uma das figuras mais influentes do Brasil Império. Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, protagonizou uma relação amorosa com Dom Pedro I que abalou a Corte, dividiu a sociedade e marcou profundamente a política e a moral da época. Esta é a história de poder, escândalo e redenção de uma das personagens femininas mais intrigantes da história brasileira.


A Ascensão de uma Mulher à Margem da Nobreza

Pintura “Independência ou Morte”,
Pedro Américo – Wikimedia Commons
Nascida em São Paulo em 1797, Domitila teve uma juventude marcada pela violência: seu primeiro marido, Felício Pinto Coelho de Mendonça, chegou a esfaqueá-la. Em 1822, conheceu Dom Pedro I, e o encontro mudou para sempre sua vida e a história do país.

O relacionamento, escancarado aos olhos da Corte, rompeu protocolos da nobreza e fez de Domitila uma figura poderosa — ainda que controversa.


A Corte Paralela: O Solar da Marquesa

O Solar da Marquesa de Santos, hoje museu em São Paulo
 Wikimedia Commons

Diferente das amantes discretas da Europa, Domitila foi alçada a uma posição pública: tornou-se Viscondessa de Castro e, depois, Marquesa de Santos. Instalada em um solar vizinho à residência real, ela passou a interferir em decisões políticas, favorecendo aliados e familiares com títulos e cargos.

Seu nome virou sinônimo de “atalho ao trono”, e seu poder extraoficial gerava desconforto entre ministros e nobres da velha guarda.

O Triângulo Amoroso que Chocou o Império

Enquanto Imperatriz Leopoldina trabalhava pela estabilidade do novo império, via-se obrigada a conviver com a presença constante da amante de seu marido. A humilhação foi completa quando Domitila foi nomeada Dama de Companhia da Imperatriz.

A morte de Leopoldina, em 1826, causou comoção nacional. Domitila passou de favorita a vilã. Foi insultada publicamente, teve bonecos com sua imagem apedrejados e tornou-se símbolo de decadência moral para a opinião pública.

Do Escândalo à Redenção: A Marquesa Filantropa

Com o casamento de Dom Pedro I com Amélia de Leuchtenberg, em 1829, Domitila foi oficialmente afastada da Corte. Rejeitada pelo trono, ela reinventou sua vida.

De volta a São Paulo, casou-se com o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, e se dedicou à filantropia. Tornou-se figura respeitada na sociedade paulista, apoiando estudantes e causas sociais.

Um Ícone Feminino Além do Romance

Domitila de Castro não foi apenas uma amante: foi símbolo de resistência, influência e transformação. Sua vida expõe as contradições entre desejo pessoal, moralidade pública e os limites do poder feminino em uma sociedade patriarcal.

Referências Bibliográficas

Rezzutti, Paulo. Domitila: A Verdadeira História da Marquesa de Santos. Geração Editorial, 2013.
Rezzutti, Paulo. D. Pedro: A História Não Contada. LeYa, 2015.
Del Priore, Mary. A Carne e o Sangue. Rocco, 2012.
Monteiro, Tobias. História do Império: A Elaboração da Independência. Itatiaia, 1981.

Conclusão

A história de Domitila é uma aula sobre poder, gênero e moral na formação do Brasil. E você, o que acha da influência dessa mulher na história nacional? Compartilhe sua opinião nos comentários!

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

General Pierre Labatut: O Herói Controverso da Independência na Bahia

Acervo do Museu do Ipiranga
Herói de guerra ou tirano perigoso? Este artigo mergulha na trajetória de Pierre Labatut, o general francês das Guerras Napoleônicas contratado para liderar o Exército Pacificador no Brasil. Peça-chave na expulsão das tropas portuguesas da Bahia, Labatut viveu uma dualidade: sua genialidade militar garantiu a vitória, mas seu temperamento despótico e seus métodos radicais quase provocaram uma guerra civil entre os patriotas. Uma análise sobre como a "mão de ferro" estrangeira moldou a identidade nacional brasileira.

Um Barril de Pólvora no Recôncavo

A Independência do Brasil, proclamada em 1822 às margens do Ipiranga, foi apenas o início de uma batalha sangrenta que demoraria a terminar no Norte e Nordeste. Enquanto o Sul celebrava, a Bahia permanecia sob o julgo do General português Inácio Luís Madeira de Melo, que transformou Salvador em uma fortaleza leal a Lisboa.

O Brasil recém-nascido tinha vontade, mas não tinha um exército profissional. As milícias locais eram corajosas, porém desorganizadas. Foi nesse cenário de incerteza que José Bonifácio, o Patriarca da Independência, jogou uma cartada arriscada: importar a guerra moderna. Ele contratou Pierre Labatut, um veterano francês calejado nos campos de batalha da Europa, com uma missão clara e brutal: organizar o caos e expulsar os portugueses a qualquer custo.

A Sombra de Napoleão nos Trópicos

Pierre Labatut (1776-1849) não era um diplomata; era um soldado forjado no fogo das campanhas napoleônicas. Ele trouxe para o clima tropical da Bahia a disciplina rígida e a frieza tática dos exércitos europeus. Para as milícias brasileiras — acostumadas a comandos informais e guerrilhas esporádicas —, a chegada de Labatut foi um choque cultural.

Ao assumir o comando do "Exército Pacificador", Labatut encontrou tropas dispersas, mal alimentadas e mal armadas. Com uma eficiência implacável, ele profissionalizou o conflito. Sua estratégia não se baseava apenas em heroísmo, mas em logística e cerco. Ele entendeu que, para vencer Madeira de Melo, não bastava atacar; era preciso sufocar.

O Cerco de Salvador: A Vitória da Estratégia

A atuação de Labatut foi decisiva. Ele unificou o comando e impôs um cerco terrestre impenetrável ao redor de Salvador, cortando o fluxo de alimentos e suprimentos que vinham do Recôncavo.

Combinando essa pressão terrestre com o bloqueio naval liderado por Lord Cochrane (outro mercenário a serviço do Império), a situação dos portugueses tornou-se desesperadora. A fome assolou a capital baiana. A estratégia de desgaste de Labatut funcionou perfeitamente, forçando Madeira de Melo a abandonar a cidade em 2 de julho de 1823. A data marca a verdadeira consolidação da independência nacional, mas o arquiteto dessa estratégia não estaria lá para ver seu triunfo.

O "General Francês" contra as Elites Brasileiras

Se no campo de batalha Labatut era um gênio, na política era um desastre. Seu estilo centralizador e arrogante colidiu frontalmente com os interesses dos poderosos senhores de engenho e coronéis locais. Labatut não confiava nos oficiais brasileiros e não hesitava em usar de violência extrema — incluindo execuções sumárias — para manter a ordem.

Mas o ponto de ruptura foi social. Labatut, focado apenas na vitória militar, começou a recrutar escravizados e libertos para as linhas de frente, prometendo ascensão e glória. Isso aterrorizou a elite escravocrata baiana, que temia uma revolução no estilo do Haiti (haitianismo) caso as classes baixas fossem armadas e empoderadas.

Acusado de tirania e de planejar golpes, Labatut tornou-se insuportável. Em um episódio dramático antes mesmo da vitória final, as próprias tropas brasileiras se voltaram contra seu comandante. Labatut foi deposto, preso e enviado ao Rio de Janeiro sob a acusação de abuso de poder, encerrando sua campanha na Bahia de forma melancólica.

O Legado de um Mal Necessário

Pierre Labatut permanece como uma das figuras mais fascinantes e contraditórias da nossa história. Ele foi o "mal necessário": sem sua expertise militar, a Bahia poderia ter permanecido portuguesa por muito mais tempo, fragmentando o território nacional. No entanto, sua incapacidade de compreender a política e a cultura do país que o contratou selou seu destino.

Sua trajetória expõe as dores do parto do Brasil Império: uma nação que precisou de mãos estrangeiras para garantir sua soberania, mas que lutou ferozmente para afirmar sua própria identidade diante delas. Labatut foi um herói sem estátua no coração da elite de sua época, mas fundamental para que o Brasil fosse um só.

Referências Bibliográficas

GOMES, Laurentino. 1822. São Paulo: Globo Livros, 2010.

KRAAY, Hendrik. "A política de raça, cor e outras exclusões durante a Guerra da Independência na Bahia". Estudos Afro-Asiáticos, 2002.

TAVARES, Luís Henrique Dias. A Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005.

VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História da Independência do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2010.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

D. Pedro I

A figura de D. Pedro I, o Imperador que proclamou a Independência do Brasil e abdicou do trono para lutar pela liberdade em Portugal, é, sem dúvida, uma das mais complexas e fascinantes da nossa história. Longe de ser um personagem unidimensional, sua trajetória é marcada por uma série de contradições que o tornam profundamente humano e, ao mesmo tempo, grandioso. A obra de Isabel Lustosa, "D. Pedro I", mergulha com maestria nessas dualidades, oferecendo uma análise rica e multifacetada que desafia simplificações.

D. Pedro I: Um Homem de Contradições

D. Pedro I foi um monarca que encarnou o espírito de seu tempo, um período de grandes transformações e ideais liberais. Sua vida foi um turbilhão de paixões, decisões políticas audaciosas e falhas pessoais que, paradoxalmente, não diminuem seu impacto histórico, mas o tornam mais compreensível. A resenha da vida de D. Pedro I revela um homem dividido entre o dever de Estado e os impulsos pessoais, entre a visão de um futuro para o Brasil e as amarras de seu próprio temperamento.

Qualidades que Moldaram a História

Entre as muitas qualidades que D. Pedro I possuía, destacam-se:

  • Liderança e Coragem: Sua determinação em proclamar a Independência do Brasil, mesmo diante de forte oposição, e sua bravura em campo de batalha, especialmente na Guerra Civil Portuguesa, são inegáveis. Ele não hesitou em tomar as rédeas do destino de duas nações.
  • Constitucionalismo: Apesar de ser um imperador, D. Pedro I era um defensor das instituições livres e da monarquia constitucional. Ele outorgou a primeira Constituição brasileira, um documento avançado para a época, e lutou incansavelmente pelo liberalismo em Portugal.
  • Amor pelos Filhos: A correspondência e os relatos da época revelam um pai afetuoso e preocupado com o bem-estar e a educação de seus herdeiros, especialmente D. Pedro II.
  • Visão de Estado: Sua capacidade de enxergar o Brasil como uma nação independente e unida, resistindo às tendências separatistas das províncias, foi crucial para a formação territorial e política do país.

As Falhas de um Imperador Humano

Contudo, a grandeza de D. Pedro I não o isentava de falhas, que a história e a biografia de Lustosa não hesitam em apontar:

  • Vícios e Impetuosidade: Sua vida pessoal foi marcada por paixões intensas e, por vezes, escandalosas, que geraram conflitos e desgastes políticos. Sua impetuosidade e dificuldade em lidar com críticas contribuíram para a instabilidade de seu reinado.
  • Conflitos Políticos: A dificuldade em conciliar as diversas facções políticas do Brasil e sua tendência a governar de forma centralizadora levaram a crises e à sua eventual abdicação.
  • Desgaste Físico e Emocional: A intensidade de sua vida, as batalhas e as pressões políticas e pessoais cobraram um alto preço, levando a um desgaste precoce de sua saúde.

A Abordagem de Isabel Lustosa

Isabel Lustosa, em "D. Pedro I", oferece uma biografia que vai além do mito e da caricatura. A autora se aprofunda nas fontes primárias, revelando um D. Pedro I complexo, com suas virtudes e defeitos, suas glórias e suas tragédias. A obra não busca julgar, mas compreender o homem por trás do imperador, contextualizando suas ações e decisões dentro do cenário político e social do século XIX. É uma leitura essencial para quem busca uma compreensão mais profunda e matizada de uma das figuras mais importantes da nossa história.

Para Quem é Este Livro?

Este livro é altamente recomendado para todos os entusiastas da história do Brasil e de Portugal, especialmente para aqueles que desejam ir além das narrativas superficiais. É uma leitura obrigatória para monarquistas que buscam uma visão equilibrada e honesta de D. Pedro I, reconhecendo suas contribuições inestimáveis e suas falhas humanas. A obra de Lustosa é um convite à reflexão sobre a complexidade da liderança e o legado duradouro de um homem que, com todas as suas contradições, moldou o destino de duas nações.

 

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terça-feira, 18 de novembro de 2025

Joaquim Gonçalves Ledo: O Liberal Radical que Quase Mudou a Cara da Nossa Independência

 Conheça o articulador do "Dia do Fico" e o grande rival de José Bonifácio na construção do Brasil

Você já ouviu falar de Joaquim Gonçalves Ledo? Talvez não com a mesma frequência que José Bonifácio ou D. Pedro I, mas a verdade é que, sem ele, a história da nossa Independência poderia ter tomado um rumo bem diferente. Ledo foi uma figura central, um liberal fervoroso que sonhava com um Brasil mais autônomo e menos centralizado, e que não hesitou em desafiar os poderes estabelecidos. Prepare-se para conhecer o homem por trás de um dos momentos mais decisivos da nossa história.

Quem Foi Joaquim Gonçalves Ledo? Um Intelectual à Frente do Seu Tempo

Nascido no Rio de Janeiro em 1781, Joaquim Gonçalves Ledo não era um nobre de berço, mas um homem de ideias e ação. Com uma formação sólida e um espírito inquieto, ele se destacou como jornalista e editor, usando a imprensa como uma poderosa ferramenta para disseminar suas convicções liberais. Em um período de efervescência política, onde o futuro do Brasil estava em jogo, Ledo se tornou uma voz influente, defendendo a autonomia das províncias e a limitação dos poderes do monarca. Ele acreditava que a verdadeira independência viria não apenas da ruptura com Portugal, mas da construção de um país com instituições fortes e representativas.

O Articulador do "Dia do Fico": A Voz do Povo no Palácio

O ano de 1822 foi um caldeirão de tensões. Portugal exigia o retorno de D. Pedro a Lisboa, e a elite brasileira se dividia entre a lealdade à metrópole e o desejo de autonomia. É nesse cenário que Ledo brilha. Como um dos principais articuladores do movimento que culminou no "Dia do Fico", ele foi incansável. Organizou abaixo-assinados, mobilizou a opinião pública e pressionou D. Pedro I a permanecer no Brasil. A famosa frase "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico!" não teria o mesmo impacto sem a orquestração política de Ledo e seus aliados. Ele foi a força motriz por trás da manifestação popular que deu a D. Pedro a legitimidade para desafiar as Cortes portuguesas.

"Enquanto alguns viam a Independência como um ato de cima para baixo, Ledo sonhava com um Brasil construído pela vontade popular, com províncias fortes e um monarca com poderes limitados."

O Sonho de um Brasil Descentralizado: A Visão Liberal de Ledo

A visão política de Ledo era clara: ele defendia um Brasil independente, sim, mas com uma constituição que garantisse amplas liberdades e, principalmente, uma autonomia significativa para as províncias. Para ele, a centralização excessiva do poder nas mãos do imperador ou de uma elite carioca seria apenas uma nova forma de dominação. Ledo queria um país onde as diferentes regiões tivessem voz e poder de decisão, um ideal que, de certa forma, ecoa até hoje nos debates sobre federalismo. Sua luta era por um governo representativo, onde a vontade do povo, expressa através de seus representantes, fosse soberana.

Ledo vs. Bonifácio: O Duelo de Titãs da Independência

A história da Independência é muitas vezes contada como a saga de D. Pedro I e José Bonifácio. Mas, nos bastidores, havia um embate ideológico feroz entre Bonifácio e Ledo. José Bonifácio, o "Patriarca da Independência", era um liberal mais conservador, que defendia um poder central forte e uma monarquia robusta para garantir a unidade territorial e a ordem social. Ledo, por outro lado, era o liberal radical, o idealista que queria mais liberdade, mais participação popular e menos poder nas mãos do monarca. Essa rivalidade não era apenas pessoal; era um choque de visões sobre o futuro do Brasil, um conflito político que moldou os primeiros anos do Império e que, para uma série de ficção histórica, oferece um prato cheio de drama e intriga.

Um Personagem Para as Telas: O Potencial Dramático de Ledo

A trajetória de Joaquim Gonçalves Ledo é rica em elementos para narrativas de ficção. Sua ascensão como voz popular, sua articulação nos bastidores do poder, seu embate com figuras poderosas como José Bonifácio e até mesmo D. Pedro I, e sua eventual marginalização política, fazem dele um personagem complexo e fascinante. Ele representa o idealista que luta por seus princípios, o estrategista político que move as peças do tabuleiro, e o homem que, apesar de sua importância, acabou ofuscado por outros nomes. Sua história é um lembrete de que a Independência do Brasil foi um processo multifacetado, com heróis e antagonistas de diversas matizes.

Conclusão: O Legado de um Visionário Esquecido

Joaquim Gonçalves Ledo foi, sem dúvida, um dos grandes arquitetos da nossa Independência. Sua visão liberal e seu papel crucial no "Dia do Fico" são inegáveis. Embora sua figura não seja tão celebrada quanto a de outros protagonistas, seu legado de luta por um Brasil mais justo, autônomo e representativo permanece relevante. Conhecer Ledo é entender que a história é feita de múltiplos olhares e que, muitas vezes, os heróis mais interessantes são aqueles que desafiam o status quo e sonham com um futuro diferente.

Referências Bibliográficas

CALDEIRA, Jorge. José Bonifácio: O Patriarca da Independência. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: A Elite Política Imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2015.

GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro I a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado. São Paulo: Nova Fronteira, 2010.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2011.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro I: A História Não Contada. São Paulo: LeYa, 2015.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa M. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Anos 1960–1980 no Brasil: Reformulações Estruturais e a Expansão da Proteção Social no Trabalho

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O período compreendido entre 1960 e 1980 foi um dos mais complexos e paradoxais da história brasileira. Sob a égide de um regime autoritário (a partir de 1964), o país experimentou um intenso processo de modernização econômica, conhecido como "desenvolvimentismo". Esse modelo impactou diretamente as relações de trabalho, que foram profundamente reformuladas. Por um lado, o Estado buscou flexibilizar certas garantias para dinamizar o mercado; por outro, expandiu a proteção social em áreas como saúde e segurança, ao mesmo tempo que fortalecia seu aparato institucional para mediar conflitos. Este artigo analisa as principais transformações ocorridas nesse período.

A Substituição da Estabilidade Decenal pelo FGTS 

Até 1966, vigorava a "estabilidade decenal", um instituto que garantia ao trabalhador com mais de dez anos de serviço na mesma empresa o direito de não ser dispensado, salvo por falta grave ou força maior. Embora fosse uma importante garantia contra a dispensa arbitrária, era vista pelo governo e pelo setor empresarial como um entrave à modernização das relações de produção e um desincentivo à contratação.

Com a Lei nº 5.107/1966, o regime militar instituiu o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que se tornou o regime geral para as novas contratações. A estabilidade foi mantida para os trabalhadores que já a possuíam, mas o FGTS passou a funcionar como uma poupança compulsória, formada por depósitos mensais do empregador. Em caso de demissão sem justa causa, o trabalhador poderia sacar o saldo, acrescido de uma multa rescisória, conferindo maior liquidez ao mercado de trabalho. Este sistema foi posteriormente consolidado e universalizado pela Lei nº 8.036/1990, após a Constituição de 1988.

A Constituição de 1967/1969 e o Foco Desenvolvimentista 

Constituição de 1967, e sua Emenda nº 1 de 1969, outorgada pela junta militar, mantiveram o aparato corporativista da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943, mas o reorientaram para os objetivos do projeto desenvolvimentista. A estrutura sindical permaneceu atrelada ao Estado, com forte controle sobre as lideranças e restrições ao direito de greve.

A ordem social e econômica visava integrar o trabalhador ao projeto de nação, não como um ator político autônomo, mas como uma peça fundamental da engrenagem produtiva. A legislação trabalhista, nesse contexto, servia como um instrumento de regulação estatal para garantir a paz social e a produtividade necessárias ao crescimento econômico acelerado do período do "milagre econômico".

Consolidação de Benefícios e Normas de Saúde e Segurança no Trabalho 

Um dos avanços mais significativos do período foi a atenção crescente à saúde e segurança do trabalhador. O Brasil registrava altíssimos índices de acidentes de trabalho, o que gerava custos sociais e econômicos elevados. Em resposta, o governo promoveu a consolidação de normas de proteção.

O marco principal foi a Portaria nº 3.214, de 1978, do Ministério do Trabalho, que aprovou as Normas Regulamentadoras (NRs). Elas detalharam as exigências de segurança e medicina do trabalho para os mais diversos setores, estabelecendo desde o uso obrigatório de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) até a criação de serviços especializados (SESMT) e Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPA) nas empresas. Essa foi uma clara expansão da proteção social, transferindo para o empregador responsabilidades objetivas pela integridade física do trabalhador.

Expansão da Justiça do Trabalho e do Contencioso 

O crescimento econômico, a urbanização acelerada e a complexidade crescente das relações de trabalho levaram a um aumento exponencial do número de litígios. Para lidar com essa demanda, a Justiça do Trabalho foi significativamente expandida durante esse período, com a criação de novas Varas (então Juntas de Conciliação e Julgamento) por todo o país.

Além do contencioso individual, o contencioso coletivo (dissídios coletivos) também foi uma ferramenta central, embora controlada. Era por meio da Justiça do Trabalho que se definiam reajustes salariais e condições de trabalho para categorias inteiras, reforçando o papel do Estado como mediador principal das relações entre capital e trabalho, em detrimento da negociação coletiva autônoma.

Conclusão 

Os anos 1960 a 1980 representaram uma virada fundamental no Direito do Trabalho brasileiro. O modelo de proteção focado na permanência no emprego (estabilidade) foi substituído por um sistema baseado na compensação financeira (FGTS), alinhado a um projeto econômico que demandava flexibilidade. Em contrapartida, o Estado ampliou seu escopo regulador, criando um robusto arcabouço de normas de saúde e segurança e fortalecendo a estrutura judiciária para administrar os conflitos inerentes a uma sociedade industrial em rápida expansão. As bases do sistema trabalhista que seria recebido e reconfigurado pela redemocratização na Constituição de 1988 foram solidificadas nesse período de intensas contradições.

Referências Bibliográficas

GOMES, Orlando; GOTTSCHALK, Elson. Curso de Direito do Trabalho. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002.

NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho: história e teoria geral do direito do trabalho, relações individuais e coletivas do trabalho. 26. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

VIANNA, Luiz Werneck. Liberalismo e Sindicato no Brasil. 4. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

BRASIL. Lei nº 5.107, de 13 de setembro de 1966. Cria o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 set. 1966.

BRASIL. Ministério do Trabalho. Portaria nº 3.214, de 08 de junho de 1978. Aprova as Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas a Segurança e Medicina do Trabalho. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 jul. 1978.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O Eco de 1930: Uma Imersão na Revolução que Moldou o Brasil

Um Marco na História Brasileira

O livro “1930: Águas da Revolução”, de Juremir Machado da Silva, é muito mais que uma obra histórica. Ele é uma viagem intensa pelas águas revoltas que moldaram o Brasil moderno. Com uma narrativa envolvente e uma análise profunda, o autor revisita a Revolução de 1930, evento que redesenhou as estruturas políticas e sociais do país e marcou o início da era Getúlio Vargas.

A Revolução de 1930: Quando o Brasil Mudou de Rumo

A obra mergulha nas origens do movimento revolucionário que encerrou a chamada Política do Café com Leite, responsável por alternar o poder entre as elites de São Paulo e Minas Gerais. Em meio a esse cenário de insatisfação, Juremir Machado da Silva revela o nascimento de uma nova consciência nacional.
O autor descreve um Brasil em ebulição, com reformas militares, tensões sociais e um clamor popular por renovação. O resultado foi o levante que levou Getúlio Vargas ao poder, inaugurando um novo ciclo político.

Os Protagonistas da Mudança

A força do livro está na forma como o autor retrata os personagens históricos. Getúlio Vargas aparece não apenas como líder, mas como um estrategista habilidoso, guiado por ambição e visão.
Outras figuras ganham destaque, como João Neves da Fontoura, articulador essencial da Aliança Liberal, e os tenentes, jovens militares reformistas que lutaram por um Brasil mais justo.
A narrativa vai além dos nomes: ela apresenta as alianças, traições e ideais que transformaram o país e expõe as complexas relações de poder da época.

Entre o Poder, a Amizade e a Traição

O autor vai fundo nas motivações humanas por trás dos eventos. Ele mostra como amizade, lealdade e traição caminharam lado a lado durante a revolução.
A busca pelo poder político revelou o melhor e o pior dos homens. As tensões entre ideais e interesses particulares criaram rupturas e alianças improváveis.
Essa dimensão emocional torna a obra mais do que um registro histórico — é um retrato vívido da natureza humana diante da mudança.

O Contexto Histórico e o Brasil em Transformação

Com precisão, Juremir Machado da Silva contextualiza a revolução dentro de uma conjuntura global.
O Brasil dos anos 1920 enfrentava crises econômicas, desigualdade social e descontentamento político. A Crise de 1929 agravou esse cenário, abalando o modelo agroexportador e acelerando o colapso das oligarquias.
O autor também destaca o papel da Coluna Prestes, símbolo da resistência e da esperança em um país novo, e a influência do Tenentismo, que questionava o atraso político e clamava por modernização.

Estilo e Linguagem: A História como Reportagem Viva

Um dos grandes méritos da obra é seu estilo narrativo. A escrita de Juremir é clara, fluida e repleta de ritmo. Ele combina rigor histórico com uma linguagem acessível, criando uma leitura envolvente, capaz de transformar fatos em emoção.
Seu texto tem a força de uma grande reportagem. Cada capítulo revela o entrelaçamento entre os bastidores do poder e as ruas fervilhantes de um país à beira da transformação.
Essa abordagem torna o livro ideal tanto para acadêmicos quanto para leitores curiosos que buscam compreender o Brasil sob uma nova perspectiva.

Para Quem é Indicado

“1930: Águas da Revolução” é leitura indispensável para professores, estudantes, jornalistas e cientistas políticos. Também é indicado para todos que desejam entender as origens da modernização brasileira e a gênese do populismo nacional.
O livro é um convite a refletir sobre as contradições sociais e os dilemas de poder que ainda ecoam em nossa política contemporânea.

Conclusão: Um Espelho do Passado para o Presente

Mais do que revisitar o passado, Juremir Machado da Silva nos leva a refletir sobre o presente.
“1930: Águas da Revolução” é uma obra que inspira, questiona e esclarece. Mostra que as revoluções não acontecem apenas nas ruas, mas também nas ideias.
Ler este livro é compreender as raízes de um Brasil que ainda busca equilíbrio entre tradição e mudança.

 

Se você deseja mergulhar nessa jornada e entender como 1930 moldou o destino do país, adquira seu exemplar de “1930: Águas da Revolução” pela Amazon e descubra a história que transformou o Brasil.


Anos 1960–1980: Reformulações e Proteção Social Ampliada

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O período entre 1960 e 1980 foi um dos mais complexos e contraditórios para o direito do trabalho e a proteção social no Brasil. Sob a égide do regime militar (1964-1985), o país vivenciou um projeto de modernização autoritária e desenvolvimentista que impactou diretamente as relações de capital e trabalho. Se, por um lado, houve a supressão da autonomia sindical e a flexibilização de direitos consolidados, por outro, o Estado expandiu seu aparato burocrático para criar e unificar novos mecanismos de proteção social, embora sob uma lógica centralizadora e controladora.

A Substituição da Estabilidade Decenal pelo FGTS

A mudança mais emblemática do período foi, sem dúvida, o fim da estabilidade decenal. Instituída na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943, a estabilidade garantia ao empregado, após dez anos de serviço na mesma empresa, o direito de não ser dispensado, salvo por falta grave ou força maior. Esse mecanismo, embora protegesse o trabalhador antigo, era visto pelo governo e pelo setor empresarial como um entrave à flexibilidade da mão de obra e um desestímulo à contratação formal.

Para substituí-la, a Lei nº 5.107/1966 criou o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O novo regime, inicialmente opcional, transformou a lógica da rescisão contratual. Em vez da segurança no emprego, o trabalhador passou a ter uma garantia patrimonial. O FGTS consistia em depósitos mensais feitos pelo empregador em uma conta vinculada ao empregado, correspondentes a uma porcentagem de seu salário. Em caso de demissão sem justa causa, o trabalhador poderia sacar o saldo acumulado, acrescido de uma multa rescisória.

Essa transição serviu a um duplo propósito no projeto desenvolvimentista:

  1. Flexibilizou o Mercado de Trabalho: Facilitou a demissão de trabalhadores, permitindo que as empresas ajustassem seus quadros com maior agilidade para responder às demandas de um ciclo econômico de rápida industrialização e grandes obras de infraestrutura.
  2. Financiou o Desenvolvimento Urbano: Os recursos do FGTS foram direcionados para o Banco Nacional da Habitação (BNH), financiando a construção de moradias e projetos de saneamento básico, peças-chave do "Milagre Econômico".

Posteriormente, o regime do FGTS foi universalizado e consolidado pela Lei nº 8.036/1990, tornando-se o sistema geral de desligamento no país.

Constituição de 1967 e o Foco Desenvolvimentista

A Constituição de 1967, outorgada pelo regime militar e aprofundada pela Emenda Constitucional nº 1, de 1969, deu o arcabouço jurídico para esse modelo. Em matéria trabalhista, ela manteve a estrutura corporativista herdada da Era Vargas — com o sindicato único por categoria e o imposto sindical —, mas esvaziou seu poder político. O direito de greve foi severamente limitado, e as lideranças sindicais foram submetidas a um forte controle estatal. O foco não era a negociação autônoma entre patrões e empregados, mas o alinhamento das relações de trabalho aos objetivos de crescimento econômico definidos pelo governo central.

Consolidação de Benefícios e a Segurança e Medicina do Trabalho

Paradoxalmente, foi nesse período de restrição política que o aparato de proteção social estatal se expandiu tecnicamente. O Estado buscou unificar e racionalizar benefícios. Um marco foi a criação do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) em 1966, que unificou os antigos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs).

No final dos anos 1970, a preocupação com as altas taxas de acidentes de trabalho, resultantes da industrialização acelerada, levou a uma importante reforma na CLT. A Lei nº 6.514, de 1977, alterou o capítulo sobre segurança e medicina do trabalho, e a Portaria nº 3.214, de 1978, aprovou as Normas Regulamentadoras (NRs). Essas normas estabeleceram, pela primeira vez, um conjunto detalhado e abrangente de padrões obrigatórios para a proteção da saúde e da integridade física dos trabalhadores em diversos setores, como o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), a constituição da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e a definição de atividades insalubres e perigosas.

Expansão da Justiça do Trabalho e do Contencioso

A crescente complexidade das leis trabalhistas e o aumento do número de trabalhadores urbanos formalizados resultaram em uma maior judicialização dos conflitos. A Justiça do Trabalho expandiu sua estrutura para dar conta da crescente demanda por resolução de litígios individuais (reclamações trabalhistas) e coletivos (dissídios), embora estes últimos estivessem sob forte tutela do Estado. A própria criação do FGTS gerou um vasto contencioso sobre depósitos, saques e correções monetárias.

Em suma, os anos 1960 a 1980 redesenharam o cenário trabalhista brasileiro, substituindo um modelo de estabilidade por um de flexibilidade compensada, ao mesmo tempo em que o Estado, de forma autoritária e tecnocrática, ampliava seu papel como regulador da segurança no trabalho e gestor da previdência social.

Referências Bibliográficas

DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 19ª ed. São Paulo: LTr, 2020. (Capítulos sobre história do direito do trabalho e FGTS).

ROMITA, Arion Sayão. Direitos Fundamentais nas Relações de Trabalho. 4ª ed. São Paulo: LTr, 2011.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14ª ed. São Paulo: Edusp, 2012. (Contextualização do período do regime militar e o "Milagre Econômico").

VIANNA, Luiz Werneck. Liberalismo e Sindicato no Brasil. 4ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999. (Análise sobre a estrutura sindical e as políticas trabalhistas).

GOMES, Angela de Castro; D'ARAÚJO, Maria Celina (Orgs.). Getulismo e Trabalhismo: tensões e dimensões. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2015. (Contém análises sobre a longa duração das estruturas trabalhistas no Brasil).

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Brasil no Pós-Guerra: A Constituição de 1946 e a Herança Social Varguista

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O fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e a queda do regime do Estado Novo no Brasil marcaram o início de um período de redemocratização. Em um cenário global polarizado pela Guerra Fria e influenciado por novas concepções de Estado de bem-estar social, a Assembleia Nacional Constituinte promulgou, em 18 de setembro de 1946, uma nova Constituição para o país. Esta Carta Magna buscou equilibrar os ideais do liberalismo democrático com as demandas sociais que haviam se consolidado na era anterior, resultando em um documento que, ao mesmo tempo que restaurava garantias individuais, preservava e aprofundava a estrutura de direitos sociais herdada do varguismo.

Reafirmação dos Direitos Sociais e a Estrutura Trabalhista

Um dos traços mais marcantes da Constituição de 1946 foi a sua dedicação aos direitos econômicos e sociais. Diferente da Carta autoritária de 1937, que outorgava direitos como uma concessão do Estado, a nova constituição os estabelecia como garantias fundamentais do cidadão. O Título V, "Da Ordem Econômica e Social", reafirmava princípios como a valorização do trabalho e a função social da propriedade.

Apesar da mudança de regime político, não houve ruptura com o modelo trabalhista construído por Getúlio Vargas. A estrutura corporativista, materializada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943, foi em grande parte mantida, com ajustes para adequá-la ao novo ambiente democrático. A unicidade sindical, a Justiça do Trabalho e o imposto sindical permaneceram como pilares das relações de capital e trabalho. Destaca-se que, embora o direito de greve tenha sido reconhecido pela Constituição de 1946 (Art. 158), sua aplicação foi estritamente regulamentada por legislações infraconstitucionais posteriores, o que, na prática, restringiu severamente o exercício desse direito durante o período. Essa manutenção reflete o pragmatismo político da época, que reconhecia a CLT como uma conquista popular irreversível e um instrumento essencial para a mediação de conflitos sociais.

Avanços na Previdência e a Institucionalização de Benefícios

A Constituição de 1946 também foi um marco para a evolução da previdência social no Brasil. O Artigo 157 estabeleceu uma ampla gama de direitos para os trabalhadores, determinando que a legislação deveria observar preceitos como:

  • Salário mínimo capaz de satisfazer as necessidades normais do trabalhador e de sua família.
  • Proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho, por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil.
  • Repouso semanal remunerado.
  • Férias anuais remuneradas.

De forma crucial, o inciso XVI do mesmo artigo previa a "previdência, mediante contribuição da União, do empregador e do empregado, em favor da maternidade e contra as consequências da doença, da velhice, da invalidez и da morte". Este dispositivo deu o alicerce constitucional para a institucionalização gradual de benefícios, que seriam posteriormente expandidos e administrados pelos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs).

Além disso, a Carta avançou na proteção contra acidentes do trabalho, determinando a responsabilidade do empregador e a garantia de assistência ao trabalhador acidentado. Esses avanços consolidaram a ideia de que a proteção social não era um favor, mas um direito do cidadão e um dever do Estado, pavimentando o caminho para o sistema de seguridade social que seria plenamente estabelecido na Constituição de 1988.

Em suma, a Constituição de 1946 representou uma síntese complexa, combinando a restauração das liberdades democráticas com a preservação e o aprofundamento das políticas sociais da Era Vargas. Ela não apenas consolidou a estrutura trabalhista existente, mas também forneceu a base para a expansão da previdência e a proteção ao trabalhador, definindo o contorno do Estado social brasileiro nas décadas seguintes.

Referências Bibliográficas

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2012.

GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2005.
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio a Castelo (1930-1964). 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

VIANNA, Luiz Werneck. Liberalismo e Sindicato no Brasil. 4. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Rondônia: A Homenagem a um Desbravador e Defensor dos Povos Indígenas

O nome de Rondônia, estado situado na região Norte do Brasil, carrega em si uma das mais belas homenagens da história nacional. Ele foi escolhido em tributo ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, figura que marcou profundamente o século XX com seu espírito de exploração, sua fé na ciência e, sobretudo, seu respeito pelos povos indígenas. Mais do que um nome, Rondônia representa um ideal de integração, humanidade e coragem.

O Contexto Histórico: A Comissão Rondon

No início do século passado, o vasto território que hoje forma Rondônia era conhecido como os “sertões do noroeste” — uma região praticamente inexplorada. A missão de conectar essas terras ao restante do país coube à Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, criada pelo governo federal e chefiada pelo então major Cândido Rondon.

Entre 1907 e 1915, a Comissão Rondon percorreu milhares de quilômetros de floresta amazônica, abrindo caminho entre rios, montanhas e aldeias isoladas. O resultado foi a instalação de mais de 2 mil quilômetros de linhas telegráficas, ligando Cuiabá a Manaus e aproximando, pela primeira vez, o coração da Amazônia do litoral brasileiro.

Mais do que um feito técnico, foi um ato de visão. Rondon acreditava que o progresso não precisava caminhar à custa da violência. Seu lema, “Morrer se preciso for, matar nunca”, tornou-se símbolo de uma nova ética de contato entre o Estado brasileiro e os povos indígenas.

De Território Federal a Estado: A Oficialização da Homenagem

O reconhecimento viria décadas depois. Em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, foi criado o Território Federal do Guaporé, abrangendo partes dos estados do Amazonas e Mato Grosso. Treze anos mais tarde, em 17 de fevereiro de 1956, a Lei nº 2.731 alterou a denominação oficial para Território Federal de Rondônia, eternizando o nome de seu patrono.

A decisão foi mais do que simbólica: era o reconhecimento de um legado. Rondon não foi apenas um engenheiro ou militar — foi um humanista que acreditava no diálogo entre culturas e na expansão do conhecimento científico como forma de unir o país.

Finalmente, em 22 de dezembro de 1981, com a Lei Complementar nº 41, Rondônia foi elevada à categoria de estado, consolidando seu nome no mapa federativo do Brasil.

O Significado do Nome

Rondônia” pode ser lida como “Terra de Rondon”. Um nome que ecoa a coragem de quem desbravou sem destruir, que integrou sem oprimir, e que viu na floresta e em seus povos não obstáculos, mas parte essencial do Brasil.

O estado, que nasceu de um ideal de conexão e respeito, continua sendo um símbolo de diversidade e resistência — valores que o próprio Marechal Rondon defendia até o fim da vida. Seu exemplo segue inspirando gerações, lembrando-nos de que o verdadeiro progresso deve caminhar lado a lado com a humanidade.

Leia também no blog

Referências Bibliográficas

BIGIO, Elias. Cândido Rondon: a integração nacional. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2000.
BRASIL. Lei nº 2.731, de 17 de fevereiro de 1956. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 17 fev. 1956.
BRASIL. Lei Complementar nº 41, de 22 de dezembro de 1981. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1981.
DIACON, Todd A. Stringing Together a Nation: Cândido Rondon and the Construction of a Modern Brazil, 1906–1930. Durham: Duke University Press, 2004.
SÁ, Dominichi Miranda de. A Ciência como Ofício: Médicos, bacharéis e cientistas no Brasil (1895–1935). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Padre João Ribeiro: O Intelectual que Pensou o Brasil Antes da Independência

Diário de Pernambuco
No turbulento cenário do Brasil Joanino, enquanto a Coroa Portuguesa administrava seus domínios a partir do Rio de Janeiro, a ideia de um "Brasil" como uma nação unificada e com identidade própria ainda era incipiente. As diversas capitanias se viam mais como extensões de Portugal do que como partes de um todo coeso.

Foi nesse ambiente de transformações que emergiu a figura de Padre João Ribeiro de Almeida, um professor de filosofia e teologia cujo pensamento ajudou a semear as bases intelectuais para a futura nação brasileira.

O Sacerdote e o Intelectual

Nascido em Pernambuco, João Ribeiro não foi apenas um religioso, mas um dos mais importantes intelectuais de seu tempo. Como professor no Seminário de Olinda, um dos grandes centros de efervescência cultural e política do período, ele teve um papel crucial na formação de jovens que, mais tarde, protagonizariam a Revolução Pernambucana de 1817 e a própria Independência do Brasil.

Sua erudição ia além da teologia. Com profundo conhecimento em filosofia, história e política, Padre João Ribeiro utilizou sua posição para disseminar ideias que desafiavam o status quo colonial. Ele argumentava que os habitantes da colônia partilhavam uma experiência histórica, geográfica e cultural distinta da metrópole, elementos que constituíam o alicerce de uma identidade nacional singular.

A Invenção da Nação Brasileira

A grande contribuição de Padre João Ribeiro foi articular, de forma sistemática, o conceito de uma “nação brasileira”. Para ele, não bastava a união administrativa sob a Coroa; era preciso cultivar um sentimento de pertencimento.

Ele defendia que o Brasil não era apenas um território vasto e rico, mas uma pátria com potencial para se autogovernar.
Em uma época em que a lealdade era devida ao Rei e ao Império Português, Ribeiro propunha uma nova centralidade: a própria terra e seu povo.

Suas aulas e escritos ajudaram a transformar a vaga noção de “ser do Brasil” em uma consciência política de ser brasileiro — um passo essencial antes da Independência.

As Sementes da Independência e o Legado

Embora não tenha participado diretamente de batalhas, o legado de Padre João Ribeiro é intelectualmente inegável.
Ao fornecer a base conceitual e o vocabulário para a ideia de nação, ele armou de ideias e convicções os movimentos que culminariam na ruptura com Portugal em 1822.

Seus alunos e leitores levaram adiante a convicção de que o Brasil possuía um destino próprio.
O pensamento de Padre João Ribeiro nos lembra que as grandes transformações históricas são precedidas por revoluções silenciosas no campo das ideias.

Ele foi um dos arquitetos intelectuais que, com a força da razão e da palavra, projetou a nação brasileira antes mesmo de suas fronteiras políticas serem traçadas — garantindo seu lugar como uma figura essencial na formação do Brasil.

Leitura complementar: Biblioteca Nacional Digital — Documentos sobre a Revolução de 1817

Referências Bibliográficas

  • HARTMANN, Ivar. Padre João Ribeiro e a Invenção do Brasil. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem Incompleta: a experiência brasileira (1500-2000): Formação: histórias. São Paulo: Editora SENAC SP, 2000. p. 175-192.
  • MELLO, Evaldo Cabral de. A Outra Independência: o Federalismo Pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.
  • SOUZA, Marina de Mello e. O Sol e a Sombra: Política e Administração na América Portuguesa do Século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • VILLALTA, Luiz Carlos. O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura. In: NOVAIS, Fernando A. (Coord.); SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil, v. 2: Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Desvendando o Brasil na Segunda Guerra: Uma Resenha de "1942: O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida", de João Barone

João Barone, conhecido baterista dos Paralamas do Sucesso, revela-se um historiador apaixonado e meticuloso em "1942: O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida".

O livro é uma imersão profunda e cativante na participação do Brasil no maior conflito da história — um período muitas vezes negligenciado ou envolto em mitos na memória nacional.

Barone não apenas narra os eventos, mas os contextualiza com riqueza de detalhes: desde a complexa política varguista até o dia a dia dos pracinhas nos campos de batalha italianos.

Leia também: LZ 127 Graf Zeppelin: O Gigante que Conquistou os Céus — outro marco da engenharia e da história mundial que cruzou os céus brasileiros.


Os Primeiros Ventos da Guerra e a Política do Pêndulo

Inicialmente neutro, o Brasil sob Getúlio Vargas praticava uma “política pendular”, equilibrando-se entre as potências do Eixo e os Aliados para extrair o máximo de benefícios econômicos e militares.

Barone explora essa ambiguidade, destacando o “namoro com o nazismo” e os receios americanos da influência germânica no Brasil. Contudo, a entrada do país na guerra foi precipitada por uma série brutal de torpedeamentos de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães e italianos em 1942.

O terror causado por esses ataques — como o afundamento do Itagiba e do Arará — ceifou centenas de vidas. A pressão popular diante das imagens chocantes de corpos chegando às praias forçou Vargas a se posicionar.
Em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra ao Eixo.

“A participação dos brasileiros na maior e mais cruel guerra já vivida pela humanidade foi uma página marcante em nossa história. Mas é surpreendente constatar que, depois de sete décadas, permaneça cercada de tabus e versões errôneas, sofrendo um esquecimento incompreensível, inaceitável.”
João Barone, capítulo “A Segunda Guerra Hoje”

O Nascimento da Força Expedicionária Brasileira (FEB)

A formação da FEB é um dos pontos altos do livro, retratada com todas as suas dificuldades e improvisações. Barone narra o desafio de “arregimentar (e capacitar) homens” para uma guerra moderna, partindo de um exército defasado em armamentos e doutrinas.

A célebre frase “É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil mandar soldados para a guerra” tornou-se um símbolo do ceticismo da época — mas a cobra fumou.
O Brasil enviou mais de 25 mil homens para lutar na Itália.

Barone destaca a adaptação dos pracinhas — muitos deles jovens humildes, sem experiência militar — às duras condições do front, do frio rigoroso dos Apeninos às armadilhas deixadas pelos alemães.
O “jeitinho brasileiro” também se manifestou, como no uso criativo de latas de goiabada para treinar a detecção de minas terrestres.

A FEB era, apesar de tudo, um espelho da sociedade brasileira, com suas “fileiras quase democráticas”. O autor menciona a surpresa dos americanos ao verem a integração racial nas tropas brasileiras, contrastando com a segregação ainda vigente nos exércitos Aliados.

No Coração do Conflito: As Ações da FEB na Itália

A narrativa ganha intensidade ao descrever as batalhas da FEB no teatro italiano — especialmente as de Monte Castello e Montese.
Barone humaniza a guerra ao relatar histórias como as do sargento Medrado, que sobreviveu a múltiplos ferimentos, e do sargento Max Wolff Filho, herói que tombou em combate.

A rendição de uma divisão alemã inteira em Fornovo di Taro, cercada pelos “caboclos” brasileiros, é apresentada como um feito inédito e surpreendente.

Barone também destaca a atuação da Força Aérea Brasileira (FAB), com o lendário 1º Grupo de Aviação de Caça — “Senta a Pua!”.
Histórias como a do tenente Danilo Marques Moura, abatido e depois retornando heroicamente à base, demonstram a tenacidade dos aviadores.

Veja também: Luís Joaquim dos Santos Marrocos: O Guardião da Memória Real e Cronista da Corte Portuguesa no Brasil.

Para conhecer o legado do “Senta a Pua!”, visite o Museu da Força Aérea Brasileira e explore os registros da aviação de caça na Segunda Guerra.

Os Bastidores e as Consequências da Guerra

O autor vai além dos combates: analisa os bastidores da política externa, a influência dos EUA com a “política da boa vizinhança”, e o “front interno” — incluindo o drama dos “soldados da borracha” na Amazônia.

Barone também aborda a xenofobia e a perseguição a imigrantes alemães, italianos e japoneses, e destaca figuras como o embaixador Souza Dantas, o “Schindler brasileiro”, que salvou judeus do Holocausto.

O pós-guerra surge com uma melancólica reflexão sobre o “triunfo ao silêncio”.
Os ex-combatentes, antes celebrados, foram rapidamente esquecidos pelo governo.
O autor lembra a proibição do uso de uniformes e medalhas — símbolo de um país que tentava silenciar seus heróis.

Uma Contribuição Essencial à História Brasileira

"1942: O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida" é mais que um relato histórico: é uma reflexão sobre identidade, memória e reconhecimento nacional.

Com linguagem acessível e envolvente, João Barone mistura o rigor da pesquisa com a vivacidade das histórias pessoais, construindo uma narrativa rica e emocionante.

Ele recorre a fontes variadas — documentos oficiais, relatos de veteranos e crônicas de correspondentes como Rubem Braga e Joel Silveira — para preencher lacunas e corrigir injustiças da memória histórica.

Conclusão: Um Livro Para Refletir e Valorizar Nossa História

Para Joabson João, contador autônomo e estudante de Negócios Imobiliários com interesse em marketing digital e programação, esta obra oferece mais do que história:
é uma lição sobre resiliência, estratégia e valorização da própria trajetória.

Mesmo em tempos de guerra, o “jeitinho brasileiro” e a capacidade de adaptação podem operar milagres.


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Se você se interessou por essa história fascinante da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, não hesite!

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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

A Origem do Nome Amazonas: Da Mitologia Grega à Maior Bacia Hidrográfica do Mundo

O nome "Amazonas", que hoje designa o maior estado do Brasil e a mais vasta bacia hidrográfica do planeta, carrega uma história fascinante que transcende a geografia sul-americana. Sua origem não provém de nenhuma das línguas indígenas da região, mas sim do imaginário europeu do século XVI, profundamente enraizado na mitologia clássica da Grécia Antiga. Trata-se de uma narrativa de exploração, confronto cultural e da projeção de lendas sobre uma realidade recém-descoberta.

As Guerreiras Míticas da Antiguidade

Para compreender a escolha do nome, é preciso retornar à mitologia grega. As Amazonas eram um povo mítico constituído exclusivamente por mulheres guerreiras. Segundo as lendas, elas habitavam a região da Cítia, nas fronteiras do mundo conhecido pelos gregos. Exímias cavaleiras e arqueiras, viviam em uma sociedade autônoma, onde os homens eram subjugados ou ausentes. Figuras como a rainha Hipólita, cujo cinturão foi objeto de um dos doze trabalhos de Hércules, e Pentesileia, que lutou na Guerra de Troia, imortalizaram a imagem dessas mulheres como símbolos de força, independência e ferocidade em batalha.

A Expedição de Francisco de Orellana e o Relato de Carvajal

O elo entre o mito grego e a América do Sul foi forjado em 1541. O explorador espanhol Francisco de Orellana participava de uma expedição liderada por Gonzalo Pizarro em busca de "El Dorado", a lendária cidade do ouro. Separado do grupo principal, Orellana e seus homens iniciaram uma jornada épica, navegando por um rio colossal e desconhecido que fluía em direção ao Atlântico.

O registro dessa viagem foi meticulosamente documentado pelo frade dominicano Gaspar de Carvajal, o cronista da expedição. Em um trecho de seu relato, datado de 24 de junho de 1542, Carvajal descreve um violento confronto com um povo indígena. Para a surpresa dos espanhóis, mulheres lutavam ao lado dos homens com notável destreza e bravura.

Escreveu Carvajal:

"[...] estas mulheres são muito alvas e altas, e têm o cabelo muito comprido e entrançado e enrolado na cabeça; são muito membrudas e andam nuas em pelo, tapadas suas vergonhas, com seus arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra como dez índios [...]".

Impressionado pela visão dessas combatentes, que evocavam as guerreiras da antiguidade, Orellana batizou o curso d'água de "Rio das Amazonas".

A Consolidação de um Nome

A narrativa de Carvajal, embora questionada por alguns historiadores — que sugerem que os "guerreiros" poderiam ser homens de cabelos longos ou que o relato foi um embelezamento para engrandecer a expedição —, foi decisiva. O nome "Amazonas" pegou. Mapas europeus começaram a designar o imenso rio com essa denominação, que gradualmente se estendeu para toda a bacia fluvial e a vasta floresta ao seu redor.

Com o tempo, a designação passou de um referencial geográfico para um topônimo político e administrativo. Durante o período do Brasil Império, foi criada a Província do Amazonas, desmembrada da Província do Grão-Pará. Com a Proclamação da República, em 1889, a província foi elevada à categoria de estado, consolidando definitivamente o nome que hoje conhecemos.

Assim, o nome Amazonas é um poderoso testemunho da era das grandes navegações: um período em que exploradores europeus, ao se depararem com um "Novo Mundo", interpretaram-no e nomearam-no através das lentes de sua própria cultura e de suas lendas mais antigas.

 

Referências Bibliográficas 

CARVAJAL, Gaspar de. Relato do novo descobrimento do famoso Rio Grande. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

HEMMING, John. Ouro Vermelho: a conquista dos índios brasileiros. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2007.

KURY, Lorelai. O rio das amazonas na descrição de Carvajal. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 18, n. 4, p. 1113-1131, out./dez. 2011.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Luís Joaquim dos Santos Marrocos: O Guardião da Memória Real e Cronista da Corte Portuguesa no Brasil

Luís Joaquim dos Santos Marrocos emerge como uma figura central e, por vezes, subestimada na história do Brasil e de Portugal no início do século XIX. Sua atuação como secretário particular de Dom João VI e, mais notavelmente, como bibliotecário da Real Biblioteca, foi crucial para a preservação e difusão do conhecimento em um período de profundas transformações, legando um acervo inestimável e um registro detalhado do cotidiano da corte no Rio de Janeiro.

Nascido em Portugal, Marrocos acompanhou a família real portuguesa em sua fuga para o Brasil em 1808, um evento que marcou o início de uma nova fase para a colônia e para a cultura brasileira. Chegando ao Rio de Janeiro, ele assumiu funções de grande responsabilidade e proximidade com o regente, e posteriormente rei, Dom João VI. Essa posição estratégica não só lhe garantiu acesso privilegiado aos bastidores do poder, mas também o colocou no epicentro da organização de uma das mais importantes instituições culturais da época: a Real Biblioteca.

A Real Biblioteca, transferida de Lisboa para o Rio de Janeiro, representava o tesouro intelectual do reino. A tarefa de reorganizar e expandir esse vasto acervo em solo brasileiro era monumental. Marrocos, com dedicação e esmero, desempenhou um papel fundamental nesse processo. Sob sua supervisão, a biblioteca não apenas foi instalada, mas também categorizada, catalogada e aberta a estudiosos e interessados, transformando-se rapidamente no maior acervo da América. Esse feito não foi meramente um ato de administração; foi a criação de um centro de saber que irradiou influência intelectual e cultural, contribuindo para o desenvolvimento de uma identidade acadêmica e científica no Brasil colonial.

Além de sua perspicácia administrativa e bibliotecária, Marrocos se destaca por seus escritos pessoais. Suas cartas, particularmente as enviadas a seu pai em Portugal, são consideradas uma das mais ricas fontes primárias para a compreensão do Brasil joanino. Nesses documentos, ele descreve com vivacidade e um olhar aguçado o dia a dia da corte, as intrigas políticas, os costumes sociais, as dificuldades e peculiaridades da vida na então capital do vice-reino, e as impressões sobre a terra e seu povo. Longe de serem meros relatos factuais, esses escritos revelam a sensibilidade e a visão crítica de um observador atento, oferecendo uma perspectiva íntima e, por vezes, irônica dos eventos que moldaram a história. Para historiadores e pesquisadores, as "Cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos" são um portal direto para a mentalidade e o ambiente de uma época crucial.

O legado de Luís Joaquim dos Santos Marrocos é multifacetado. Ele foi o zelador de um patrimônio bibliográfico que se tornaria a base da atual Biblioteca Nacional do Brasil, um pilar da cultura nacional. Ao mesmo tempo, ele foi um cronista involuntário, cujos registros pessoais oferecem um contraponto humano e detalhado aos documentos oficiais da época. Sua vida e obra são um testemunho da importância dos indivíduos na construção das instituições e na preservação da memória histórica, consolidando seu lugar como um dos grandes contribuintes para a cultura e o conhecimento no Brasil.

Referências Bibliográficas

MARROCOS, L. J. dos S. Cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos (1811-1821). Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 56, p. [indicar p.i-p.f.], 1939.

SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SILVA, A. R. C. da. As cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos: fontes para a história da família e do cotidiano no Rio de Janeiro Joanino. Topoi (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 9, n. 16, p. 138-158, jan./jun. 2008.

SOUZA, I. A Real Biblioteca e a gênese da Biblioteca Nacional do Brasil. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 19, n. 1, p. 74-88, jan./mar. 2014.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Resenha: "1565 – Enquanto o Brasil Nascia" – Uma História Multifacetada do Rio de Janeiro e do Brasil Colonial

A obra "1565 – Enquanto o Brasil Nascia", de Pedro Doria, transcende a simples narrativa histórica para oferecer um profundo e instigante "exercício de imaginação", conforme o próprio autor descreve. O livro mergulha nas complexas origens do Rio de Janeiro, desvendando não apenas os eventos que culminaram na fundação da cidade, mas também as intrincadas teias de interesses, culturas e personalidades que moldaram o sul do Brasil nos seus dois primeiros séculos de colonização. Pedro Doria, com sua perspicácia jornalística e um olhar atento para os detalhes, reconstrói um período muitas vezes esquecido ou simplificado, conferindo vivacidade a personagens e lugares que definiram a identidade carioca e, por extensão, a brasileira.

O ponto de partida da narrativa é o ano de 1565, marco da fundação do Rio de Janeiro por Estácio de Sá, mas a história se desenrola a partir de um contexto muito mais amplo, que remonta aos primeiros anos do século XVI. Doria habilmente situa o Brasil no tabuleiro geopolítico da Europa e da África da época, explicando por que a terra descoberta por Cabral não era, inicialmente, uma prioridade para Portugal, mais focado nas lucrativas especiarias das Índias. Essa desatenção inicial, paradoxalmente, abriu portas para outros atores, como os franceses, que viram na Guanabara uma oportunidade estratégica e comercial, desencadeando conflitos que seriam decisivos para o futuro da região.

Um dos pilares da obra é a análise da França Antártica, a tentativa francesa de estabelecer uma colônia na Baía de Guanabara sob a liderança de Nicolas Durand de Villegagnon. Doria apresenta Villegagnon como uma figura quixotesca – um homem medieval preso em tempos de Renascença, cuja rigidez e intransigência religiosa, em meio a um cenário de efervescência cultural e conflitos entre católicos e calvinistas, foram cruciais para o fracasso de seu empreendimento. O livro detalha a chegada dos franceses, a construção do Forte Coligny, e os embates internos e externos, incluindo as relações complexas com os tupinambás e a chegada dos calvinistas que buscavam refúgio religioso. A descrição da vida na colônia francesa, com suas privações e conflitos entre europeus e nativos, bem como as tensões religiosas, é particularmente rica e ilustrativa.

Capítulo 2 | Uma fé, uma lei, um rei

“Villegagnon, um homem barbado, nem alto, nem baixo, culto, vaidoso – levou para o Brasil roupas coloridas, uma cor para cada dia da semana – era rígido. Não aceitava mudanças. Conservador.”

A contrapartida portuguesa a essa presença francesa é outro eixo central. Pedro Doria destaca a saga da família Sá, especialmente Mem de Sá, o governador-geral, e seu sobrinho Estácio de Sá, como os grandes artífices da colonização do sul. A obra explora a complexa relação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, revelando que "o Rio, o leitor lerá mais de uma vez nas próximas páginas, nasceu para que São Paulo sobrevivesse." Essa interdependência, permeada por desconfiança mútua e, ao mesmo tempo, por uma irmandade forjada em lutas, é um dos pontos mais interessantes. Os paulistas, com sua vocação bandeirante e uma identidade cultural já distinta, desempenharam um papel fundamental na expulsão dos franceses e na fundação do Rio, consolidando uma herança de "independência anárquica da Coroa" que marcaria ambas as cidades.

A figura dos jesuítas, em particular a de Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, emerge como um elemento catalisador da história. Doria os retrata não apenas como missionários religiosos, mas como hábeis políticos e estrategistas, que, apesar de suas contradições (como a visão de Anchieta de que "a espada e a vara de ferro eram a melhor pregação" para os tupis), foram cruciais para a defesa e a organização da presença portuguesa. Sua mediação com os povos indígenas, como a "Paz de Iperoígue" com os tamoios, é detalhada, mostrando a dificuldade e a brutalidade das guerras indígenas, onde alianças eram fluidas e a própria identidade dos colonizadores se mesclava com a dos nativos.

Capítulo 4 | Águas de março

“O cerco a Piratininga mostra como era complexa a cisão entre os tupis. Enquanto Tibiriçá lutava com os seus ao lado dos portugueses, do outro lado, atacando junto com a turma de Aimberê, estavam Araraig e Jagoanharo, seu irmão e seu sobrinho.”

O livro desmistifica a ideia de uma colonização europeia uníssona, destacando a presença de diversos povos – irlandeses, alemães, italianos – e a complexidade das relações entre portugueses, espanhóis e os próprios nativos. A mestiçagem, não apenas biológica, mas cultural e linguística (com o tupi sendo a língua corrente em muitas casas), é apresentada como um traço fundamental do brasileiro do Sul.

Com o avanço da narrativa, o autor explora a evolução econômica do Brasil colonial. Inicialmente, a exploração do pau-brasil, depois a ascensão da cultura da cana-de-açúcar, que transformou a economia e a paisagem do Nordeste, e, por fim, o papel do Rio de Janeiro como um entreposto crucial no tráfico de escravos africanos para as minas de Potosí, na América espanhola. Doria ilustra como essa "linha de tráfico", lucrativa mas brutal, impulsionou o crescimento do Rio, mesmo que pouco da riqueza gerada fosse reinvestida na cidade. A descrição do sistema de engenhos, dos maus-tratos aos escravos e da exploração econômica revela a dureza da vida colonial.

Capítulo 5 | Com açúcar, com afeto

“A cidade seria inviável economicamente sem os índios.”

A ascensão de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, neto do velho Salvador, é outro ponto de virada. Doria o descreve como um "general europeu" com a alma de um bandeirante, cuja visão geopolítica e ambição o levaram a desempenhar um papel crucial na reconquista de Angola dos holandeses. Essa vitória não só garantiu o fornecimento de escravos, vital para a economia do império, mas também reposicionou o Rio de Janeiro no centro das atenções de Lisboa. No entanto, sua arrogância e os desmandos na administração geraram a "Bernarda", uma revolta popular que, embora efêmera, expôs as tensões entre a elite governante e a população, além das complexas relações entre a Coroa, os jesuítas e os cidadãos.

Capítulo 6 | Por Sá Ganhada

“A Holanda passaria, então, a ser a principal ameaça à América de portugueses e espanhóis. E essa mudança terminaria por tirar o Rio da periferia para lançá-lo no centro da geopolítica mundial.”

Um aspecto particularmente tocante da obra é a maneira como Doria aborda a "amnésia histórica" do Rio de Janeiro. Ao contrastar a falta de marcos e a desmemória carioca com a reverência de outras cidades (como São Paulo, Boston ou Barcelona) por seu passado, ele sublinha a importância de entender as origens da cidade para compreender seus problemas e sua identidade. O autor, que se descreve como um "carioca que gosta (muito) de São Paulo", busca preencher essa lacuna, trazendo à luz as "muitas histórias, lugares e personagens que se encontram" para formar o que o Rio é hoje. A busca pelo "muro do Martim" ou as fundações da "Casa de Pedra" no Flamengo são metáforas poderosas para a redescoberta de um passado enterrado.

A escrita de Pedro Doria é acessível e envolvente, característica de sua formação jornalística. Ele se atém aos fatos, mas os apresenta de uma forma que cativa o leitor, com descrições vívidas e diálogos que, quando presentes, são baseados em registros históricos. O livro não se propõe a ser uma tese acadêmica, mas sim uma crônica bem contada, que convida o leitor a um passeio por um passado distante, mas profundamente relevante. A inclusão de notas detalhadas e referências bibliográficas demonstra o rigor da pesquisa, enquanto o estilo mantém a fluidez e o prazer da leitura.

"1565 – Enquanto o Brasil Nascia" é uma obra essencial para quem busca uma compreensão mais profunda da história do Rio de Janeiro e do Brasil colonial. Ao humanizar seus personagens, contextualizar os eventos e desafiar narrativas simplistas, Pedro Doria oferece uma perspectiva rica e multifacetada sobre a formação de uma das cidades mais emblemáticas do mundo e as raízes da própria nação brasileira. É um convite à reflexão sobre como o passado, com suas contradições e grandezas, continua a ressoar no presente e a moldar o futuro.

 

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terça-feira, 23 de setembro de 2025

José Saturnino da Costa Pereira: O Engenheiro Militar que Moldou o Rio de Janeiro Imperial

No complexo tabuleiro de xadrez que foi a formação do Império do Brasil, algumas figuras foram peças-chave, atuando em múltiplas frentes para consolidar a nova nação. José Saturnino da Costa Pereira (1771-1852) é um desses nomes essenciais. Embora por vezes ofuscado por figuras políticas mais proeminentes, seu legado como militar, engenheiro e político está gravado na infraestrutura e nas instituições do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Sua visão técnica e capacidade de gestão foram fundamentais para transformar a capital colonial na sede de um império.

Primeiros Anos e a Formação de um Intelectual Militar

Nascido em Colônia do Sacramento, uma região de constante disputa entre Portugal e Espanha, José Saturnino teve desde cedo o contato com a vida militar e a engenharia de fortificações. Formou-se em matemática e engenharia na Universidade de Coimbra, um dos centros de excelência da Europa na época, onde absorveu os conhecimentos mais avançados em ciências exatas e estratégias de defesa.

Essa formação robusta o qualificou não apenas como um oficial, mas como um intelectual capaz de planejar e executar projetos de grande complexidade, uma habilidade que se mostraria crucial para o recém-independente Brasil.

A Atuação como Engenheiro do Império

Com a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 e a posterior Independência, a cidade precisava urgentemente de melhorias em sua infraestrutura. José Saturnino da Costa Pereira foi um dos principais responsáveis por essa modernização. Sua atuação se destacou em duas áreas principais:

  1. Obras Públicas: Ele esteve envolvido no planejamento e supervisão de estradas, pontes e edifícios públicos. Seu trabalho visava não apenas a funcionalidade, mas também a demonstração da força e da organização do novo Império. A infraestrutura que ele ajudou a criar foi a base sobre a qual o Rio de Janeiro cresceu como capital.
  2. Fortificações: Em um período de consolidação territorial e potenciais ameaças externas e internas, a defesa da capital era uma prioridade absoluta. José Saturnino aplicou seu conhecimento em engenharia militar para projetar, construir e reformar as fortalezas que guardavam a Baía de Guanabara e os arredores da cidade. Seu trabalho garantiu a segurança estratégica do coração do Império.

Contribuições à Academia Real Militar

Além de suas contribuições no campo, José Saturnino teve um papel institucional decisivo. Foi um dos primeiros diretores da Academia Real Militar, criada em 1810 por Dom João VI e precursora do atual Instituto Militar de Engenharia (IME) e da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).

Como diretor, ele não apenas administrou a instituição, mas ajudou a moldar seu currículo, enfatizando a importância de uma base sólida em matemática, física e desenho técnico. Sua gestão foi fundamental para formar as primeiras gerações de engenheiros militares brasileiros, profissionais que seriam vitais para o desenvolvimento e a defesa do país ao longo do século XIX.

Carreira Política e Legado

A competência técnica de José Saturnino o levou a ocupar cargos de alta relevância política. Foi Ministro da Guerra, Ministro do Império e Senador, demonstrando uma versatilidade rara. Sua passagem pela política foi marcada pela mesma lógica e pragmatismo que aplicava em seus projetos de engenharia.

O legado de José Saturnino da Costa Pereira é o de um construtor de nações. Ele foi um homem cuja inteligência e trabalho árduo ajudaram a erguer as bases físicas e institucionais do Brasil. Ao caminhar pelo Rio de Janeiro e ao reconhecer a excelência das Forças Armadas brasileiras, estamos, de muitas formas, testemunhando a duradoura herança de sua obra.

Referências

BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1895. v. 5.

CASTRO, Celso. A Invenção do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

PEREIRA, José Saturnino da Costa. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV CPDOC. Disponível em: https://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/jose-saturnino-da-costa-pereira. Acesso em: 22 set. 2025.

VAINFAS, Ronaldo (dir.). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.