Radio Evangélica

Mostrando postagens com marcador Iluminismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Iluminismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de novembro de 2025

José Bonifácio de Andrada e Silva: O Arquiteto e a Consciência Crítica do Império

Poucos personagens na história brasileira condensam com tanta força a tensão entre razão e poder quanto José Bonifácio de Andrada e Silva, o célebre Patriarca da Independência. Mais do que um ministro ou conselheiro, ele foi o arquiteto intelectual e moral da fundação do Brasil como Estado-nação, moldando a estrutura política e ideológica que sustentaria o Império.

Um Cientista no Caminho da Política

Nascido em Santos, em 1763, José Bonifácio rompeu o padrão de sua época. Antes de ingressar na vida política, foi um cientista respeitado na Europa, com formação em Filosofia Natural e Direito pela Universidade de Coimbra. Sua trajetória científica o levou a ser reconhecido como um dos grandes mineralogistas do século XVIII, tendo descoberto minerais como a petalita, precursora da descoberta do lítio.

Essa imersão em ideias iluministas europeias foi determinante. Bonifácio absorveu os valores do racionalismo científico, do progresso moral e da centralização estatal — princípios que norteariam sua visão de Brasil independente: um país unido, moderno e civilizado, capaz de romper com o atraso colonial sem cair na fragmentação regional.

🔗 Leitura complementar: A Era Vargas e a Construção do Sistema Trabalhista Brasileiro (1930–1945) — uma reflexão sobre outro período de centralização e modernização política.

O Patriarca no Governo: Centralização e Modernização

Ao retornar ao Brasil, Bonifácio foi nomeado Ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros por Dom Pedro I, tornando-se o homem mais influente do governo. Seu projeto era claro: consolidar uma monarquia constitucional forte e centralizada. Ele acreditava que apenas um governo coeso evitaria que o Brasil se dividisse, como acontecia com os antigos domínios espanhóis.

Sob sua orientação, o governo brasileiro implementou medidas que organizaram a administração pública, reformaram as finanças e garantiram o reconhecimento internacional da independência. Bonifácio foi o cérebro político que sustentou o jovem império em meio ao caos da ruptura com Portugal.

Conflito com Dom Pedro I e a Queda dos Andradas

Apesar de ser o principal conselheiro do imperador, a relação entre Bonifácio e Dom Pedro I deteriorou-se rapidamente. O estadista, quarenta anos mais velho, via o monarca como um pupilo a ser guiado, enquanto Dom Pedro buscava afirmar sua própria autoridade. Essa tensão pessoal refletia um embate político maior: o autoritarismo centralizador de Bonifácio versus o liberalismo provincial de figuras como Joaquim Gonçalves Ledo.

O conflito atingiu seu ápice em 1823, quando os irmãos Andrada criticaram duramente os rumos da Assembleia Constituinte. A resposta imperial foi dura: dissolução da Assembleia, prisão e exílio dos Andradas para a França. Foi o fim de sua participação direta no governo, mas não de sua influência na história.

O Tutor do Futuro Imperador

Ironia e grandeza se misturariam em 1831, quando Dom Pedro I abdicou do trono e nomeou seu antigo rival como tutor de Dom Pedro II, então com apenas cinco anos. Era o reconhecimento da integridade e do preparo intelectual do “velho Patriarca” para guiar o futuro soberano.

Mesmo afastado da vida pública, José Bonifácio manteve-se fiel ao ideal de um Brasil educado, coeso e progressista, valores que ecoariam na formação de Dom Pedro II e na consolidação do Império. Morreu em Niterói, em 1838, deixando um legado de ciência, política e consciência crítica — o verdadeiro arquiteto moral do Estado brasileiro.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: A Elite Política Imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
DOLHNIKOFF, Miriam. José Bonifácio: O Patriarca da Independência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
PRIORE, Mary del. A Carne e o Sangue: A Imperatriz Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
WEHRS, Carlos Guilherme Mota. Ideologia da Cultura Brasileira: 1933–1974. São Paulo: Ática, 1977.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Hipólito da Costa: A Voz Iluminista que Moldou a Consciência Brasileira de Longe

A chegada da Corte Portuguesa ao Brasil em 1808 marcou o início de um período de transformações profundas, não apenas na administração e na economia, mas também no campo das ideias. Longe dos palácios e das intrigas do Rio de Janeiro, um brasileiro exilado em Londres desempenhava um papel crucial nessa efervescência intelectual: Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, mais conhecido como Hipólito da Costa. Através das páginas do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro, ele se tornou um arauto das ideias iluministas, um crítico construtivo do governo joanino e um dos artífices da consciência política nacional.

O Pioneiro da Imprensa Brasileira: O Correio Braziliense

Entre 1808 e 1822, Hipólito da Costa publicou o Correio Braziliense em Londres, um periódico que desafiava as restrições à imprensa vigentes no Brasil Colônia e, posteriormente, no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Embora editado à distância, o jornal tinha como público-alvo principal a elite letrada brasileira e portuguesa, circulando clandestinamente e moldando opiniões.

Hipólito, com sua visão privilegiada da Europa em plena efervescência napoleônica e iluminista, oferecia aos seus leitores análises profundas sobre a política internacional, a economia global e os avanços científicos e sociais. Mais do que informar, o Correio Braziliense buscava educar e incitar a reflexão, plantando as sementes de um pensamento crítico e moderno.

A Voz Iluminista de Londres: Crítica e Propostas para o Brasil

Em suas edições, Hipólito da Costa difundiu ardentemente os princípios do Iluminismo: a razão, a liberdade de expressão, a meritocracia e a busca pelo bem comum. Ele acreditava que o Brasil possuía um potencial imenso, mas que este estava tolhido por um sistema colonial arcaico e por uma administração muitas vezes ineficiente.

Não se tratava de uma crítica meramente destrutiva. Hipólito apresentava soluções e propostas concretas para o desenvolvimento do Brasil. Ele defendia a modernização da agricultura, a diversificação da economia para além da monocultura, a abertura de mercados e a melhoria da educação. Via a criação de instituições científicas e culturais como pilares para o progresso da na nação.

Formando a Consciência Política à Distância

Apesar da distância geográfica, o Correio Braziliense exerceu uma influência notável sobre a elite brasileira e sobre o próprio governo joanino. Suas análises sobre a administração de Dom João VI, embora por vezes críticas, eram fundamentadas e buscavam o aprimoramento. Ele debatia temas cruciais como a administração da justiça, as finanças públicas e a relação entre a metrópole e a colônia.

Ao dar voz a essas discussões e ao apresentar modelos de governança e desenvolvimento europeus, Hipólito da Costa contribuiu significativamente para a formação de uma consciência política autônoma no Brasil. Ele ajudou a forjar uma identidade nacional que, aos poucos, se desvinculava de Portugal, preparando o terreno intelectual para os movimentos de Independência que culminariam em 1822, curiosamente, no mesmo ano em que o Correio Braziliense encerrou suas publicações.

Legado de um Intelectual Visionário

O papel de Hipólito da Costa na história brasileira é inegável. Como jornalista, diplomatista e intelectual, ele soube usar o poder da palavra para influenciar o destino de uma nação em formação. Sua atuação à distância não diminuiu seu impacto; pelo contrário, permitiu-lhe uma perspectiva mais ampla e uma liberdade de expressão que dificilmente encontraria no Brasil da época. Hipólito da Costa é, portanto, uma figura central para entender não só a imprensa brasileira, mas também a gestação das ideias que pavimentaram o caminho para a Independência e para a construção do Brasil moderno.

Referências Bibliográficas

  • COSTA, Hipólito da. Correio Braziliense ou Armazém Literário. Reprodução fac-similar. Brasília: Senado Federal, 2007. (Coleção Clássicos da Democracia).
  • SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.
  • RICUPERO, Bernardo. O Iluminismo no Brasil: Hipólito da Costa e o Correio Braziliense. São Paulo: Hucitec, 2000.
  • BARRETO, Luís. Hipólito da Costa: um brasileiro em Londres. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Resenha Crítica: Revolução Francesa e Iluminismo, de Jorge Grespan

Na obra Revolução Francesa e Iluminismo, o historiador e filósofo Jorge Grespan oferece ao leitor uma análise densa e intelectualmente estimulante sobre a relação entre duas das maiores forças transformadoras da modernidade: o movimento filosófico do Iluminismo e o processo histórico e social da Revolução Francesa. Lançado pela editora Unesp, o livro integra a coleção “História Geral”, que busca sintetizar, com rigor acadêmico e clareza expositiva, grandes temas da história mundial.

Iluminismo: matriz intelectual da Revolução

Grespan inicia sua análise contextualizando o Iluminismo como um fenômeno intelectual europeu dos séculos XVII e XVIII, nascido em meio à crítica à tradição, à autoridade religiosa e à monarquia absolutista. O autor destaca como pensadores como Locke, Montesquieu, Rousseau, Voltaire e Diderot, entre outros, foram fundamentais na formulação de ideias que viriam a influenciar diretamente os revolucionários franceses. Princípios como razão, liberdade, igualdade, tolerância e soberania popular, antes restritos ao campo teórico, tornaram-se slogans políticos e bases programáticas da Revolução.

A Revolução Francesa como expressão política das luzes

No cerne do livro, Grespan articula uma leitura em que a Revolução Francesa aparece não apenas como um levante popular ou uma reconfiguração de poderes, mas como uma tentativa concreta de implementar os ideais iluministas no plano institucional. O autor mostra como o Iluminismo, ainda que plural e contraditório, forneceu o repertório simbólico e ideológico para justificar a abolição da monarquia, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a redefinição da cidadania e a reorganização da sociedade civil com base em princípios racionais e igualitários.

Contradições, radicalização e legado

Um dos pontos altos do livro é sua abordagem crítica das tensões internas da Revolução. Grespan não se furta a analisar o paradoxo entre os ideais de liberdade e os métodos autoritários adotados durante o período do Terror jacobino. O autor também evidencia os limites do projeto iluminista, especialmente em relação à questão da escravidão, do papel das mulheres e da permanência de desigualdades econômicas. Ao invés de romantizar o processo revolucionário, Grespan propõe uma leitura dialética, que compreende a Revolução como uma ruptura histórica, mas também como um processo cheio de ambivalências.

Linguagem, público-alvo e relevância

A linguagem do livro é clara, didática e bem estruturada, o que torna a obra acessível tanto para estudantes do ensino médio e superior quanto para o público geral interessado em história, filosofia e ciências sociais. Ao mesmo tempo, a argumentação é embasada e rigorosa, com referências a uma ampla tradição historiográfica que vai de Alexis de Tocqueville a François Furet, passando por marxistas como Albert Soboul.

Uma leitura necessária para compreender a modernidade

Revolução Francesa e Iluminismo é, acima de tudo, um convite à reflexão sobre os fundamentos do mundo moderno: a política como construção racional, os direitos como conquista histórica e a liberdade como ideal sempre inacabado. Em tempos de crise das democracias e revisionismos históricos, a obra de Grespan se apresenta como um antídoto contra o obscurantismo e uma defesa contundente da razão crítica.

Quer se aprofundar nesse tema essencial para a compreensão do mundo moderno?
Adquira agora o livro "Revolução Francesa e Iluminismo" de Jorge Grespan!
Compre pela Amazon clicando aqui

terça-feira, 6 de maio de 2025

José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu: Economia, Política e Pensamento Ilustrado no Brasil Imperial

José Rosael/Hélio Nobre/Museu Paulista da USP
Este artigo analisa a atuação intelectual, econômica e política de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu (1756–1835), destacando sua importância no processo de modernização institucional e econômica do Brasil no período da Independência. Influenciado pelo Iluminismo europeu e pelas ideias de Adam Smith, Cairu foi um defensor da liberdade de comércio e da centralização política sob a monarquia constitucional. Através de sua obra e atuação parlamentar, contribuiu decisivamente para a construção do Estado brasileiro moderno.

Introdução

José da Silva Lisboa nasceu em Salvador, Bahia, em 1756, e formou-se em Direito Canônico e Filosofia em Coimbra. Foi jurista, economista, jornalista e político, destacando-se como introdutor das ideias iluministas e liberais no Brasil. Recebeu o título de Visconde de Cairu em 1826. Sua obra combina a defesa do livre comércio com a preservação da ordem monárquica, representando um dos pilares do pensamento conservador liberal no Brasil do século XIX.

Pensamento Econômico

A principal contribuição de Cairu no campo econômico foi a introdução e difusão das ideias de Adam Smith, particularmente aquelas contidas em A Riqueza das Nações. Sua obra Princípios de Economia Política (1804) é o primeiro tratado sistemático de economia política publicado em língua portuguesa.

Cairu defendeu a abertura dos portos brasileiros às nações amigas (1808), ato essencial para romper com o pacto colonial e integrar o Brasil à economia mundial. Sua abordagem conciliava o liberalismo econômico com a manutenção da ordem, refletindo uma visão pragmática de transição institucional.

“Sem liberdade de comércio, não há prosperidade das nações.” — José da Silva Lisboa

Atuação Política e Legislativa

Como deputado da Assembleia Constituinte de 1823 e conselheiro de D. Pedro I, Cairu teve papel de destaque na construção do Estado imperial brasileiro. Ele se opôs às tendências republicanas e defendia uma monarquia constitucional centralizada, baseada na autoridade do imperador.

Cairu também foi membro do Conselho de Estado e senador do Império. Participou ativamente na formulação de leis e políticas que garantissem estabilidade política e integração territorial.

Influências Filosóficas e Ilustradas

O Visconde de Cairu foi fortemente influenciado pelos autores do Iluminismo britânico, especialmente Edmund Burke, David Hume e Jeremy Bentham, além de Adam Smith. Seu pensamento é marcado por uma tentativa de equilibrar razão e tradição, promovendo reformas dentro de um quadro institucional estável.

Ele não advogava uma ruptura radical com o Antigo Regime, mas sim uma adaptação gradual da sociedade brasileira aos princípios do progresso, da liberdade econômica e da ordem política.

Conclusão

A trajetória intelectual e política de José da Silva Lisboa evidencia sua relevância como mediador entre a tradição colonial e a modernidade liberal. Sua obra e ação pública ajudaram a construir as bases econômicas e jurídicas do Brasil independente. Ao conciliar liberalismo com monarquia, Cairu representa um modelo de conservadorismo reformista que marcou profundamente o século XIX brasileiro.

Referências Bibliográficas

  • Faria Júnior, Carlos de. O pensamento econômico de José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo (USP), 2008. Disponível aqui
  • Stinguel, Marcela Portela. Influências clássicas no pensamento do Visconde de Cairu. XII Congresso Brasileiro de História Econômica, ABPHE, 2017. Acesso ao artigo
  • Paim, Antônio. Cairu e o liberalismo econômico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1968. Texto completo
  • Oliveira, Lúcio Flávio. A atuação de José da Silva Lisboa como deputado na Assembleia Constituinte de 1823. Revista Almanack, 2017. Artigo na Scielo