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Uma Guerra sem Tanques, mas com Muitas Baixas
A maior "guerra" da segunda metade da década de
1970 não foi um conflito entre superpotências. A Guerra do Vietnã havia
terminado em 1975, e EUA, URSS e China entravam em um período de coexistência
relativamente pacífica — ainda que fria. As verdadeiras rivais eram duas
gigantes japonesas do setor eletrônico: Sony e Matsushita (atual
Panasonic), controladora da JVC. O campo de batalha: o lucrativíssimo mercado
doméstico de videocassetes.
A gravação de vídeo em si não era novidade. A Ampex já havia
desenvolvido gravadores de vídeo em fita de rolo na década de 1950, e em 1970 a
holandesa Philips lançou seu formato de videocassete N1500, na esperança de
repetir o sucesso que tivera em 1963 com os cassetes de áudio compactos. O
sucesso, porém, não se repetiu. Em meados dos anos 1970, os fabricantes
japoneses já dominavam a indústria eletrônica global, e consumidores e
analistas preferiam esperar para ver qual formato nipônico se tornaria o padrão
mundial.
"A guerra de formatos entre a Betamax e o VHS
transformou-se num conflito pela dominação total do mercado [...]. A indústria
das mídias já havia visto competições parecidas antes, como no caso do cilindro
de cera de Edison versus o disco de Berliner no início do século, e mais
recentemente entre o disco de 45 rotações e o LP [...]. Os formatos de vídeo,
por outro lado, tinham sérios problemas em coexistir."
Após não conseguir chegar a um acordo sobre um padrão
japonês unificado, a Sony lançou o Betamax em 1975, na esperança de conquistar
uma liderança imbatível diante da rival JVC. Esta, por sua vez, lançou o VHS
(Video Home System) em 1976 na Ásia e na Europa, chegando aos EUA em 1977.
No auge da disputa, as hostilidades chegaram até os
consumidores, que defendiam com fervor sua escolha de videocassete — um dos
primeiros grandes exemplos de "fanatismo tecnológico" de consumo em
massa. Os defensores do Betamax argumentavam que a fita era menor, mais fácil
de armazenar e tinha qualidade sonora e de imagem superior. Já os adeptos do
VHS rebatiam que, enquanto as fitas Betamax duravam apenas 60 minutos, as fitas
VHS ofereciam 120 minutos — depois estendidos para 240 minutos (tempo
suficiente, por coincidência, para gravar um Super Bowl da NFL inteiro). E,
apesar da nitidez levemente inferior, os aparelhos VHS custavam muito menos que
os da Sony.
No fim das contas, maior duração de gravação + preço mais
baixo se mostrou uma combinação imbatível para o consumidor comum — e decidiu a
guerra a favor da JVC.
Conhecendo o HR-3300EK
As teclas do HR-3300EK talvez sejam familiares até para gerações que nunca viram um videocassete: PLAY, STOP, REW, FF, REC, PAUSE e EJECT são autoexplicativas, mas o aparelho também contava com uma tecla exclusiva, AUDIO DUB, dedicada apenas à gravação de som.
As teclas travavam automaticamente — ou seja, se você
estivesse reproduzindo um vídeo, era preciso apertar STOP antes de poder
acionar REW ou FF. Uma fileira de oito botões permitia selecionar o canal a ser
visto ou gravado, e, abaixo deles, três chaves seletoras controlavam modo,
entrada e saída do aparelho. Todas precisavam estar na posição correta para
garantir a gravação, a reprodução de imagens ou a exibição normal da TV — uma
complexidade que, felizmente para os usuários, seria automatizada em modelos
posteriores. No canto inferior esquerdo, ficavam o relógio e o cronômetro
digitais.
Ao pressionar EJECT, o carregador de cassete subia para
permitir a retirada ou inserção da fita. Já ao apertar PLAY, o aparelho puxava
a fita para fora do cassete e a enrolava ao redor do cabeçote giratório, que
girava a 1.800 rpm (padrão NTSC) ou 1.500 rpm (padrão PAL). Esse sistema de
carregamento era conhecido como "carga tipo M", pois a fita era
conduzida pelos pinos-guias e enrolada ao redor de metade do cabeçote, formando
um trajeto visualmente semelhante à letra M.
O Legado da Guerra dos Formatos
A vitória do VHS sobre o Betamax se tornaria um dos casos
mais estudados de economia e marketing — um exemplo clássico de como *padrões
técnicos superiores não garantem sucesso comercial* quando fatores como preço,
duração e estratégias de licenciamento pesam mais na decisão do consumidor. O
caso é frequentemente comparado, décadas depois, à disputa entre Blu-ray e HD
DVD, ou até entre plataformas de streaming atuais.
Referências Bibliográficas
CHALINE, Erich. 50 Máquinas que Mudaram o Rumo da História.
Tradução de Fabiano Moraes. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
CUSUMANO, Michael A.; MYLONADIS, Yiorgos; ROSENBLOOM,
Richard S. "Strategic Maneuvering and Mass-Market Dynamics: The Triumph of
VHS over Beta". Business History Review, vol. 66, n. 1, 1992.
LARDNER, James. Fast Forward: Hollywood, the Japanese, and
the Onslaught of the VCR*. Nova York: W.W. Norton & Company, 1987.
Sony History Archives. "Development Story of the
Betamax". Sony Corporation Official History Site.
JVC Global Corporate History. "The Birth of VHS".
JVCKenwood Corporate Archives.
