Radio Evangélica

domingo, 23 de agosto de 2026

Vestas HVK 10: A Turbina Dinamarquesa que Deu Origem à Energia Eólica Moderna

Wikimedia Commons
Em meados da década de 1970, enquanto governos e grandes companhias energéticas apostavam fortunas na fissão nuclear e na corrida por reservas cada vez mais escassas de petróleo, um grupo de entusiastas na zona rural da Dinamarca construía, em galpões de fazenda, a base da indústria eólica moderna: o chamado "Conceito Dinamarquês" (Danish Concept).

No centro dessa história está a Vestas HVK 10, turbina desenvolvida por Henrik Stiesdal e Karl Erik Jørgensen e licenciada pela Vestas em 1979 — o marco que transformou uma fábrica local de eletrodomésticos e guindastes hidráulicos na maior produtora de aerogeradores do mundo.

A crise que plantou a semente

O gatilho para essa revolução foi o primeiro choque do petróleo, em 1973. Na época, mais de 90% da matriz energética dinamarquesa dependia de combustíveis fósseis importados. Com a disparada dos preços, Henrik Stiesdal, então com 16 anos, decidiu agir: como não havia turbinas comerciais para uso doméstico, resolveu construir a sua própria.

Seu primeiro protótipo utilizava apenas duas pás. A intensidade dos testes levou Stiesdal a redesenhar a máquina, adicionando uma terceira pá ao projeto original elaborado com Karl Erik Jørgensen — decisão técnica que viria a se consolidar como o padrão estético e funcional de toda a indústria global.

Da oficina à fábrica: o nascimento da HVK

Jørgensen e Stiesdal fundaram a Herborg Vindkraft (HVK), batizada com o nome da vila onde viviam. O rotor de fibra de vidro de 10 metros de diâmetro foi fabricado pela Økær Vind Energi, empresa fundada em 1977 por Erik Grove-Nielsen. Todos faziam parte da rede de inventores da OVE (Organização para Energias Renováveis).

Paralelamente, a fabricante Vestas tentava desenvolver seus próprios modelos desde 1971 sob a liderança do engenheiro Birger Madsen, mas sem viabilidade comercial. Em busca de capital para escala, Jørgensen e Stiesdal apresentaram seu projeto à empresa. A Vestas validou o conceito tri-pá e comprou a licença de fabricação.

Em 1979, entrava no mercado a primeira turbina comercial oficial da linha: a Vestas HVK 10, com rotor de 10 metros e capacidade nominal de 30 kW.

 

Anatomia e funcionamento do sistema

A HVK 10 era uma turbina de eixo horizontal (HAWT) com três pás de fibra de vidro de 5 metros de raio. Ao contrário das torres tubulares modernas de aço ou concreto, os primeiros modelos operavam sobre postes de treliça metálica, similares a torres de transmissão.

O funcionamento baseava-se em quatro etapas:

  • Captação: O vento movimenta as três pás do rotor, ligadas a um eixo principal de baixa rotação;
  • Multiplicação: O eixo aciona uma caixa de engrenagens (gearbox), elevando a rotação mecânica;
  • Geração: A rotação amplificada alimenta o gerador assíncrono, produzindo eletricidade;
  • Orientação: Um sistema de cata-vento e anemômetro alinha continuamente a nacele na direção do vento.

O avanço nos freios aerodinâmicos

Em 1978, rajadas severas destruíram diversos protótipos na Dinamarca devido ao superaquecimento e falha dos freios a tambor mecânicos. A solução dos engenheiros dinamarqueses foi implementar freios aerodinâmicos nas pontas das pás (mecanismos móveis acionados por força centrífuga). A evolução para pontas integradas controladas reduziu o ruído e se tornou a regra de segurança no setor por décadas.

Por que a Dinamarca liderou essa corrida?

Mais do que a presença de ventos constantes, o diferencial dinamarquês foi um ecossistema descentralizado: oficinas mecânicas ágeis, incentivos governamentais bem calibrados e cooperativas locais dispostas a investir para reduzir gastos com eletricidade. O modelo de três pás a montante com gerador na nacele (Danish Concept) superou os projetos complexos e custosos de multinacionais estrangeiras.

Henrik Stiesdal continuou ativo no setor e, mais tarde, como CTO da Bonus Energy (incorporada pela Siemens Wind Power), liderou o projeto de Vindeby (1991), o primeiro parque eólico offshore do mundo. A história da HVK 10 prova como soluções práticas e bem projetadas em pequena escala conseguem reestruturar a matriz energética de todo o planeta.

Referências Bibliográficas

CHALINE, Erich. 50 máquinas que mudaram o rumo da história. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

EUROPEAN INVESTMENT BANK (EIB). The history of renewable energy hits a modern renaissance. 2024. Disponível em: https://www.eib.org/en/essays/history-renewable-energy.

EUROPEAN PATENT OFFICE (EPO). Henrik Stiesdal — European Inventor Award. Disponível em: https://www.epo.org/en/news-events/european-inventor-award/meet-the-finalists/henrik-stiesdal.

JONES, Geoffrey; BOUAMANE, Loubna. Historical Trajectories and Corporate Competences in Wind Energy. Harvard Business School, 2011.

KROHN, Soren. Danish Wind Turbines: An Industrial Success Story. Copenhague: Danish Wind Turbine Manufacturers Association, 2001.

VESTAS. From 1971-1986 — Company History. Disponível em: https://www.vestas.com/en/about/this-is-vestas/history/from-1971-1986.

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