![]() |
| Creative Commons |
Do mainframe à mesa do quarto
Como muitos estudantes universitários do final dos anos
1970, eu tinha acesso a um computador — embora ele não ficasse no meu
dormitório, nem na biblioteca. Era o mainframe que ocupava uma sala inteira do
departamento de informática, e para usá-lo era preciso agendar horário em um
terminal. Operar aquela máquina não era tarefa simples: era necessário saber
programá-la. Como não existia nenhum aplicativo prático de processamento de
texto ao alcance de todos, ninguém cogitava usá-la apenas para redigir um trabalho.
Para isso, existia a máquina de escrever: elétrica, se você tivesse recursos;
manual e pesada, se fosse como eu. Mas, por incrível que pareça para as
gerações atuais, vivia-se perfeitamente sem discos rígidos de grande
capacidade.
O conceito moderno de computação mecânica remonta à Máquina
Diferencial de Charles Babbage, capaz de resolver funções polinomiais e cujos
conceitos já previam passos essenciais de entrada, processamento e impressão.
Em 1936, o matemático britânico Alan Turing (1912–1954) lançou as bases da
ciência computacional moderna com a formalização da Máquina Universal de
Turing. Durante a Segunda Guerra Mundial, Turing atuou em Bletchley Park na
quebra de códigos do Eixo, período em que britânicos criaram o pioneiro Colossus,
enquanto Alemanha (Z3) e Estados Unidos (ENIAC) desenvolviam grandes colossos
eletrônicos e eletromecânicos compostos por milhares de válvulas e relés.
O transistor, inventado nos Laboratórios Bell em 1947,
substituiu progressivamente as válvulas nos computadores a partir de meados da
década de 1950. A entrada de dados, inicialmente feita por cartões ou fitas
perfuradas, migrou para fitas magnéticas e discos. Ainda que nos anos 1950 e
1960 as máquinas tenham ficado menores e mais rápidas — um IBM 650 pesava cerca
de 900 kg —, o computador pessoal doméstico ainda era um horizonte distante.
Essa realidade começou a mudar com a invenção do microprocessador e o
lançamento do Intel 4004 (de 4 bits), em 1971.
A Santíssima Trindade
Os primeiros computadores pessoais autônomos começaram a ser
comercializados no início dos anos 1970 em pequenos volumes, voltados
principalmente a hobistas e vendidos em kits para montagem, como o Altair 8800.
A era do microcomputador de consumo em massa nasceu efetivamente em 1977 com o
trio de máquinas apelidado de a "Santíssima Trindade": o Commodore
PET, o Apple II e o Tandy RadioShack TRS-80.
O PET encontrou limitações iniciais em seu teclado compacto
estilo calculadora. O Apple II destacou-se pelo design integrado, teclado
QWERTY completo e capacidade de gráficos coloridos — e, embora fosse o mais
caro dos três, tornou-se extremamente longevo e popular. O TRS-80, vendido nas
lojas RadioShack a um preço altamente acessível, combinava teclado e CPU em um
único bloco, tornando a computação acessível ao grande público.
O "Project Chess" e a virada da IBM
Diante da rápida ascensão dos microcomputadores e da entrada
de novas marcas como o Atari 400/800, a IBM — até então líder absoluta no
segmento corporativo e de mainframes — decidiu disputar esse mercado. Batizado
internamente de Project Chess, o desenvolvimento do projeto ocorreu em
Boca Raton, na Flórida, fora dos rígidos e burocráticos trâmites de P&D da
empresa. Uma equipe enxuta liderada por Philip Don Estridge (1937–1985),
contando com engenheiros de destaque como Mark Dean (cofriador do
barramento ISA), atuou em regime de skunkworks (desenvolvimento ágil e
autônomo).
Para viabilizar o lançamento em tempo recorde (cerca de um
ano), a equipe rompeu com a tradição de desenvolver tudo internamente e adotou
componentes comerciais prontos de terceiros (open architecture):
- Processador:
Intel 8088 (16 bits internamente, com barramento de dados de 8 bits);
- Periféricos:
Monitores fabricados pela IBM Japão e impressoras OEM da Epson;
- Sistema
Operacional: Contratado junto à recém-fundada Microsoft de Bill Gates
e Paul Allen, dando origem ao PC-DOS / MS-DOS.
O IBM Personal Computer (Modelo 5150) foi anunciado
oficialmente em 12 de agosto de 1981, com preço inicial a partir de US$
1.565 no modelo mais básico.
O ecossistema dos clones e a padronização
O sucesso da arquitetura aberta da IBM teve um efeito duplo:
legitimou o microcomputador no meio corporativo e permitiu que empresas
terceiras fizessem engenharia reversa na BIOS, inaugurando o mercado dos clones
compatíveis com o padrão IBM PC. Empresas como a Compaq despontaram já
no início dos anos 1980 com alternativas portáteis e compatíveis.
Em poucos anos, grande parte das arquiteturas concorrentes
proprietárias perdeu espaço para o ecossistema PC/DOS — com a notável exceção
da Apple, que manteve sua linha própria e lançou o revolucionário Macintosh
com interface gráfica em 1984. No segmento móvel, a portabilidade definitiva
ganhou força em 1985 com o lançamento do Toshiba T1100, considerado um
dos primeiros laptops modernos voltados ao mercado corporativo de massa.
"A IBM tem o orgulho de apresentar um produto que
provavelmente despertará seu interesse. É uma ferramenta que logo poderá estar
sobre a sua mesa, em sua casa, ou na sala de aula do seu filho. Ela pode fazer
uma diferença surpreendente na maneira como você trabalha, aprende e lida com
as complexidades (e alguns dos prazeres) da vida."
— Anúncio de imprensa da IBM, 12 de agosto de 1981.
Por dentro do IBM PC 5150
Visualmente, a disposição do IBM PC estabeleceu a base do
desktop tradicional: gabinete horizontal, monitor CRT e teclado independente.
No entanto, sob o ponto de vista técnico de 1981, suas especificações refletiam
as limitações da época:
- Processador:
Intel 8088 rodando a 4,77 MHz;
- Memória
RAM: 16 KB no modelo de entrada (expansível na placa-mãe até 64 KB e,
posteriormente, até 256 KB/640 KB com placas de expansão);
- Armazenamento:
Inicialmente não havia disco rígido; os arquivos e programas eram gravados
em disquetes de 5,25 polegadas (160 KB face simples ou 320 KB/360 KB dupla
face), com suporte a gravadores de fita cassete pela porta traseira;
- Expansão:
O disco rígido (Hard Disk) só viria como componente padrão em 1983, com o
lançamento do IBM PC/XT (modelo 5160), trazendo 10 MB de
armazenamento;
- Teclado:
O teclado mecânico Model F (83 teclas) com mecanismo buckling
spring tornou-se uma referência de robustez e resposta tátil na
digitação profissional.
Legado histórico
Embora não tenha sido o pioneiro absoluto no conceito de
computador pessoal, o IBM PC 5150 padronizou a indústria, unificou a
arquitetura do hardware moderno e consolidou o império do sistema operacional
da Microsoft (do MS-DOS às versões modernas do Windows). A máquina de 1981
abriu caminho para a revolução digital que redefiniu o trabalho, a educação e a
vida doméstica em escala global.
Referências Bibliográficas
BRADLEY, David J. The Creation of the IBM PC.
Byte Magazine, setembro de 1990.
CHALINE, Erich. 50 máquinas que mudaram o rumo da
história. Tradução de Fabiano Moraes. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
IBM Corporate Archives. The IBM PC (5150).
Disponível em: ibm.com/history/personal-computer.
Intel Corporation. Microprocessor Hall of Fame:
Intel 4004 and 8088. Disponível em: intel.com/history.
MILLER, Michael J. Project Chess: The Story Behind
the Original IBM PC. PCMag, 2021.
The Henry Ford Museum. Designing and Engineering
the IBM 5150 Personal Computer. thehenryford.org.

Nenhum comentário:
Postar um comentário