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De descrição botânica a nome próprio
Em língua portuguesa do período colonial, o vocábulo mato
designava a vegetação arbórea cerrada, enquanto o adjetivo grosso
qualificava a densidade, a espessura e o porte quase impenetrável da mata. Em
sua análise sobre o percurso enunciativo do termo, Karim (2016) demonstra que a
expressão perdeu gradualmente seu caráter de mera caracterização fitogeográfica
para funcionar como topônimo regional consolidado já na primeira metade do
século XVIII.
A memória historiográfica mato-grossense registra que a
denominação foi empregada inicialmente para a faixa florestal às margens dos
rios Galera e Guaporé, percorrida pelos irmãos Fernando e Artur Paes de Barros
e outros sertanistas paulistas e cuiabanos entre 1731 e 1734. Diante de uma
mata virgem contínua que se estendia por várias léguas, os mineradores passaram
a identificar os achados auríferos como as minas do "Mato Grosso".
A formalização da Capitania pela Coroa Portuguesa
A corrida do ouro, iniciada em Cuiabá por volta de 1719,
intensificou-se com as descobertas no vale do Guaporé nos anos 1730. Pela
relevância estratégica dos veios auríferos e pela necessidade de guarnecer a
fronteira com as possessões espanholas na América do Sul, a Coroa Portuguesa
interveio na administração territorial da Capitania de São Paulo.
Em 9 de maio de 1748, por meio de Carta Régia
assinada pelo rei D. João V, foi formalmente criada a Capitania de Mato
Grosso (juntamente com a Capitania de Goiás), desmembrada do território
paulista. O documento régio oficializou no vocabulário administrativo da
monarquia o nome que antes circulava apenas nos relatos dos exploradores.
Vila Bela da Santíssima Trindade e a cidade de
"Matto Grosso"
Para assumir o governo da nova capitania e garantir a
soberania luso-brasileira na bacia platina, a Coroa nomeou D. Antônio Rolim de
Moura Tavares como primeiro capitão-general. Em 19 de março de 1752,
Rolim de Moura fundou a sede do governo colonial: Vila Bela da Santíssima
Trindade, erguida às margens do rio Guaporé.
A dinâmica econômica e militar, contudo, deslocou o eixo
populacional de volta para o vale do rio Cuiabá. Em 28 de agosto de 1835,
o governo provincial transferiu definitivamente a capital para Cuiabá. Anos
antes, a antiga sede havia sido elevada à categoria de cidade com a denominação
imperial de Cidade de Matto Grosso, evidenciando como a mesma palavra já
designou uma mata, um território colonial e um núcleo urbano.
O desmembramento e a preservação do topônimo
A designação atravessou a transição da colônia ao Império e
permaneceu intacta com a Proclamação da República. Em 11 de outubro de 1977,
o Governo Federal promulgou a Lei Complementar nº 31, que dividiu o
estado e criou Mato Grosso do Sul, preservando na nova unidade
federativa a raiz toponímica colonial com a adição do indicador de posição
geográfica.
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Duco"
Referências bibliográficas
ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Capitania de Mato Grosso:
documentação da administração colonial luso-brasileira. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional.
BRASIL. Carta Régia de 9 de maio de 1748. Cria as
Capitanias de Mato Grosso e de Goiás, desmembrando-as da Capitania de São
Paulo. Lisboa: Corte Portuguesa, 1748. Cópia manuscrita no Arquivo Histórico
Ultramarino (Lisboa) e no Arquivo Nacional (Rio de Janeiro).
BRASIL. Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977.
Cria o Estado de Mato Grosso do Sul, e dá outras providências. Diário
Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 12 out. 1977.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). História
de Mato Grosso / História de Vila Bela da Santíssima Trindade. Rio
de Janeiro: IBGE Cidades, 2024. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br.
KARIM, Taisir Mahmudo. Mato Grosso: de descrição a nome – um
percurso enunciativo. Línguas e Instrumentos Linguísticos, Campinas:
Universidade Estadual de Campinas, n. 37, p. 77-94, jan./jun. 2016. Disponível
em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/lil/article/view/8664646.
MENECOZI, Arnaldo Rodrigues. Mato Grosso: qual a origem
deste nome. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do
Sul, Campo Grande, 2 fev. 2021. Disponível em: https://ihgms.org.br.
SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA, ESPORTE E LAZER DE MATO
GROSSO (SECEL-MT). Patrimônio Histórico e Origens de Mato Grosso.
Cuiabá: SECEL, 2023. Disponível em: https://www.cultura.mt.gov.br.
