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domingo, 18 de outubro de 2026

De onde vem o nome Mato Grosso

Imagem desenvolvida por IA
O nome do estado de Mato Grosso não surgiu originalmente como um topônimo institucional. Nasceu como uma anotação geográfica descritiva feita por sertanistas e mineradores que desbravaram a floresta tropical densa no vale do Guaporé durante o século XVIII. Ao longo do processo de interiorização colonial, a expressão descritiva batizou uma região, converteu-se em capitania real, nomeou uma cidade e, finalmente, consolidou-se como designação de duas unidades da Federação brasileira.

De descrição botânica a nome próprio

Em língua portuguesa do período colonial, o vocábulo mato designava a vegetação arbórea cerrada, enquanto o adjetivo grosso qualificava a densidade, a espessura e o porte quase impenetrável da mata. Em sua análise sobre o percurso enunciativo do termo, Karim (2016) demonstra que a expressão perdeu gradualmente seu caráter de mera caracterização fitogeográfica para funcionar como topônimo regional consolidado já na primeira metade do século XVIII.

A memória historiográfica mato-grossense registra que a denominação foi empregada inicialmente para a faixa florestal às margens dos rios Galera e Guaporé, percorrida pelos irmãos Fernando e Artur Paes de Barros e outros sertanistas paulistas e cuiabanos entre 1731 e 1734. Diante de uma mata virgem contínua que se estendia por várias léguas, os mineradores passaram a identificar os achados auríferos como as minas do "Mato Grosso".

A formalização da Capitania pela Coroa Portuguesa

A corrida do ouro, iniciada em Cuiabá por volta de 1719, intensificou-se com as descobertas no vale do Guaporé nos anos 1730. Pela relevância estratégica dos veios auríferos e pela necessidade de guarnecer a fronteira com as possessões espanholas na América do Sul, a Coroa Portuguesa interveio na administração territorial da Capitania de São Paulo.

Em 9 de maio de 1748, por meio de Carta Régia assinada pelo rei D. João V, foi formalmente criada a Capitania de Mato Grosso (juntamente com a Capitania de Goiás), desmembrada do território paulista. O documento régio oficializou no vocabulário administrativo da monarquia o nome que antes circulava apenas nos relatos dos exploradores.

Vila Bela da Santíssima Trindade e a cidade de "Matto Grosso"

Para assumir o governo da nova capitania e garantir a soberania luso-brasileira na bacia platina, a Coroa nomeou D. Antônio Rolim de Moura Tavares como primeiro capitão-general. Em 19 de março de 1752, Rolim de Moura fundou a sede do governo colonial: Vila Bela da Santíssima Trindade, erguida às margens do rio Guaporé.

A dinâmica econômica e militar, contudo, deslocou o eixo populacional de volta para o vale do rio Cuiabá. Em 28 de agosto de 1835, o governo provincial transferiu definitivamente a capital para Cuiabá. Anos antes, a antiga sede havia sido elevada à categoria de cidade com a denominação imperial de Cidade de Matto Grosso, evidenciando como a mesma palavra já designou uma mata, um território colonial e um núcleo urbano.

O desmembramento e a preservação do topônimo

A designação atravessou a transição da colônia ao Império e permaneceu intacta com a Proclamação da República. Em 11 de outubro de 1977, o Governo Federal promulgou a Lei Complementar nº 31, que dividiu o estado e criou Mato Grosso do Sul, preservando na nova unidade federativa a raiz toponímica colonial com a adição do indicador de posição geográfica.

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Referências bibliográficas

ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Capitania de Mato Grosso: documentação da administração colonial luso-brasileira. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional.

BRASIL. Carta Régia de 9 de maio de 1748. Cria as Capitanias de Mato Grosso e de Goiás, desmembrando-as da Capitania de São Paulo. Lisboa: Corte Portuguesa, 1748. Cópia manuscrita no Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) e no Arquivo Nacional (Rio de Janeiro).

BRASIL. Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977. Cria o Estado de Mato Grosso do Sul, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 12 out. 1977.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). História de Mato Grosso / História de Vila Bela da Santíssima Trindade. Rio de Janeiro: IBGE Cidades, 2024. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br.

KARIM, Taisir Mahmudo. Mato Grosso: de descrição a nome – um percurso enunciativo. Línguas e Instrumentos Linguísticos, Campinas: Universidade Estadual de Campinas, n. 37, p. 77-94, jan./jun. 2016. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/lil/article/view/8664646.

MENECOZI, Arnaldo Rodrigues. Mato Grosso: qual a origem deste nome. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2 fev. 2021. Disponível em: https://ihgms.org.br.

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA, ESPORTE E LAZER DE MATO GROSSO (SECEL-MT). Patrimônio Histórico e Origens de Mato Grosso. Cuiabá: SECEL, 2023. Disponível em: https://www.cultura.mt.gov.br.

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