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domingo, 20 de setembro de 2026

O Olho Míope da NASA: O Erro Microscópico que Quase Destruiu o Hubble

Wikimedia Commons 
Em 24 de abril de 1990, o Hubble foi colocado em órbita pelo ônibus espacial Discovery. A promessa era grandiosa: posicionar acima da turbulenta atmosfera terrestre o maior telescópio óptico já fabricado, livre de qualquer distorção climática ou luminosa.

Contudo, no dia 27 de junho de 1990, cerca de dois meses depois, a NASA veio a público com um comunicado estarrecedor: as imagens enviadas pelo telescópio estavam borradas.

Os dois principais instrumentos de captação da época — a Wide Field and Planetary Camera e a Faint Object Camera — registravam a mesma falha: aberração esférica.

A agência espacial instituiu o comitê de investigação Hubble Space Telescope Optical Systems Board para examinar todo o processo fabril. O resultado foi surpreendente:

  • O espelho primário foi polido com a curvatura incorreta, ficando ligeiramente plano demais em direção às bordas.
  • A falha foi cerca de dez vezes superior à tolerância permitida no projeto.
  • Ainda assim, em termos absolutos, a discrepância era microscópica: menor do que a espessura de um único fio de cabelo humano.

O erro rendeu ao Hubble três anos de chacota popular em tirinhas de jornal e programas humorísticos, que o tachavam de "o telescópio míope que não consegue enxergar direito".

A Missão de Resgate em Órbita

A virada na história começou a ser desenhada em dezembro de 1993, com o lançamento da Servicing Mission 1 (SM1). No dia 2 de dezembro, o ônibus espacial Endeavour partiu do Kennedy Space Center com sete tripulantes a bordo, carregando a responsabilidade de salvar a reputação científica da NASA.

Em uma verdadeira maratona no vácuo espacial, foram realizadas cinco caminhadas espaciais consecutivas, somando 35 horas e 28 minutos de trabalho externo. A equipe instalou dois componentes vitais:

  • COSTAR (Corrective Optics Space Telescope Axial Replacement): um mecanismo corretivo projetado pelo Goddard Space Flight Center para compensar o desvio óptico do espelho primário.
  • WFPC2 (Wide Field and Planetary Camera 2): uma versão atualizada da câmera principal, já equipada com lentes corretivas integradas.

Ao longo de 163 órbitas e mais de 4,4 milhões de milhas percorridas ao redor do planeta, os reparos foram concluídos com precisão. O efeito foi imediato: a névoa das fotografias deu lugar a paisagens cósmicas de nitidez inédita.

Como o Hubble Funciona por Dentro

O conjunto óptico do telescópio, conhecido como Optical Telescope Assembly (OTA), baseia-se no princípio clássico de reflexão Cassegrain:

  1. A luz penetra na abertura frontal e incide sobre o espelho primário (de 2,4 metros de largura e 828 kg).
  2. A imagem converge e reflete em direção a um espelho secundário menor.
  3. O feixe de luz é direcionado de volta através de um orifício central no espelho primário, chegando finalmente aos instrumentos científicos.

Curiosidades Notáveis de Engenharia:

  • Poder de captação: O espelho concentra a luz cerca de 40 mil vezes mais do que a capacidade do olho humano.
  • Revestimento de ponta: A superfície é coberta por películas reflexivas de alumínio e camadas protetoras de fluoreto de magnésio.
  • Polimento extremo: Se a superfície do espelho fosse ampliada até cobrir o tamanho de todo o planeta Terra, a maior irregularidade de relevo não passaria de 15 centímetros.
  • Compostos de grafite: A carcaça e a estrutura de sustentação utilizam epóxi de grafite — material consagrado em artigos esportivos de alta rigidez, como tacos de golfe e raquetes de tênis —, oferecendo leveza mecânica e estabilidade frente às brutais oscilações térmicas do espaço.

Um Legado Muito Além do Previsto

O telescópio que começou sua jornada sob desconfiança acabou por redefinir a história da astronomia. Concebido inicialmente para durar cerca de 15 anos, o Hubble superou em mais do dobro essa marca, acumulando mais de 1,5 milhão de observações astronômicas.

Mais do que salvar um instrumento científico bilionário, a missão de conserto do Hubble demonstrou que a engenhosidade humana é capaz de diagnosticar e sanar falhas a centenas de quilômetros da superfície da Terra.

Referências Bibliográficas

CHALINE, Eric. 50 máquinas que mudaram o rumo da história. Tradução de Fabiano Moraes. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

NASA SCIENCE. Hubble Celebrates 30th Anniversary of Servicing Mission 1. 1 dez. 2023. Disponível em: https://science.nasa.gov/missions/hubble/hubble-celebrates-30th-anniversary-of-servicing-mission-1/. Acesso em: 20 set. 2026.

NASA SCIENCE. Hubble's Mirror Flaw. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/hubble/observatory/design/optics/hubbles-mirror-flaw/. Acesso em: 20 set. 2026.

NASA SCIENCE. Optics. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/hubble/observatory/design/optics/. Acesso em: 20 set. 2026.

NASA SCIENCE. Servicing Mission 1 (SM1). [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/hubble/observatory/missions-to-hubble/servicing-mission-1/. Acesso em: 20 set. 2026.

NASA SCIENCE. The 'Camera That Saved Hubble'. 4 dez. 2018. Disponível em: https://science.nasa.gov/missions/hubble/the-camera-that-saved-hubble/. Acesso em: 20 set. 2026.