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Contudo, no dia 27 de junho de 1990, cerca de dois
meses depois, a NASA veio a público com um comunicado estarrecedor: as
imagens enviadas pelo telescópio estavam borradas.
Os dois principais instrumentos de captação da época — a Wide
Field and Planetary Camera e a Faint Object Camera — registravam a
mesma falha: aberração esférica.
A agência espacial instituiu o comitê de investigação Hubble
Space Telescope Optical Systems Board para examinar todo o processo fabril.
O resultado foi surpreendente:
- O espelho
primário foi polido com a curvatura incorreta, ficando ligeiramente
plano demais em direção às bordas.
- A
falha foi cerca de dez vezes superior à tolerância permitida no
projeto.
- Ainda
assim, em termos absolutos, a discrepância era microscópica: menor do que
a espessura de um único fio de cabelo humano.
O erro rendeu ao Hubble três anos de chacota popular em
tirinhas de jornal e programas humorísticos, que o tachavam de "o
telescópio míope que não consegue enxergar direito".
A Missão de Resgate em Órbita
A virada na história começou a ser desenhada em dezembro
de 1993, com o lançamento da Servicing Mission 1 (SM1). No dia 2 de
dezembro, o ônibus espacial Endeavour partiu do Kennedy Space Center com
sete tripulantes a bordo, carregando a responsabilidade de salvar a reputação
científica da NASA.
Em uma verdadeira maratona no vácuo espacial, foram
realizadas cinco caminhadas espaciais consecutivas, somando 35 horas e
28 minutos de trabalho externo. A equipe instalou dois componentes vitais:
- COSTAR
(Corrective Optics Space Telescope Axial Replacement): um mecanismo
corretivo projetado pelo Goddard Space Flight Center para compensar o
desvio óptico do espelho primário.
- WFPC2
(Wide Field and Planetary Camera 2): uma versão atualizada da
câmera principal, já equipada com lentes corretivas integradas.
Ao longo de 163 órbitas e mais de 4,4 milhões de milhas
percorridas ao redor do planeta, os reparos foram concluídos com precisão. O
efeito foi imediato: a névoa das fotografias deu lugar a paisagens cósmicas de
nitidez inédita.
Como o Hubble Funciona por Dentro
O conjunto óptico do telescópio, conhecido como Optical
Telescope Assembly (OTA), baseia-se no princípio clássico de reflexão Cassegrain:
- A
luz penetra na abertura frontal e incide sobre o espelho primário
(de 2,4 metros de largura e 828 kg).
- A
imagem converge e reflete em direção a um espelho secundário menor.
- O
feixe de luz é direcionado de volta através de um orifício central no
espelho primário, chegando finalmente aos instrumentos científicos.
Curiosidades Notáveis de Engenharia:
- Poder
de captação: O espelho concentra a luz cerca de 40 mil vezes mais
do que a capacidade do olho humano.
- Revestimento
de ponta: A superfície é coberta por películas reflexivas de alumínio
e camadas protetoras de fluoreto de magnésio.
- Polimento
extremo: Se a superfície do espelho fosse ampliada até cobrir o
tamanho de todo o planeta Terra, a maior irregularidade de relevo não
passaria de 15 centímetros.
- Compostos
de grafite: A carcaça e a estrutura de sustentação utilizam epóxi
de grafite — material consagrado em artigos esportivos de alta
rigidez, como tacos de golfe e raquetes de tênis —, oferecendo leveza
mecânica e estabilidade frente às brutais oscilações térmicas do espaço.
Um Legado Muito Além do Previsto
O telescópio que começou sua jornada sob desconfiança acabou
por redefinir a história da astronomia. Concebido inicialmente para durar cerca
de 15 anos, o Hubble superou em mais do dobro essa marca, acumulando mais de
1,5 milhão de observações astronômicas.
Mais do que salvar um instrumento científico bilionário, a
missão de conserto do Hubble demonstrou que a engenhosidade humana é capaz de
diagnosticar e sanar falhas a centenas de quilômetros da superfície da Terra.
Referências Bibliográficas
CHALINE, Eric. 50 máquinas que mudaram o rumo da história.
Tradução de Fabiano Moraes. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
NASA SCIENCE. Hubble Celebrates 30th Anniversary of
Servicing Mission 1. 1 dez. 2023. Disponível em: https://science.nasa.gov/missions/hubble/hubble-celebrates-30th-anniversary-of-servicing-mission-1/.
Acesso em: 20 set. 2026.
NASA SCIENCE. Hubble's Mirror Flaw. [S. l.], [s. d.].
Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/hubble/observatory/design/optics/hubbles-mirror-flaw/.
Acesso em: 20 set. 2026.
NASA SCIENCE. Optics. [S. l.], [s. d.]. Disponível
em: https://science.nasa.gov/mission/hubble/observatory/design/optics/.
Acesso em: 20 set. 2026.
NASA SCIENCE. Servicing Mission 1 (SM1). [S. l.], [s.
d.]. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/hubble/observatory/missions-to-hubble/servicing-mission-1/.
Acesso em: 20 set. 2026.
NASA SCIENCE. The 'Camera That Saved Hubble'. 4 dez.
2018. Disponível em: https://science.nasa.gov/missions/hubble/the-camera-that-saved-hubble/.
Acesso em: 20 set. 2026.

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