Radio Evangélica

terça-feira, 8 de julho de 2025

Domingos José Martins: Um Protagonista da Revolução Pernambucana de 1817

Domingos José Martins foi um dos principais envolvidos na Revolução Pernambucana de 1817, movimento que expressou o descontentamento de setores da sociedade brasileira com a política colonial portuguesa. Com atuação destacada no comércio e influenciado por ideias liberais, Martins participou da articulação do governo revolucionário provisório. Este artigo apresenta um panorama histórico de sua trajetória e de seu papel na conjuntura política do início do século XIX.

Introdução

O início do século XIX foi um período de transição para os territórios americanos sob domínio europeu. No Brasil, diversas regiões começaram a expressar insatisfação com a centralização do poder e a alta carga tributária imposta pela Coroa portuguesa. Nesse contexto, surgem movimentos regionais que buscaram maior autonomia ou mudanças institucionais. Entre os protagonistas desse momento está Domingos José Martins, figura de destaque na Revolução Pernambucana de 1817.

Origens e Formação

Domingos José Martins nasceu por volta de 1781, na Capitania do Espírito Santo, e teve contato, desde cedo, com o comércio e com ambientes urbanos e intelectuais fora do Brasil. Ele viveu na Inglaterra, onde provavelmente teve contato com correntes liberais europeias. Essa experiência influenciou sua visão política e econômica ao retornar ao Brasil.

Segundo Santos (2006), Martins demonstrava afinidade com os princípios do liberalismo econômico e constitucional, que ganhavam força no mundo atlântico após a Revolução Americana e a Revolução Francesa.

Participação na Revolução Pernambucana

Estabelecido em Pernambuco, Martins se envolveu com um grupo de comerciantes, militares e intelectuais insatisfeitos com a administração colonial. Em março de 1817, esse grupo iniciou um movimento que implantou um governo provisório com base em ideias de representação e descentralização política.

Martins atuou como enviado diplomático da Revolução, representando o novo governo em negociações com outros países. O movimento, no entanto, foi rapidamente sufocado pelas forças leais à Coroa, durando cerca de dois meses.

De acordo com Carvalho (2008), a Revolução de 1817 foi uma das primeiras manifestações organizadas no Brasil que propunha uma nova forma de governo, distinta da monarquia absolutista.

Prisão e Execução

Após a queda do governo revolucionário, Domingos José Martins foi capturado na Bahia e julgado por sua participação no movimento. Foi condenado à morte e executado por enforcamento em junho de 1817.

A pena capital aplicada refletia o padrão jurídico da época para casos de sedição e levante contra a autoridade régia. Martins, assim como outros envolvidos, tornou-se posteriormente uma figura lembrada por sua atuação política.

Homenagens e Legado

Ao longo do tempo, Domingos José Martins passou a ser lembrado por diversos segmentos da sociedade como símbolo da busca por reformas institucionais no Brasil colonial. Seu nome batiza ruas, escolas e um município no Espírito Santo, evidenciando seu reconhecimento histórico, sobretudo no âmbito regional.

Considerações Finais

A trajetória de Domingos José Martins permite compreender melhor o contexto político do Brasil colonial nos anos que antecederam a independência. Sua atuação na Revolução Pernambucana de 1817 revela os embates entre diferentes visões de organização política e econômica no país. Independentemente de interpretações ideológicas, sua figura compõe o quadro de personagens históricos que participaram de momentos decisivos da formação do Brasil.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995.
SANTOS, Raimundo. Domingos José Martins: o herói capixaba da Revolução de 1817. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 2006.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2000.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O Desafio Oculto da Energia Solar: Lidando com os Impactos Ambientais dos Painéis Fotovoltaicos

A energia solar fotovoltaica (FV) é, sem dúvida, uma peça-chave na transição energética global, prometendo um futuro mais limpo e sustentável. Contudo, é fundamental olhar para o ciclo de vida completo dos painéis solares, desde a sua fabricação até o descarte, para compreender e mitigar os desafios ambientais que ainda persistem.

A Complexidade da Fabricação e Seus Resíduos

A produção de painéis fotovoltaicos, especialmente os de silício cristalino (os mais comuns), é um processo complexo e energeticamente intensivo. Embora os impactos operacionais das usinas solares sejam mínimos, a fase de manufatura não é isenta de pegadas ambientais.

Durante a fabricação, há o uso de recursos e a geração de resíduos e emissões. Um dos pontos de atenção são os metais pesados. Painéis solares podem conter substâncias como prata, índio, gálio, germânio, chumbo e cádmio (Coelho e Serra, 2018). Embora a quantidade desses metais seja pequena e o risco imediato seja baixo, o descarte inadequado ao final da vida útil dos painéis pode levar à contaminação do solo e da água, caso esses materiais lixiviem (Coelho e Serra, 2018; Energia Total, 2023).

Além disso, a extração e o refino do silício, principal componente, podem gerar material particulado e gases tóxicos, incluindo o potente gás de efeito estufa hexafluoreto de enxofre (SF6), usado na limpeza de reatores, que pode contribuir para a ocorrência de chuva ácida (IFMG, 2022).

O Gigante de Resíduos à Vista: O Desafio da Reciclagem

A vida útil média de um painel fotovoltaico é de 25 a 30 anos. Com a rápida expansão da energia solar nas últimas décadas, estamos à beira de um aumento significativo no volume de resíduos de painéis. Globalmente, projeções indicam que a quantidade de resíduos de painéis solares poderá atingir entre 60 e 78 milhões de toneladas até 2050 (IRENA e IEAPVPS, 2016, citado por UTFPR, s.d.; Holu, 2024).

Atualmente, uma grande parte dos resíduos fotovoltaicos ainda acaba em aterros sanitários (Assine Maya, s.d.), o que representa um desperdício de materiais valiosos e um risco ambiental. Felizmente, a maioria dos componentes de um módulo fotovoltaico – como vidro (cerca de 75% do peso), alumínio (10%), silício (4%), cobre e outros metais – pode ser reciclada (Holu, 2024; Ecoassist, 2025). O processo de reciclagem envolve a desmontagem e a separação desses materiais, que podem ser reintegrados à cadeia produtiva, reduzindo a necessidade de extração de novas matérias-primas e estimulando a economia circular (Ecoassist, 2025).

Cenário da Reciclagem no Brasil e no Mundo

Embora as estratégias de reciclagem estejam avançando, a escala global ainda é limitada, e o mercado de reciclagem de painéis solares está em sua infância (Holu, 2024). A União Europeia está na vanguarda da implementação de medidas regulatórias para o descarte e reciclagem. Estudos projetam que o mercado global de reciclagem de painéis solares poderá atingir US$ 477 milhões até 2032 (Portal Solar, 2023) ou até US$ 2,7 bilhões até 2030, impulsionado pela demanda por componentes reciclados (Canal Solar, 2022).

No Brasil, o desafio da logística reversa de painéis fotovoltaicos é ainda mais latente. Por ser uma tecnologia relativamente recente no país, poucos painéis chegaram ao fim de sua vida útil (Projeto Colabora, 2021; Canal Solar, 2022). No entanto, o volume de instalações cresce exponencialmente, e o país tem poucas empresas focadas exclusivamente na coleta e reciclagem desses equipamentos (Projeto Colabora, 2021; Canal Solar, 2022). Há uma necessidade urgente de políticas públicas e incentivos que promovam a reciclagem e garantam que o setor fotovoltaico não gere uma nova "mancha" de resíduos inadequados (Projeto Colabora, 2021).

Rumo a uma Energia Solar Verdadeiramente Sustentável

Para que a energia solar seja uma solução de sustentabilidade completa, é crucial um esforço conjunto para otimizar todo o seu ciclo de vida. Isso inclui:

  • Inovação na Fabricação: Pesquisar e desenvolver painéis com materiais menos tóxicos e processos de produção mais limpos e eficientes.
  • Expansão da Infraestrutura de Reciclagem: Investir em tecnologias e redes de coleta e processamento que tornem a reciclagem de painéis FV economicamente viável e amplamente acessível, tanto globalmente quanto no Brasil.
  • Legislação e Incentivos: Implementar políticas de responsabilidade estendida do produtor, garantindo que os fabricantes sejam parte da solução para o descarte e reciclagem de seus produtos.
  • Conscientização: Educar consumidores e empresas sobre a importância do descarte correto e da reciclagem de painéis solares.

A energia solar é uma força poderosa para descarbonizar nossa matriz energética. Ao enfrentar proativamente os desafios ambientais de sua fabricação e descarte, podemos garantir que essa tecnologia realmente entregue um futuro mais verde para todos.

Referências Bibliográficas:

Resenha: O Lado Negro da Revolução Francesa – Renaud Escande


A Revolução Francesa costuma ser enaltecida como o grande ponto de virada da história ocidental moderna. Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, rompeu-se com o Antigo Regime, instaurando uma nova era de direitos civis e participação política. No entanto, há um outro lado dessa narrativa, mais obscuro, menos celebrado - e é justamente esse o foco de Renaud Escande em sua impactante obra: O Lado Negro da Revolução Francesa.

Um livro corajoso e necessário

Escande propõe uma leitura crítica e minuciosa da Revolução, abordando seus aspectos violentos, persecutórios e anticlericais. Longe de apresentar um relato panfletário, o autor baseia-se em farta documentação histórica para demonstrar que, sob o manto dos ideais iluministas, o processo revolucionário instaurou um regime de terror, censura e extermínio. O livro denuncia os massacres cometidos em nome da "virtude revolucionária", a perseguição sistemática à Igreja Católica e aos cristãos, especialmente os camponeses da Vendéia, que resistiram à tirania jacobina.

O genocídio da Vendéia: um capítulo silenciado

Um dos capítulos mais chocantes do livro é a descrição do que Escande e diversos historiadores contemporâneos reconhecem como o primeiro genocídio moderno na Europa: a repressão da Revolta da Vendéia. Os camponeses daquela região, majoritariamente católicos e monarquistas, recusaram-se a se submeter ao novo regime e foram exterminados por tropas revolucionárias com brutalidade impressionante. O autor detalha como mulheres, crianças e religiosos foram mortos, vilas inteiras foram destruídas, e a guilhotina, símbolo da justiça revolucionária, tornou-se um instrumento de terror e purificação ideológica.

O projeto de uma nova religião estatal

Escande também analisa como os líderes da Revolução tentaram desconstruir o cristianismo e substituí-lo por cultos civis, como o Culto à Razão e o Culto ao Ser Supremo, sob forte influência de figuras como Robespierre. A laicidade imposta à força visava suprimir a Igreja e instituir uma religião de Estado, voltada para a adoração da própria Revolução. Igrejas foram saqueadas, sacerdotes executados e fiéis perseguidos como inimigos da pátria.

O legado da intolerância em nome da liberdade

Ao invés de apenas denunciar, o autor propõe uma reflexão profunda sobre as contradições do projeto revolucionário: como o discurso de liberdade se converteu em tirania? Como a busca por igualdade terminou em censura, repressão e assassinatos em massa? Escande nos alerta sobre os perigos do fanatismo ideológico travestido de progresso, uma lição valiosa tanto para a leitura do passado quanto para os desafios políticos contemporâneos.

Estilo e impacto

Com uma escrita clara, envolvente e sustentada em pesquisa rigorosa, Renaud Escande entrega uma obra essencial para quem deseja compreender a Revolução Francesa além do mito. Sem negar as conquistas políticas que o período proporcionou, ele revela que a história também é feita de sombras - e que ignorá-las é abrir caminho para que os mesmos erros se repitam.

Gostou da resenha?

Se você se interessa por história crítica e deseja entender os bastidores de um dos eventos mais decisivos da modernidade, O Lado Negro da Revolução Francesa é uma leitura indispensável.

 

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domingo, 6 de julho de 2025

Cinematógrafo dos Irmãos Lumière: A Máquina que Inventou o Cinema

Wikipedia
Como uma engenhosa invenção francesa uniu técnica e espetáculo para inaugurar a era das imagens em movimento compartilhadas — e transformar definitivamente a cultura visual.

O século da imagem: invenções, indústrias e ilusões

A Segunda Revolução Industrial (c. 1870–1914) trouxe consigo inovações técnicas que ampliaram a capacidade humana de produzir, comunicar e registrar o mundo. Nesse contexto, a fotografia já havia sido desenvolvida na década de 1830, mas o desafio de criar imagens em movimento — que pudessem ser registradas, reproduzidas e exibidas — ainda estava em aberto.

A experiência da imagem em movimento era, até então, fragmentada em dispositivos como:

  • O fenacistoscópio e o zootrópio, que usavam discos ou tambores giratórios para simular movimento com desenhos sequenciais;
  • O zoopraxiscópio de Eadweard Muybridge, que projetava fotografias de animais em ação;
  • O cinetoscópio, criado por Thomas Edison e W. K. L. Dickson, que permitia ao espectador ver um filme através de uma lente individual — mas não projetava imagens coletivamente.

Esses avanços prepararam o terreno para a inovação mais significativa: o cinematógrafo dos irmãos Lumière, que, além de filmar, podia projetar as imagens em uma tela para uma plateia.

 

Uma invenção “três em um”: câmera, processador e projetor

O cinematógrafo Lumière, patenteado em 13 de fevereiro de 1895, era um mecanismo compacto e leve (pesando cerca de 5 kg) que funcionava com manivela e película perfurada de 35 mm, um padrão herdado do cinetoscópio de Edison. O operador podia:

  • Filmar: girando a manivela a cerca de 16 quadros por segundo;
  • Revelar: copiando o negativo manualmente com luz;
  • Projetar: exibindo os filmes em uma tela com ajuda de uma lanterna de projeção.

O dispositivo era mais barato e eficiente que os concorrentes da época, como o bioscópio dos irmãos Skladanowsky (Alemanha), e não dependia de eletricidade, o que facilitava sua difusão global.

Segundo Erich Chaline (2014), “o cinematógrafo foi a única máquina da história que combinou todas as etapas do cinema num único aparelho até a chegada dos projetores digitais Pico, em 2003”.

A estreia: Paris, 28 de dezembro de 1895

A primeira exibição pública e paga do cinematógrafo ocorreu no Salon Indien do Grand Café, no boulevard des Capucines, em Paris. O ingresso custava 1 franco. Foram exibidos dez filmes curtos, de aproximadamente 45 segundos cada, incluindo:

  • La Sortie de l'Usine Lumière à Lyon (A saída dos operários da fábrica Lumière)
  • Le Déjeuner de bébé (O almoço do bebê)
  • L’Arroseur arrosé (O jardineiro molhado) — considerado o primeiro filme cômico da história.

O sucesso foi instantâneo. Em poucos meses, os Lumière enviaram operadores e equipamentos para diversos países: Índia, Japão, Rússia, Canadá, EUA, Egito, Brasil e Argentina. A primeira exibição no Brasil ocorreu em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, no salão do Imperial Cine-Teatro, por iniciativa de Paschoal Segreto.

Linguagem visual: a estética dos Lumière

Os filmes Lumière definiram os princípios da estética cinematográfica primitiva:

  • Câmera estática, com enquadramento fixo e plano único;
  • Ação dentro do campo visual, sem cortes ou movimentos de câmera;
  • Assuntos cotidianos e espontâneos: fábricas, crianças, cenas de rua, humor físico.

Esses filmes foram os primeiros a propor o cinema como espelho da realidade, criando o que o teórico André Bazin mais tarde chamaria de “realismo ontológico” da imagem fílmica.

A linguagem ainda era rudimentar, mas já se delineava a base do documentário, da comédia física e até mesmo da ficção — elementos que seriam desenvolvidos por diretores como Georges Méliès (com suas fantasias teatrais) e D. W. Griffith (com narrativas épicas e montagem complexa).

Um sucesso abandonado (e a volta à fotografia)

Apesar do êxito, os próprios Lumière consideravam o cinema “uma invenção sem futuro”. Em 1903, deixaram de produzir filmes e voltaram-se para a pesquisa fotográfica, criando o autocromo, o primeiro processo comercial viável de fotografia colorida. Seu legado, contudo, já estava consolidado: o cinema havia sido inventado.

  Legado e importância do cinematógrafo

O cinematógrafo:

  • Democratizou a experiência visual — do privado ao público;
  • Definiu padrões técnicos (película de 35 mm, avanço intermitente);
  • Estabeleceu um modelo de negócio para distribuição e exibição;
  • Influenciou todas as mídias visuais posteriores, da TV ao YouTube.

Para muitos historiadores, o cinematógrafo marca o nascimento da sétima arte. Através dele, o cinema deixou de ser apenas uma curiosidade científica e passou a ser uma forma de arte e comunicação de massa.

Referências Bibliográficas

  • Chaline, Erich. 50 Máquinas que Mudaram o Rumo da História. Trad. Fabiano Moraes. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
  • DunaPress. “O Cinematógrafo dos Irmãos Lumière.” Disponível em: https://dunapress.org
  • Sadoul, Georges. História Geral do Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1976.
  • Bazin, André. O Que É o Cinema? São Paulo: Nova Fronteira, 1981.
  • Gunning, Tom. “The Cinema of Attractions.” Wide Angle, 1990.
  • Abel, Richard. The Cine Goes to Town: French Cinema 1896–1914. University of California Press, 2005.
  • Musser, Charles. The Emergence of Cinema: The American Screen to 1907. University of California Press, 1990.

O Egito sob os Fatímidas: Centralização Xiita, Integração Africana e Esplendor Cultural (séculos X–XII)

A ascensão da dinastia fatímida no Egito, em 969 d.C., marcou o início de uma nova etapa histórica, em que o país não apenas se tornou o centro de um império islâmico alternativo ao dos abássidas, mas também experimentou um florescimento cultural e econômico sem precedentes desde a Antiguidade. Fundado por uma dinastia xiita ismaelita, o Califado Fatímida estabeleceu sua capital no Cairo — cidade projetada para simbolizar e consolidar sua autoridade. O Egito, agora epicentro de um projeto imperial concorrente ao sunismo abássida, passou a desempenhar papel-chave na política islâmica e no comércio afro-asiático.

A Fundação do Cairo e o Reordenamento do Poder

Os fatímidas, vindos do Norte da África, tomaram o controle do Egito derrotando os ikshídidas e fundaram, em 969, a cidade de al-Qāhira ("A Vitoriosa"), hoje Cairo. A cidade foi concebida como uma metrópole palaciana e religiosa, destinada exclusivamente à nova elite xiita. O Egito tornou-se, assim, a base de operações do califado fatímida, que aspirava liderar o mundo islâmico como califado rival ao dos abássidas (BRENTJES, 2003).

Administrativamente, os fatímidas promoveram uma reestruturação centralizada. O vizir (wazīr), uma figura de crescente importância, tornou-se o principal administrador do Estado, com autoridade sobre finanças, justiça e forças militares. A burocracia fatímida era altamente desenvolvida, composta por secretarias especializadas (dīwāns) e registros detalhados, o que permitiu uma governança eficiente e uma arrecadação fiscal regular (LEVANONI, 1991).

Religião e Legitimidade: A Difusão do Ismaelismo

Diferentemente dos califados sunitas anteriores, os fatímidas impuseram a vertente xiita ismaelita como doutrina oficial. Contudo, essa imposição foi seletiva e estratégica: embora o clero sunita tenha sido deslocado das posições mais altas, a população em geral não foi forçada a converter-se. A autoridade religiosa foi centralizada na figura do califa, que também era imã — líder espiritual infalível segundo a teologia ismaelita (DAFTARY, 1990).

A disseminação da doutrina ismaelita foi promovida através de uma rede de missionários (dāʿīs), que atuavam em várias regiões do império. No entanto, o Egito permaneceu majoritariamente sunita, o que levou a uma convivência delicada entre diferentes correntes do Islã. Apesar disso, os fatímidas toleraram a diversidade religiosa em troca de estabilidade política e eficiência administrativa.

Coptas e Cristãos sob os Fatímidas

Os cristãos coptas continuaram a ocupar cargos administrativos e a manter sua estrutura religiosa sob o domínio fatímida. Em certos períodos, como no governo do califa al-Hakim bi-Amr Allah (r. 996–1021), houve repressões pontuais e episódios de destruição de igrejas, como a demolição da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém (COLE, 2003). No entanto, essas ações não refletiram necessariamente uma política sistemática e, após o fim do governo de al-Hakim, as relações entre muçulmanos e cristãos voltaram a um estado de relativa normalidade.

A Igreja Copta continuou a ser reconhecida como representante legítima de sua comunidade e seus patriarcas mantiveram residência em Cairo. Os mosteiros, especialmente os do deserto de Wadi Natrun, permaneceram centros de resistência cultural e espiritual copta.

Comércio, Cultura e Ciência: O Apogeu Fatímida

Um dos legados mais notáveis da dinastia fatímida foi seu incentivo ao comércio e à produção cultural. O Egito tornou-se o elo central entre o Mediterrâneo, o Magrebe e o oceano Índico, favorecido por sua posição estratégica e pelas políticas mercantilistas do califado. Cairo tornou-se um polo cosmopolita onde mercadores, intelectuais, artesãos e religiosos de diversas origens coexistiam (GOITEIN, 1967).

A dinastia patrocinou a construção de universidades, bibliotecas e instituições religiosas, como a célebre mesquita-universidade de al-Azhar, fundada em 970. Embora hoje al-Azhar seja o centro do islamismo sunita, durante o período fatímida foi o principal bastião do ensino xiita ismaelita. A produção científica floresceu, especialmente nas áreas de medicina, matemática, astronomia e filosofia.

A Arte Fatímida e sua Estética Islâmica Original

A arte fatímida desenvolveu um estilo refinado e simbólico, que combinava elementos do mundo islâmico oriental e do legado copta-bizantino. A cerâmica, os tecidos bordados (tiraz), os manuscritos ilustrados e as joias representavam a sofisticação de uma elite culta e cosmopolita (BLOOM, 2007). Os edifícios religiosos, como as mesquitas de al-Hakim e de al-Azhar, revelam uma arquitetura robusta e inovadora, com arcadas simétricas, minaretes coroados e motivos geométricos e florais.

Declínio e Legado

A partir do século XII, o califado fatímida começou a perder força diante de tensões internas, crises econômicas e da pressão das Cruzadas e dos turcos seljúcidas. Em 1171, o poder fatímida foi formalmente extinto com a ascensão de Saladino, que restaurou o sunismo e fundou a dinastia aiúbida. Mesmo assim, o legado fatímida perdurou no urbanismo, nas instituições culturais e na memória religiosa de parte da população.

Conclusão: Um Império de Inovação e Contradições

O domínio fatímida no Egito representou um período de esplendor e ambiguidade. Enquanto buscavam afirmar uma nova ortodoxia religiosa, os fatímidas demonstraram grande capacidade de tolerância, pragmatismo político e visão administrativa. Sua herança permanece visível na estrutura urbana do Cairo, nas instituições educacionais como al-Azhar e no florescimento cultural que marcou o Egito como um dos centros mais sofisticados do mundo islâmico medieval.

Referências Bibliográficas

  • Bloom, Jonathan M. Arts of the City Victorious: Islamic Art and Architecture in Fatimid North Africa and Egypt. Yale University Press, 2007.
  • Brentjes, Sonja. Knowledge and Education in Classical Islam: Religious Learning between Continuity and Change. Ashgate, 2003.
  • Cole, Juan. Sacred Space and Holy War: The Politics, Culture and History of Shi'ite Islam. I.B. Tauris, 2003.
  • Daftary, Farhad. The Isma'ilis: Their History and Doctrines. Cambridge University Press, 1990.
  • Goitein, S.D. A Mediterranean Society: The Jewish Communities of the Arab World as Portrayed in the Documents of the Cairo Geniza. University of California Press, 1967.
  • Levanoni, Amalia. A Turning Point in Mamluk History: The Third Reign of al-Nasir Muhammad Ibn Qalawun. Brill, 1991.

sábado, 5 de julho de 2025

A Monarquia Hachemita da Jordânia: Estrutura Política, Poderes Reais e Identidade Religiosa

A Jordânia, oficialmente Reino Hachemita da Jordânia, é um dos poucos países do Oriente Médio que mantém uma monarquia constitucional ativa. Governada pela dinastia Hachemita desde 1921, a Jordânia apresenta uma estrutura híbrida entre elementos democráticos e autoritários, nos quais o rei desempenha um papel central na vida política e religiosa do país. Este artigo analisa a organização política da Jordânia, os limites e alcances do poder real, a relação entre o Estado e a religião, bem como as características que conferem estabilidade relativa ao regime em meio a um cenário regional frequentemente marcado por instabilidades.

Introdução

A Jordânia é uma monarquia constitucional baseada em um sistema parlamentar, mas com fortes poderes concentrados na figura do monarca. Desde sua independência em 1946, o país tem sido governado pela dinastia Hachemita, atualmente sob o rei Abdullah II. A Constituição jordaniana, promulgada em 1952 e revisada várias vezes, estabelece os princípios do regime, mas concede amplos poderes ao rei, o que torna a monarquia o eixo central da governabilidade.

Estrutura Política e Forma de Governo

A Jordânia é formalmente uma monarquia constitucional e hereditária, com sistema parlamentar. No entanto, na prática, muitos analistas a classificam como uma monarquia autoritária ou semi-autoritária, devido à concentração de poderes nas mãos do rei.

O poder executivo é exercido pelo rei e pelo Conselho de Ministros. O rei nomeia o primeiro-ministro, que, por sua vez, forma um gabinete aprovado pelo monarca. O poder legislativo é bicameral, composto pela Câmara dos Deputados (eleita por voto popular) e pelo Senado (nomeado pelo rei).

O judiciário é tecnicamente independente, mas o rei possui autoridade sobre a nomeação de altos cargos judiciais, incluindo o presidente do Conselho Judicial.

Poderes do Rei e Intervenção na Política

O rei possui prerrogativas amplas que incluem:

- Nomear e demitir o primeiro-ministro e outros membros do governo;
- Dissolver o Parlamento;
- Ratificar leis e tratados internacionais;
- Comandar as Forças Armadas;
- Nomear governadores e embaixadores;
- Intervir diretamente em decisões políticas e administrativas.

Segundo Lucas (2014), “a centralidade do rei na estrutura política da Jordânia impede uma democratização plena, mesmo em contextos de abertura eleitoral.”

Religião Oficial e Papel da Religião no Estado

A Constituição da Jordânia define o país como um Estado islâmico. O Islã é a religião oficial, sendo o rei considerado o Guardião dos Lugares Sagrados Islâmicos em Jerusalém, um título que reforça sua legitimidade tanto religiosa quanto política.

Embora a Jordânia reconheça outras religiões e garanta a liberdade de culto (como para cristãos), a legislação islâmica (sharia) serve de base para diversas áreas do direito, principalmente o direito de família.

Segundo Hroub (2012), “a religião na Jordânia é uma ferramenta de legitimação política e social para o regime, que se apresenta como protetor do Islã moderado frente ao extremismo.”

Estabilidade e Desafios do Regime Hachemita

A Jordânia tem sido relativamente estável, mesmo durante períodos turbulentos como a Primavera Árabe (2011). O rei Abdullah II respondeu com reformas pontuais e controle social, evitando rupturas drásticas.

A monarquia usufrui de um certo consenso nacional, especialmente entre elites tribais, setores urbanos e comunidades cristãs, que veem o rei como um fator de equilíbrio em uma região marcada por conflitos sectários e guerras civis (Síria, Iraque, Palestina).

Contudo, a Jordânia enfrenta desafios econômicos crônicos, desemprego alto e dependência de ajuda externa (principalmente dos EUA e de países do Golfo), o que pressiona o regime por reformas mais profundas.

Considerações Finais

A monarquia jordaniana combina tradição, pragmatismo político e controle centralizado. Embora seja formalmente constitucional, o regime é caracterizado por um sistema pseudodemocrático, onde o rei exerce forte influência sobre os demais poderes. A religião, por sua vez, é usada como ferramenta de coesão nacional e legitimação institucional. A longevidade do regime depende de sua capacidade de equilibrar demandas por reformas com a preservação do status quo.

Referências Bibliográficas

·         HROUB, Khaled. Jordan: Stability at the Cost of Democracy? Carnegie Middle East Center, 2012.

·         LUCAS, Russell. Institutions and the Politics of Survival in Jordan: Domestic Responses to External Challenges, 1988-2001. SUNY Press, 2005.

·         RYAN, Curtis. Jordan and the Arab Uprisings: Regime Survival and Politics Beyond the State. Columbia University Press, 2018.

·         SCHENKER, David. Jordan: The Politics of Palace and Parliament. Washington Institute for Near East Policy, 2013.

·         CONSTITUIÇÃO DA JORDÂNIA (1952, com emendas). Disponível em: https://www.constituteproject.org/constitution/Jordan_2011.pdf

Escultura Romana na Era Digital: Desafios e Potencialidades de um Legado Conectado

A escultura romana, historicamente ancorada em sua materialidade e presença física, encontra na era digital um novo campo de atuação e reinterpretação. Longe de ser apenas um objeto de reprodução virtual, ela se torna um artefato cultural dinâmico, inserido em redes de informação, ambientes imersivos e plataformas de engajamento público. Este texto se propõe a explorar como a digitalização, as mídias sociais e as realidades estendidas estão remodelando a percepção, o estudo e a apropriação da escultura romana no século XXI.

A Escultura Romana no Ciberespaço: Modelagem e Acesso Universal

A digitalização em 3D e a fotografia de alta resolução têm permitido a criação de réplicas virtuais de esculturas romanas com um nível de detalhe impressionante. Museus e instituições de pesquisa disponibilizam vastos acervos online, democratizando o acesso a peças que antes só podiam ser vistas presencialmente. Essa acessibilidade não apenas facilita estudos acadêmicos à distância, mas também convida o público geral a uma interação mais próxima com o material. Plataformas como o Google Arts & Culture exemplificam como a tecnologia pode quebrar barreiras geográficas e sociais, tornando a arte romana acessível a uma audiência global, fomentando o interesse e a educação (NUNES, 2019).

Mídias Sociais e Remix Cultural: Novas Narrativas Visuais

A proliferação das mídias sociais transformou a escultura romana em um recurso imagético fértil para a criação e disseminação de conteúdo. Memes, colagens digitais e fan arts que utilizam bustos e estátuas romanas em contextos anacrônicos ou humorísticos são comuns. Essa apropriação, que à primeira vista pode parecer trivial, na verdade demonstra a maleabilidade simbólica dessas obras e sua capacidade de serem ressignificadas por diferentes grupos sociais. O que antes era restrito a academias ou museus, agora circula livremente, gerando debates, engajamento e, por vezes, desafiando a interpretação oficial e canônica dessas obras (JENKINS, 2006).

Realidade Virtual e Aumentada: Experiências Imersivas com o Passado

A realidade virtual (RV) e a realidade aumentada (RA) oferecem novas dimensões de interação com a escultura romana. Aplicativos e exposições imersivas permitem que os usuários "caminhem" por ruínas romanas virtuais, observem as esculturas em seu contexto original ou até mesmo manipulem réplicas digitais em 3D. Essa tecnologia não apenas enriquece a experiência estética, mas também possibilita uma compreensão mais profunda da escala, da perspectiva e da função dessas obras no ambiente romano antigo. A capacidade de "restaurar" digitalmente cores e detalhes perdidos no tempo oferece um vislumbre fascinante de como essas esculturas se apresentavam originalmente (SILVA, 2022).

Desafios e Oportunidades na Curadoria Digital

Apesar das inovações, a curadoria de esculturas romanas no ambiente digital apresenta desafios. A autenticidade das réplicas digitais, a preservação de metadados contextuais e a garantia de acesso equitativo são questões cruciais. No entanto, o potencial para criar exposições temáticas personalizadas, integrar diferentes mídias e fomentar a participação ativa do público é imenso. A escultura romana no ambiente digital não é apenas um repositório de dados, mas um espaço em constante construção de significado, onde o passado e o presente se entrelaçam em narrativas complexas e participativas.

Conclusão

A presença da escultura romana na era digital transcende a mera representação. Ela se manifesta como um ecossistema cultural vibrante, onde a conservação encontra a inovação tecnológica, e a história dialoga com as linguagens contemporâneas. Longe de perder seu valor, a escultura romana ganha novas camadas de significado e relevância, provando sua resiliência e adaptabilidade em um mundo cada vez mais conectado.

Referências Bibliográficas

  • JENKINS, Henry. Convergence Culture: Where Old Media and New Media Collide. New York: New York University Press, 2006.
  • NUNES, Ana Lúcia. Museus e Digital: Novas Fronteiras para a Mediação Cultural. Lisboa: Edições Colibri, 2019.
  • SILVA, Pedro. Realidade Virtual e Patrimônio Cultural: Imersão e Reconstrução do Passado. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Folclore Brasileiro: Estéticas Vivas de Resistência e Reinvenção Cultural

Mais do que apenas narrativas e rituais, o folclore brasileiro se manifesta como uma complexa estética da terra, do gesto e da coletividade. Em cada dança, cantiga ou brincadeira ritual, estão inscritos modos de sentir e pensar que transcendem as lógicas lineares e racionalistas da modernidade ocidental. Como destacam os estudos da estética decolonial (Quijano, 2005; Mignolo, 2017), os saberes populares não são meras "formas alternativas" de conhecimento; eles constituem universos ontológicos próprios, onde corpo, território e espiritualidade se entrelaçam em uma trama indissociável.

A exuberância do Bumba Meu Boi, por exemplo, vai além da performance. Ela mobiliza mitos de morte e renascimento, conecta os ciclos da terra aos ciclos do corpo e reconstrói coletivamente memórias de resistência negra e indígena no Brasil profundo. A riqueza de suas cores, máscaras e músicas não é apenas ornamental; é política. Ela desafia a monotonia do mundo técnico e reativa o encantamento como uma forma vital de sobrevivência cultural.

Folclore Urbano e Reexistência nas Periferias

Se historicamente o folclore foi associado ao "interior" ou ao "mundo rural", hoje ele pulsa vibrantemente nos centros urbanos, especialmente nas periferias e favelas. Manifestações como o funk, o rap, o slam, o grafite e o passinho podem ser compreendidas como formas contemporâneas de folclore. São práticas populares de expressão coletiva que atualizam a resistência cultural em novas linguagens e contextos, provando a natureza dinâmica e adaptável do folclore.

Essas práticas emergem como "gramáticas da reexistência", nos termos de Sueli Carneiro (2003), pois elaboram estratégias simbólicas para reverter o silenciamento e a precarização social. Longe de serem meras reproduções, o folclore urbano cria novas estéticas e formas de pertencimento, conectando tradição e inovação, ancestralidade e invenção. Nesse sentido, o folclore não é um passado fossilizado, mas um campo vivo e dinâmico onde o povo se reinventa a cada gesto, em um diálogo constante com as dores e potências do presente.

Política do Encantamento e Utopias Comunitárias

Diante do avanço de narrativas tecnocráticas, produtivistas e individualistas, o folclore nos propõe uma lógica distinta: a lógica do encantamento. Os mitos, as danças e as festas populares não se desconectam da vida; eles a expandem. Funcionam como tecnologias afetivas e poéticas que nos lembram que viver é também celebrar, cuidar, rir, cantar e partilhar.

A "política do encantamento", como sugerem autores como Eduardo Viveiros de Castro e Deborah Danowski (2014), não é uma evasão da realidade, mas uma insurgência ética e estética contra o desencantamento neoliberal. Ela devolve valor àquilo que foi reduzido à mera utilidade: o tempo compartilhado, o silêncio ritual, o corpo em comunhão com o outro e com o mundo.

Portanto, revisitar o folclore à luz das crises contemporâneas – sejam elas sociais, ecológicas ou espirituais – é repensar as bases do que entendemos como vida digna. É propor uma utopia comunitária ancorada na escuta, na reciprocidade e no reconhecimento das diferenças como uma riqueza inestimável. O folclore brasileiro se firma, assim, não apenas como um repositório de tradições, mas como um motor para a construção de futuros mais justos e encantados.

Referências Bibliográficas

  • CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2003.
  • CUNHA, Paulo. Encantarias do povo: performances e religiosidade popular no Brasil. São Paulo: Edições Sesc, 2021.
  • DIONÍSIO, Oswaldo. Festas populares e resistência cultural. Recife: Fundarpe, 2012.
  • MIGNOLO, Walter. Estética decolonial: arte, método e política. São Paulo: UBU Editora, 2017.
  • NASCIMENTO, Abdias do. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. São Paulo: Perspectiva, 1980.
  • QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: Lander, Edgardo (org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
  • VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo; DANOWSKI, Déborah. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. São Paulo: Cultura e Barbárie, 2014.

Escultura Grega no Século XXI: Ressignificações Globais, Debates Contempâneos e o Futuro Digital do Cânone Clássico

A escultura grega não é apenas uma relíquia do passado, mas uma força viva que continua a moldar e ser moldada por discussões contemporâneas sobre estética, identidade e circulação transcultural. Originalmente um símbolo de excelência no Mediterrâneo antigo, ela transcendeu fronteiras para se tornar um ícone global de beleza idealizada e representação do corpo humano. Hoje, no século XXI, seu legado é revisitado em museus, academias e, crucialmente, por artistas e comunidades ao redor do mundo. As formas canônicas, outrora tidas como universais, são agora compreendidas como signos carregados de significados culturais e ideológicos que incitam novos debates.

Arte Global e Releituras Decoloniais

No cenário artístico globalizado, a escultura grega é um ponto de partida para artistas contemporâneos que a utilizam para questionar noções de identidade, colonialismo e normatividade estética. Em diversas partes do Sul Global, escultores reinterpretam o cânone clássico para expressar suas próprias experiências de memória, resistência e corporeidade. A estética grega, nesse contexto, deixa de ser um modelo intocável para se tornar um objeto de análise e reconfiguração simbólica. Como bem observou Chinua Achebe (2009), "nenhuma cultura é mais legítima que outra — tudo depende da voz e da agência por trás da narrativa".

Essa ressignificação é notável nas obras de Yinka Shonibare, um artista britânico-nigeriano. Ele combina formas clássicas com padrões de tecidos africanos, desconstruindo a autoridade da escultura ocidental e evidenciando suas camadas coloniais. Suas esculturas híbridas não só desafiam o universalismo eurocêntrico, mas também trazem à tona as narrativas silenciadas de culturas subalternizadas, convidando o público a refletir sobre os complexos processos de circulação e apropriação cultural.

Escultura e o Corpo como Palco Político

A escultura grega também se encontra no cerne das discussões contemporâneas sobre gênero, representação corporal e normatividade. Por séculos, os modelos estéticos gregos, especialmente a figura masculina atlética e heroica, influenciaram os padrões ocidentais de beleza e poder. Contudo, artistas trans, queer e decoloniais têm desafiado esses paradigmas, expondo como o corpo na escultura clássica foi historicamente utilizado para legitimar exclusões.

Instalações contemporâneas, como as da artista canadense Cassils, utilizam moldes corporais em gesso e mármore para desconstruir a ideia de um corpo ideal. Ao transformar o corpo em um campo de disputa, essas obras questionam o legado normativo da escultura grega, demonstrando que o "clássico" pode e deve ser problematizado à luz das realidades plurais do presente.

Conexões Digitais e Patrimônio Imaterial

A escultura grega também encontrou seu lugar no universo digital. Graças aos avanços da digitalização em 3D e das tecnologias de realidade aumentada, é possível acessar, estudar e recriar esculturas de forma virtual e interativa. Projetos como o "Scan the World" e o "Parthenon 3D" oferecem a estudantes, pesquisadores e ao público em geral acesso remoto a obras que antes estavam restritas a espaços elitizados.

Essa ampliação do acesso digital à escultura clássica levanta questões importantes sobre a democratização do conhecimento e a reconfiguração das experiências museológicas. Além disso, abre caminho para práticas de remixagem cultural, nas quais comunidades locais reapropriam essas formas para fins educativos, artísticos e identitários, impulsionando um novo ciclo de circulação transcultural e conferindo à escultura grega um patrimônio imaterial em constante evolução.

Novas Perspectivas e o Futuro da Escultura Grega

À medida que a tecnologia avança e as sensibilidades culturais se aprofundam, a escultura grega continuará a ser um terreno fértil para a experimentação e o questionamento. A democratização do acesso, facilitada pelo ambiente digital, permite que mais vozes participem da sua interpretação e ressignificação. Museus, por sua vez, estão sendo desafiados a repensar suas narrativas e a integrar perspectivas mais diversas sobre suas coleções. Isso inclui não apenas o reconhecimento das influências externas na própria arte grega, mas também a apresentação de como essas obras foram e continuam sendo recepcionadas e transformadas em diferentes contextos culturais.

Em um mundo cada vez mais interconectado, a escultura grega, longe de ser uma relíquia estática, permanece um catalisador para diálogos complexos sobre identidade global, história compartilhada e a contínua reinvenção da arte. Ela nos lembra que, embora as formas possam perdurar, seus significados estão sempre em fluxo, moldados pelas mãos e mentes daqueles que as percebem e as reinterpretam.

 

Referências Bibliográficas

  • ACHEBE, Chinua. Education and the Role of Culture. Cambridge: Harvard University Press, 2009.
  • KOPYTOFF, Igor. “The Cultural Biography of Things.” In: APPADURAI, Arjun (ed.). The Social Life of Things: Commodities in Cultural Perspective. Cambridge University Press, 1986.
  • OSBORNE, Robin. The History Written on the Classical Greek Body. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.
  • SHONIBARE, Yinka. Colonial Legacies and Aesthetic Disruptions. Tate Modern Talks, 2018.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

O Futuro da Escrita Maia no Ambiente Digital: Resistência, Inovação e Utopia

A emergência da escrita maia no cenário digital transcende a mera preservação cultural; ela representa um poderoso ato de autonomia e reconstrução territorial. Longe de ser uma simples digitalização de um legado linguístico, a presença maia no ambiente virtual é uma prática epistemológica situada, profundamente enraizada em seus territórios culturais, mas também em constante diálogo com as correntes globais de informação (Fox Tree, 2017).

Educação e Territorialidade: O Elo entre Saberes Tradicionais e Tecnologia

O papel das escolas comunitárias e universidades interculturais é crucial nesse processo. Elas funcionam como pontes entre os conhecimentos ancestrais e as metodologias tecnológicas contemporâneas. Nesses espaços, o ensino da escrita maia é integrado a projetos de agroecologia, história oral e cartografia indígena, solidificando a conexão intrínseca entre linguagem, terra e identidade (Fox Tree, 2017). Essa abordagem educacional não se limita à transmissão de conteúdo, mas se torna um meio para os jovens maias redefinirem o propósito da educação, utilizando a escrita como ferramenta para reivindicar espaço político, mapear afetos e construir currículos que espelham sua cosmovisão. O glifo transcende seu significado simbólico, tornando-se um instrumento de demarcação e resistência contra a hegemonia cultural.

Cibergrafia Indígena: A "Hackeação do Sagrado" e a Resistência Epistemológica

A incursão digital da escrita maia deu origem a uma nova forma de insurgência intelectual: a "hackeação do sagrado". Ao incorporar glifos em linguagens de programação, interfaces gráficas e design de jogos, ciberativistas maias questionam as hierarquias tradicionais do conhecimento. Eles demonstram que a alta tecnologia pode ser um terreno fértil para o florescimento de epistemologias alternativas. Essa prática vai além da digitalização de glifos antigos; ela envolve a criação de novos glifos, atualizados com símbolos contemporâneos e significados ressignificados, que combinam humor, crítica social e espiritualidade.

Essas manifestações podem ser compreendidas como "cibergrafia indígena" – um termo proposto para descrever como as comunidades originárias reinserem seus sistemas simbólicos na internet. É uma forma de escrita insurgente que, simultaneamente, evoca ancestrais e divindades, enquanto dialoga com algoritmos e metadados, desafiando tanto os paradigmas da linguística quanto os cânones da tecnologia digital (Simpson, 2014).

Códices do Porvir: Utopias Indígenas e Arquiteturas Digitais

Em um cenário global marcado por discursos de crise ecológica, colapso civilizatório e esgotamento de sentido, a escrita maia digitalizada oferece uma perspectiva de futuro alternativa. Seus traços curvilíneos e imagens cerimoniais evocam uma estética que rejeita o progresso linear, propondo uma visão cíclica do tempo e do conhecimento. As comunidades que digitalizam seus códices e alimentam repositórios linguísticos não estão apenas olhando para o passado, mas estão ativamente desenhando um futuro onde memória e inovação coexistem (Kaqchikel Maya Digital Collective, 2020).

Longe de museificar a escrita, os projetos digitais liderados por programadores indígenas a reposicionam como uma ferramenta de transformação social, reconstrução espiritual e reterritorialização simbólica. Assim, os "códices do porvir" não serão meros arquivos, mas sim plataformas vivas de sonho coletivo, onde a palavra se materializa em mundo e o glifo se torna um portal para mundos possíveis (Escobar, 2018). Essa visão aponta para um futuro onde a tecnologia serve à autodeterminação cultural e à construção de novas realidades.

Referências Bibliográficas

  • Escobar, A. (2018). Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Duke University Press.
  • Fox Tree, E. A. (2017). Revitalizing Maya Writing through Digital Media. In: Indigenous Language Revitalization and Technology. Routledge.
  • Kaqchikel Maya Digital Collective. (2020). Códices Vivos: Arte, Memoria y Software Libre. Editorial Autónoma de los Pueblos.
  • Simpson, L. B. (2014). Land as pedagogy: Nishnaabeg intelligence and rebellious transformation. Decolonization: Indigeneity, Education & Society, 3(3), 1–25.