Radio Evangélica

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Desvendando o Brasil na Segunda Guerra: Uma Resenha de "1942: O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida", de João Barone

João Barone, conhecido baterista dos Paralamas do Sucesso, revela-se um historiador apaixonado e meticuloso em "1942: O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida".

O livro é uma imersão profunda e cativante na participação do Brasil no maior conflito da história — um período muitas vezes negligenciado ou envolto em mitos na memória nacional.

Barone não apenas narra os eventos, mas os contextualiza com riqueza de detalhes: desde a complexa política varguista até o dia a dia dos pracinhas nos campos de batalha italianos.

Leia também: LZ 127 Graf Zeppelin: O Gigante que Conquistou os Céus — outro marco da engenharia e da história mundial que cruzou os céus brasileiros.


Os Primeiros Ventos da Guerra e a Política do Pêndulo

Inicialmente neutro, o Brasil sob Getúlio Vargas praticava uma “política pendular”, equilibrando-se entre as potências do Eixo e os Aliados para extrair o máximo de benefícios econômicos e militares.

Barone explora essa ambiguidade, destacando o “namoro com o nazismo” e os receios americanos da influência germânica no Brasil. Contudo, a entrada do país na guerra foi precipitada por uma série brutal de torpedeamentos de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães e italianos em 1942.

O terror causado por esses ataques — como o afundamento do Itagiba e do Arará — ceifou centenas de vidas. A pressão popular diante das imagens chocantes de corpos chegando às praias forçou Vargas a se posicionar.
Em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra ao Eixo.

“A participação dos brasileiros na maior e mais cruel guerra já vivida pela humanidade foi uma página marcante em nossa história. Mas é surpreendente constatar que, depois de sete décadas, permaneça cercada de tabus e versões errôneas, sofrendo um esquecimento incompreensível, inaceitável.”
João Barone, capítulo “A Segunda Guerra Hoje”

O Nascimento da Força Expedicionária Brasileira (FEB)

A formação da FEB é um dos pontos altos do livro, retratada com todas as suas dificuldades e improvisações. Barone narra o desafio de “arregimentar (e capacitar) homens” para uma guerra moderna, partindo de um exército defasado em armamentos e doutrinas.

A célebre frase “É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil mandar soldados para a guerra” tornou-se um símbolo do ceticismo da época — mas a cobra fumou.
O Brasil enviou mais de 25 mil homens para lutar na Itália.

Barone destaca a adaptação dos pracinhas — muitos deles jovens humildes, sem experiência militar — às duras condições do front, do frio rigoroso dos Apeninos às armadilhas deixadas pelos alemães.
O “jeitinho brasileiro” também se manifestou, como no uso criativo de latas de goiabada para treinar a detecção de minas terrestres.

A FEB era, apesar de tudo, um espelho da sociedade brasileira, com suas “fileiras quase democráticas”. O autor menciona a surpresa dos americanos ao verem a integração racial nas tropas brasileiras, contrastando com a segregação ainda vigente nos exércitos Aliados.

No Coração do Conflito: As Ações da FEB na Itália

A narrativa ganha intensidade ao descrever as batalhas da FEB no teatro italiano — especialmente as de Monte Castello e Montese.
Barone humaniza a guerra ao relatar histórias como as do sargento Medrado, que sobreviveu a múltiplos ferimentos, e do sargento Max Wolff Filho, herói que tombou em combate.

A rendição de uma divisão alemã inteira em Fornovo di Taro, cercada pelos “caboclos” brasileiros, é apresentada como um feito inédito e surpreendente.

Barone também destaca a atuação da Força Aérea Brasileira (FAB), com o lendário 1º Grupo de Aviação de Caça — “Senta a Pua!”.
Histórias como a do tenente Danilo Marques Moura, abatido e depois retornando heroicamente à base, demonstram a tenacidade dos aviadores.

Veja também: Luís Joaquim dos Santos Marrocos: O Guardião da Memória Real e Cronista da Corte Portuguesa no Brasil.

Para conhecer o legado do “Senta a Pua!”, visite o Museu da Força Aérea Brasileira e explore os registros da aviação de caça na Segunda Guerra.

Os Bastidores e as Consequências da Guerra

O autor vai além dos combates: analisa os bastidores da política externa, a influência dos EUA com a “política da boa vizinhança”, e o “front interno” — incluindo o drama dos “soldados da borracha” na Amazônia.

Barone também aborda a xenofobia e a perseguição a imigrantes alemães, italianos e japoneses, e destaca figuras como o embaixador Souza Dantas, o “Schindler brasileiro”, que salvou judeus do Holocausto.

O pós-guerra surge com uma melancólica reflexão sobre o “triunfo ao silêncio”.
Os ex-combatentes, antes celebrados, foram rapidamente esquecidos pelo governo.
O autor lembra a proibição do uso de uniformes e medalhas — símbolo de um país que tentava silenciar seus heróis.

Uma Contribuição Essencial à História Brasileira

"1942: O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida" é mais que um relato histórico: é uma reflexão sobre identidade, memória e reconhecimento nacional.

Com linguagem acessível e envolvente, João Barone mistura o rigor da pesquisa com a vivacidade das histórias pessoais, construindo uma narrativa rica e emocionante.

Ele recorre a fontes variadas — documentos oficiais, relatos de veteranos e crônicas de correspondentes como Rubem Braga e Joel Silveira — para preencher lacunas e corrigir injustiças da memória histórica.

Conclusão: Um Livro Para Refletir e Valorizar Nossa História

Para Joabson João, contador autônomo e estudante de Negócios Imobiliários com interesse em marketing digital e programação, esta obra oferece mais do que história:
é uma lição sobre resiliência, estratégia e valorização da própria trajetória.

Mesmo em tempos de guerra, o “jeitinho brasileiro” e a capacidade de adaptação podem operar milagres.


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Se você se interessou por essa história fascinante da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, não hesite!

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domingo, 12 de outubro de 2025

LZ 127 Graf Zeppelin: O Dirigível Que Conquistou os Céus e o Mundo

Conheça a história do Graf Zeppelin, o dirigível alemão que redefiniu o luxo, a engenharia e as viagens aéreas nas décadas de 1920 e 1930.

Houve um tempo em que o futuro das viagens de longa distância não pertencia aos aviões, mas a colossais e silenciosos gigantes que deslizavam pelo céu. O maior expoente dessa era foi o LZ 127 Graf Zeppelin, uma maravilha da engenharia alemã que capturou a imaginação do mundo e se tornou um ícone de luxo, inovação e ambição.

Mais do que uma máquina, o dirigível personificou o “espírito do Zeppelin”: uma combinação de majestade, sofisticação técnica e a promessa de um novo modo de conectar o planeta.

A Gênese de um Titã da Engenharia

Construído pela Luftschiffbau Zeppelin e comandado pelo visionário Hugo Eckener, o LZ 127 representou o auge da tecnologia de dirigíveis rígidos. Sua estrutura era uma complexa treliça de duralumínio, coberta por um tecido de algodão tratado para refletir a luz solar e minimizar o aquecimento do hidrogênio inflamável em seu interior.

Com 236 metros de comprimento, o Graf Zeppelin era, em 1928, a maior aeronave do mundo. Impulsionado por cinco motores Maybach de 550 cv, usava o inovador gás Blau (ou “gás azul”) como combustível — o que permitia um equilíbrio perfeito de peso e uma autonomia superior a 10.000 quilômetros, algo inédito na época.

Um Embaixador Global e Símbolo de Luxo

O Graf Zeppelin não foi apenas um feito técnico, mas também um fenômeno cultural. Em 1929, realizou uma espetacular volta ao mundo, partindo de Lakehurst (EUA) e passando por Friedrichshafen (Alemanha), Tóquio e Los Angeles, completando a jornada em apenas 21 dias.

Essa façanha transformou o dirigível e seu comandante Hugo Eckener em celebridades internacionais.

A bordo, os passageiros desfrutavam de um luxo comparável ao dos melhores navios transatlânticos:

  • salas de jantar e estar com janelas panorâmicas,
  • cabines confortáveis, e
  • um serviço de bordo de primeira classe.

Sabia que o Graf Zeppelin fez voos regulares para o Brasil?
Ele foi responsável pela primeira linha aérea transatlântica regular da história, transportando passageiros e correio entre a Alemanha e o Brasil, com escalas no Rio de Janeiro e Recife.

O Fim de uma Era Dourada

Apesar de seu impecável registro de segurança — 590 voos e mais de 13.000 passageiros sem feridos —, a era dos grandes dirigíveis terminou tragicamente após o desastre do Hindenburg (LZ 129) em 1937.

Mesmo sendo uma aeronave distinta, o Graf Zeppelin foi aposentado pouco depois, e em 1940 acabou desmontado para que seu alumínio fosse reutilizado na Segunda Guerra Mundial.

O fim do Graf Zeppelin marcou não apenas o declínio dos dirigíveis, mas também o fim de uma era de viagens lentas, luxuosas e contemplativas.

Referências Bibliográficas

CHALINE, Eric. 50 Máquinas que Mudaram o Rumo da História. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

Airships.net – LZ-127 Graf Zeppelin – Arquivo técnico detalhado sobre sua história e voos.

Smithsonian National Air and Space Museum – Referência mundial em história da aviação.

Osíris: O Mito da Ressurreição e o Juiz do Além no Egito Antigo

No vasto e fascinante panteão do Egito Antigo, poucas divindades possuem a centralidade e a complexidade de Osíris. Mais do que um simples deus, ele é o epicentro de um dos mitos mais fundamentais da civilização egípcia, personificando os ciclos de morte e renascimento, a fertilidade da terra e a justiça no além-vida. Compreender Osíris é mergulhar no coração da espiritualidade e da visão de mundo dos antigos egípcios.

O Mito de Osíris: Traição, Morte e Ressurreição

A história de Osíris é uma epopeia de ordem, caos, amor e redenção, que formou a base para muitas das práticas funerárias e crenças sobre a imortalidade.

O Reinado Justo e a Inveja Fraterna

Osíris, filho primogênito de Geb (deus da terra) e Nut (deusa do céu), herdou o trono do Egito e governou com sabedoria e benevolência. Ao lado de sua irmã e esposa, a poderosa deusa Ísis, ele ensinou aos humanos a agricultura, as leis, a adoração aos deuses e a civilização. Seu reinado foi uma era de ouro, marcada pela paz e prosperidade.

Contudo, seu sucesso despertou uma inveja mortal em seu irmão, Set, o deus do caos, das tempestades e do deserto. Determinado a usurpar o trono, Set elaborou um plano ardiloso.

A Traição e o Assassinato

Durante um grandioso banquete, Set apresentou um magnífico sarcófago, prometendo presenteá-lo a quem coubesse perfeitamente dentro dele. A caixa havia sido secretamente construída sob as medidas exatas de Osíris. Um a um, os convidados tentaram, sem sucesso. Quando chegou a vez de Osíris, ele se deitou no sarcófago e coube perfeitamente. Imediatamente, Set e seus cúmplices fecharam a tampa, selaram-na com chumbo derretido e a atiraram no rio Nilo. O caixão flutuou até o mar e acabou encalhado na cidade de Biblos (na atual Fenícia), onde uma árvore de tamarisco cresceu ao seu redor.

A Busca de Ísis e a Primeira Ressurreição

Desolada, Ísis partiu em uma busca incansável pelo marido. Após muitas provações, ela encontrou o sarcófago dentro do pilar do palácio do rei de Biblos. Ela o trouxe de volta ao Egito e, usando seus vastos poderes mágicos, conseguiu reanimar Osíris por tempo suficiente para conceber um herdeiro: Hórus.

No entanto, a tragédia ainda não havia terminado. Set, durante uma caçada noturna, descobriu o corpo de Osíris. Em um acesso de fúria, ele o desmembrou em quatorze pedaços e os espalhou por todo o Egito, acreditando que assim impediria para sempre sua ressurreição.

A Recomposição e o Renascimento no Além

Sem se dar por vencida, Ísis, auxiliada por sua irmã Néftis, percorreu novamente o Egito, reunindo cada parte do corpo de Osíris (com exceção do falo, que fora comido por um peixe). Com a ajuda de Anúbis, o deus da mumificação, e de Toth, o deus da sabedoria, as partes foram reunidas. Ísis realizou os ritos de embalsamamento, criando a primeira múmia. Seus feitiços poderosos foram capazes de restituir a vida a Osíris, mas não no mundo dos vivos. Ele renasceu como o soberano do Duat, o submundo egípcio.

O Juiz dos Mortos e o Senhor do Duat

Após sua ressurreição, Osíris assumiu seu papel mais duradouro: o de juiz supremo das almas. No Salão das Duas Verdades, ocorria a cerimônia da "Pesagem do Coração" (Psicostasia). O coração do falecido era colocado em um prato de uma balança, e no outro, a pena de Ma'at, a deusa da verdade e da justiça.

  • Se o coração fosse mais leve ou igual à pena, significava que o indivíduo levara uma vida virtuosa. A alma era considerada "justificada" (maa-kheru) e Osíris lhe concedia a vida eterna nos campos de Aaru, uma versão paradisíaca do Egito.
  • Se o coração pesasse mais que a pena, ele era devorado por Ammit, uma criatura demoníaca com partes de crocodilo, leão e hipopótamo. Isso significava a "segunda morte", o fim definitivo da existência da alma.

Principais Símbolos Associados a Osíris

A iconografia de Osíris é rica em simbolismo, refletindo seus múltiplos papéis.

  • A Coroa Atef: Uma coroa branca alta (símbolo do Alto Egito) adornada com duas plumas de avestruz, representando a verdade e a justiça.
  • Pele Verde ou Negra: A cor verde simboliza a vegetação e o renascimento, enquanto a negra remete à fertilidade do lodo do Nilo e ao mundo dos mortos.
  • Forma Mumificada: Seu corpo envolto em bandagens representa sua morte e ressurreição, sendo o protótipo da múmia e do processo necessário para a vida após a morte.
  • Cajado (Heka) e Mangual (Nekhakha): Insígnias da realeza, simbolizando seu papel como rei e pastor de seu povo.
  • Pilar Djed: Um símbolo de estabilidade e durabilidade, frequentemente associado à sua coluna vertebral, representando a força e a permanência de seu reino.

Conclusão: O Legado de Esperança

Osíris não era apenas um deus; ele era a personificação da esperança egípcia na eternidade. Seu mito explicava o ciclo da natureza, validava a autoridade faraônica (cada faraó era visto como uma encarnação de Hórus, o herdeiro de Osíris) e, mais importante, oferecia a promessa de que a morte não era o fim, mas uma transição para um julgamento justo e uma potencial vida eterna. Ele representava a vitória da ordem sobre o caos, da vida sobre a morte, e seu culto permaneceu como um dos pilares da civilização egípcia por milênios.

Referências Bibliográficas

BUDGE, E. A. Wallis. The Egyptian Book of the Dead: The Papyrus of Ani in the British Museum. Dover Publications, 1967.

HART, George. The Routledge Dictionary of Egyptian Gods and Goddesses. Routledge, 2005.

PINCH, Geraldine. Egyptian Mythology: A Guide to the Gods, Goddesses, and Traditions of Ancient Egypt. Oxford University Press, 2004.

SHAW, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. Oxford University Press, 2003.

WILKINSON, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. Thames & Hudson, 2003.

sábado, 11 de outubro de 2025

A Crise do Século III: O Império Romano à Beira do Colapso

O período conhecido como a Crise do Século III (aproximadamente 235-284 d.C.) representa um dos momentos mais turbulentos e decisivos da história romana. Após séculos de relativa estabilidade sob a Pax Romana, o Império mergulhou em um ciclo vicioso de guerra civil, invasões bárbaras, colapso econômico e instabilidade política que quase o levou à desintegração completa. Este foi o ponto de inflexão que marcou o fim do Principado e preparou o terreno para a era autocrática do Dominato.

A Tempestade Perfeita: Anarquia Militar e Pressões Externas

O estopim da crise foi o assassinato do imperador Alexandre Severo em 235 d.C. por suas próprias tropas. Este evento inaugurou a era dos "Imperadores de Caserna": generais que eram proclamados imperadores por seus exércitos, governavam por um curto período e, invariavelmente, eram assassinados por um rival. Em cerca de 50 anos, mais de 25 imperadores (sem contar os usurpadores) ascenderam e caíram, criando um estado de anarquia militar permanente.

Simultaneamente, as fronteiras do Império, antes seguras, tornaram-se porosas e vulneráveis. No norte, tribos germânicas como os Godos, Alamanos e Francos cruzavam repetidamente os rios Reno e Danúbio, saqueando cidades e devastando províncias. No leste, o agressivo Império Sassânida substituiu os Partas e se tornou uma ameaça existencial, chegando a capturar o imperador Valeriano em batalha em 260 d.C., uma humilhação sem precedentes para Roma.

O Colapso Econômico e Social

A guerra incessante exigia um financiamento desesperado. Para pagar os soldados e sustentar os conflitos, os imperadores recorreram à desvalorização drástica da moeda, especialmente o denário de prata. O teor de metal precioso nas moedas caiu para quase zero, gerando uma hiperinflação galopante. O comércio entrou em colapso, as rotas comerciais tornaram-se inseguras e a economia monetária regrediu para um sistema de trocas e pagamentos em espécie (produtos agrícolas, por exemplo).

A vida urbana, espinha dorsal da civilização romana, deteriorou-se. As cidades encolheram, e a população rural, oprimida por impostos exorbitantes e pela insegurança, abandonou suas terras ou buscou a proteção de grandes latifundiários, em um processo que prenunciava as relações feudais da Idade Média. Para agravar o cenário, a Peste de Cipriano varreu o Império, dizimando a população e a mão de obra.

A Fragmentação do Império: Os Impérios Galo e de Palmira

A incapacidade do governo central em proteger as províncias levou ao surgimento de Estados separatistas. No Ocidente, o Império das Gálias (260-274 d.C.), compreendendo a Gália, Britânia e Hispânia, foi formado para organizar uma defesa local mais eficaz contra as invasões germânicas. No Oriente, o Reino de Palmira, sob a liderança da Rainha Zenóbia, expandiu-se e assumiu o controle do Egito e de grande parte do Levante, desafiando diretamente a autoridade de Roma. Por um momento, o Império Romano se viu dividido em três partes.

A Recuperação e o Advento do Dominato

A recuperação começou com uma série de imperadores enérgicos de origem ilírica. Cláudio II, o Gótico, obteve vitórias cruciais sobre os Godos. Seu sucessor, Aureliano (270-275 d.C.), mereceu o título de Restitutor Orbis ("Restaurador do Mundo") ao derrotar e reintegrar tanto o Império das Gálias quanto o Reino de Palmira, unificando novamente o território romano.

Contudo, foi a ascensão de Diocleciano em 284 d.C. que formalmente encerrou a crise. Suas reformas radicais — incluindo a instituição da Tetrarquia (governo de quatro), a reorganização administrativa e militar, e a reforma tributária — estabilizaram o Império, mas o transformaram permanentemente. O antigo Principado, com suas fachadas republicanas, deu lugar ao Dominato, um sistema abertamente autocrático e burocrático, onde o imperador era um senhor (dominus) absoluto, estabelecendo o modelo para o Império Romano Tardio. A crise não destruiu Roma, mas a forçou a se reinventar de uma forma que a tornaria irreconhecível para os cidadãos da era de Augusto.

Referências Bibliográficas

BROWN, Peter. O Mundo do Fim da Antiguidade: de Marco Aurélio a Maomé. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

GOLDENBERG, André. A Crise do Século III. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.

GOLDsworthy, Adrian. A Queda do Império Romano: a morte de uma superpotência. Tradução de Claudio Blanc. São Paulo: Madras, 2011.

GRANT, Michael. The Roman Emperors: A Biographical Guide to the Rulers of Imperial Rome 31 BC - AD 476. New York: Scribner's, 1985.

Papua-Nova Guiné: Uma Nação de Contrastes entre Tradição e Modernidade

Papua-Nova Guiné é frequentemente definida por sua extraordinária diversidade. Com mais de 800 línguas indígenas e uma miríade de grupos culturais distintos, a nação representa um dos mosaicos humanos mais complexos do planeta. No entanto, por trás dessa heterogeneidade cultural, existe uma estrutura política e social singular, que mescla o legado colonial britânico com as realidades locais. Compreender seu funcionamento exige analisar a interação entre o sistema Westminster, as tradições melanesianas e a ausência de uma autoridade centralizada histórica.

O Sistema de Governo: Monarquia Constitucional Parlamentar

Ao contrário do que o termo "rei" ou "imperador" possa sugerir, Papua-Nova Guiné não possui uma monarquia própria ou uma figura imperial nativa. O país é uma monarquia constitucional parlamentar e um Reino da Commonwealth.

  • O Papel do Monarca: O chefe de Estado de Papua-Nova Guiné é o monarca do Reino Unido, atualmente o Rei Charles III. No entanto, seu papel é puramente cerimonial e simbólico. Ele não exerce qualquer poder político direto sobre o país e é representado localmente pelo Governador-Geral.
  • O Governador-Geral: Esta figura é nomeada pelo monarca sob recomendação do Parlamento Nacional de Papua-Nova Guiné. O Governador-Geral atua como o representante da Coroa, exercendo funções formais como a nomeação do Primeiro-Ministro após as eleições e a sanção de leis aprovadas pelo parlamento. Seu poder real é limitado, e ele age de acordo com o aconselhamento do governo eleito.
  • O Primeiro-Ministro: O verdadeiro poder executivo está nas mãos do Primeiro-Ministro, que é o chefe de governo. Ele é tipicamente o líder do partido ou da coalizão que detém a maioria dos assentos no Parlamento Nacional.

O Parlamento Nacional e a Dinâmica Política

O coração da política de Papua-Nova Guiné é o seu Parlamento Nacional, uma legislatura unicameral.

  • Composição e Eleições: O parlamento é composto por 118 membros eleitos para mandatos de cinco anos. As eleições ocorrem em 89 eleitorados "abertos" (qualquer cidadão pode concorrer) e 22 eleitorados provinciais, além de um eleitorado para a Capital Nacional.
  • Formação de Governo: A política do país é notoriamente fragmentada, com um grande número de partidos políticos e candidatos independentes. Raramente um único partido consegue a maioria absoluta, tornando as coalizões a norma para a formação de governos. Essa dinâmica leva a uma intensa negociação política e, por vezes, a uma considerável instabilidade governamental.

Religião: Sincretismo e Liberdade de Crença

Papua-Nova Guiné não possui uma religião oficial de Estado. A Constituição do país garante a liberdade de crença, pensamento e consciência para todos os cidadãos.

Apesar disso, o cristianismo é a religião predominante, resultado de séculos de atividade missionária. Cerca de 95% da população se identifica como cristã, com a Igreja Católica, a Igreja Luterana e a Igreja Unida sendo as maiores denominações.

No entanto, uma característica fundamental da espiritualidade no país é o sincretismo. Muitas práticas e crenças cristãs são mescladas com religiões e visões de mundo tradicionais, que incluem o culto aos ancestrais, a crença em espíritos da natureza e práticas animistas. Essas crenças tradicionais continuam a desempenhar um papel vital na vida cotidiana de muitas comunidades, especialmente em áreas rurais.

Conclusão

Papua-Nova Guiné apresenta um fascinante estudo de caso de adaptação política e cultural. Sua estrutura de governo, herdada do modelo de Westminster, opera sobre uma base social profundamente diversa e descentralizada. Não há um "rei" local, mas sim um sistema parlamentar onde o poder é disputado democraticamente, embora de forma volátil. A paisagem religiosa, por sua vez, reflete a história do país, combinando uma forte identidade cristã com a resiliência de crenças ancestrais. Analisar Papua-Nova Guiné é, portanto, entender um equilíbrio complexo entre o global e o local, o moderno e o tradicional.

Referências

BROWN, B. J. (ed.). Fashion of Law in New Guinea: Being an Account of the Past, Present and Developing System of Laws in Papua and New Guinea. Sydney: Butterworths, 1969.

Dinnen, Sinclair. Law and Order in a Weak State: Crime and Politics in Papua New Guinea. Honolulu: University of Hawai'i Press, 2001.

PAPUA-NOVA GUINÉ. Constitution of the Independent State of Papua New Guinea. Waigani, 1975.

STANDISH, Bill. Papua New Guinea Politics: The First Fifty Years. Canberra: ANU Press, 2021.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Bumba Meu Boi: A Paixão, Morte e Ressurreição que Pulsa no Coração do Brasil

No vasto universo do folclore brasileiro, poucas manifestações culturais são tão ricas, complexas e vibrantes quanto o Bumba Meu Boi. Celebrado com maior intensidade no estado do Maranhão, este auto popular transcende a simples definição de festa. É uma ópera a céu aberto, um ritual sagrado e uma poderosa narrativa que reflete a fusão das culturas indígena, africana e europeia que formaram o Brasil. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, o Bumba Meu Boi é a expressão máxima da alma de um povo.

A Lenda que Deu Origem a Tudo

O coração do Bumba Meu Boi pulsa a partir de uma lenda singela, mas carregada de simbolismo social. A história mais difundida conta sobre Mãe Catirina, uma trabalhadora escravizada que, grávida, sente um forte desejo de comer a língua do boi mais bonito da fazenda. Para satisfazer sua amada, seu marido, Pai Francisco (ou Nego Chico), sacrifica o animal de estimação do amo.

Ao descobrir a morte de seu boi preferido, o fazendeiro se enfurece e ordena a captura de Pai Francisco, ameaçando-o de morte. Desesperado, Francisco busca a ajuda de pajés e curandeiros que, por meio de seus rituais, conseguem ressuscitar o boi. A ressurreição do animal é celebrada com uma grande festa, e o amo perdoa o casal. Essa narrativa central – o ciclo de paixão, morte e ressurreição – é a espinha dorsal de toda a celebração.

Estrutura e Personagens: Um Teatro Popular

O Bumba Meu Boi é um "auto", uma forma de teatro popular medieval, onde a música, a dança e a performance dramática se unem. A apresentação é dividida em atos principais: o batismo do boi, a morte e, finalmente, a apoteose da ressurreição.

Ao redor da figura central do Boi, interpretado por um homem sob uma armação de madeira coberta de veludo bordado, orbitam diversos personagens icônicos:

  • Pai Francisco e Mãe Catirina: O casal que desencadeia a trama, representando a astúcia e a resistência do povo oprimido.
  • O Amo: O dono da fazenda, que conduz a cantoria e a narrativa com seu sotaque forte e seu maracá.
  • Vaqueiros e Caboclos de Pena: Representam a força e a proteção do boi, com seus trajes exuberantes e coreografias elaboradas.
  • Índios, índias e Tapuias: Personagens que homenageiam os povos originários do Brasil, com vestimentas feitas de penas.
  • Cazumbás (no sotaque da Baixada): Figuras místicas e mascaradas que misturam o cômico e o assustador, responsáveis por animar a festa e proteger o boi.

Os Sotaques: As Diferentes Batidas do Coração do Boi

Uma das maiores riquezas do Bumba Meu Boi maranhense é a sua diversidade de "sotaques", que são as variações rítmicas, de instrumentos, coreografias e indumentárias. Cada sotaque representa uma identidade regional. Os principais são:

  • Sotaque de Matraca: Típico de São Luís, é conhecido pelo som ensurdecedor de duas matracas (pequenos blocos de madeira) batidas uma contra a outra. É um dos mais populares e energéticos.
  • Sotaque de Zabumba: Originário da região de Guimarães, utiliza o zabumba (um grande tambor) como instrumento principal, conferindo um ritmo mais cadenciado e solene.
  • Sotaque de Orquestra: Incorpora instrumentos de sopro como saxofones, clarinetes e trombones, criando uma sonoridade mais melódica e influenciada por bandas musicais.
  • Sotaque da Baixada: Proveniente da Baixada Maranhense, caracteriza-se por seus pandeirões e pelas figuras dos cazumbás.
  • Sotaque Costa de Mão: Raro e considerado um dos mais primitivos, utiliza um instrumento peculiar chamado costa de mão (semelhante a um reco-reco) e pequenos tambores.

Conclusão: Um Patrimônio Vivo

O Bumba Meu Boi é muito mais do que um espetáculo folclórico para turistas. É um complexo mecanismo de coesão social, transmissão de memória e celebração da identidade. Através da história de Francisco e Catirina, a festa subverte hierarquias, celebra a resiliência e reafirma, ano após ano, o poder da vida sobre a morte. É um patrimônio que não está confinado em museus, mas que vive e pulsa com a batida dos tambores e o canto do povo nas ruas do Maranhão.

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Mário de. Danças dramáticas do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 2006.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 12. ed. São Paulo: Global, 2012.

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Cultura popular e sensibilidade romântica. Rio de Janeiro: Funarte, 1988.

PRASS, Luciana. O Bumba-Meu-Boi do Maranhão. Rio de Janeiro: Funarte, 2013. (Coleção Folclore em Cadernos).

A Grécia sob o Domínio Romano: O Fim de uma Era de Autonomia?

A Grécia Antiga, berço da democracia, da filosofia e das artes ocidentais, exerceu uma influência cultural inigualável por séculos. Contudo, a ascensão de uma nova potência no Mediterrâneo, Roma, inevitavelmente colocaria à prova a autonomia e a identidade helênicas. A conquista romana, culminada com a Batalha de Corinto em 146 a.C., marcou o início de um novo capítulo para a Grécia, transformando-a na província da Acaia. Mas isso significou verdadeiramente o fim da sua autonomia?

O Processo de Conquista: Entre a Guerra e a Diplomacia

A intervenção romana na Grécia não foi um evento único, mas um processo gradual. Inicialmente, Roma apresentou-se como uma libertadora, lutando contra a hegemonia macedônica. Após a vitória na Segunda Guerra Macedônica, o general romano Tito Quíncio Flaminino proclamou a "liberdade dos gregos" nos Jogos Ístmicos de 196 a.C., um gesto de grande impacto simbólico.

No entanto, essa liberdade era condicional. Roma esperava que as cidades-estado gregas alinhassem seus interesses aos da República Romana. Conflitos internos e alianças instáveis, como as da Liga Aqueia, levaram a intervenções romanas cada vez mais diretas e severas. A destruição brutal de Corinto em 146 a.C. foi uma demonstração inequívoca de poder, sinalizando que qualquer desafio à autoridade romana seria esmagado.

A Vida sob o Manto de Roma: Continuidade e Transformação

Com a consolidação do domínio romano, a Grécia experimentou um período de relativa paz e estabilidade, a Pax Romana. A administração romana, em geral, respeitou as estruturas locais e as tradições culturais. Cidades como Atenas e Esparta mantiveram um status de "cidades livres" (civitas libera), com autonomia para gerir seus assuntos internos, embora sob a supervisão de um governador romano.

No campo cultural, ocorreu um fenômeno fascinante de sincretismo. Os romanos, profundos admiradores da cultura grega, tornaram-se seus maiores patronos e divulgadores. A elite romana educava seus filhos na Grécia, adotava sua filosofia, literatura e arte. Imperadores como Adriano e Augusto financiaram a construção e a restauração de templos e edifícios públicos por todo o território grego. Esse fenômeno, conhecido como filelenismo, garantiu a preservação e a disseminação do legado helênico por todo o Império.

Contudo, a autonomia política era, em grande parte, uma ilusão. As decisões mais importantes, especialmente em política externa e tributação, estavam firmemente nas mãos de Roma. A economia grega foi reorientada para servir aos interesses do império, e a exploração de recursos naturais e a cobrança de impostos pesados eram uma realidade constante.

Conclusão: O Fim da Autonomia Política, a Sobrevivência da Identidade Cultural

A pergunta sobre o "fim da autonomia grega" não admite uma resposta simples. Do ponto de vista político e militar, a autonomia das cidades-estado gregas chegou, de fato, ao fim. Elas se tornaram engrenagens na vasta máquina imperial romana, desprovidas de soberania real.

Entretanto, do ponto de vista cultural, a Grécia não apenas sobreviveu, como conquistou seu conquistador. O legado helênico foi tão profundo que se tornou a base da cultura greco-romana, que, por sua vez, moldou a civilização ocidental. A perda da independência política foi contrabalançada pela perpetuação e universalização de sua identidade cultural. Assim, a Grécia sob Roma representa um paradoxo: o fim de uma era de poder político, mas o florescimento de uma influência cultural eterna.

Referências

GEAGAN, D. J. Roman Athens: Some Aspects of Life and Culture. I. 200 BC - AD 150. In: TEMPORINI, Hildegard; HAASE, Wolfgang (ed.). Aufstieg und Niedergang der römischen Welt (ANRW). Parte II: Principado. Berlin: De Gruyter, 1979. v. 7.1, p. 371-437.

PAUSÂNIAS. Viagem pela Grécia. Tradução de Lúcia Sálvia de Resende. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

PLUTARCO. Vidas Paralelas. Tradução de Hélio Veiga de Carvalho. São Paulo: Paumape, 1991.

POLÍBIO. Histórias. Tradução de Breno B. da Silveira. Brasília, DF: Editora da Universidade de Brasília, 1985.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Copán: A Atenas do Novo Mundo e o Esplendor da Civilização Maia

Localizada no oeste de Honduras, perto da fronteira com a Guatemala, a cidade-estado de Copán floresceu durante o Período Clássico Maia (c. 250–900 d.C.) e se estabeleceu como um dos centros culturais, políticos e científicos mais importantes de sua época. Frequentemente apelidada de "Atenas do Novo Mundo" por sua sofisticação artística e intelectual, Copán deixou um legado esculpido em pedra que continua a fascinar arqueólogos e historiadores, oferecendo uma janela detalhada para a complexidade da civilização maia.

Uma Capital de Arte e Escultura

O que distingue Copán de outras grandes cidades maias como Tikal ou Calakmul é a sua incomparável produção artística. Os escultores de Copán alcançaram um nível de detalhe e tridimensionalidade raramente visto em outros lugares. Utilizando o tufo vulcânico verde, uma rocha local relativamente macia, eles criaram estelas que são verdadeiros retratos em alto-relevo de seus governantes. Diferente das estelas mais planas de outras regiões, as de Copán são quase estátuas completas, repletas de detalhes sobre as vestimentas, insígnias e feições dos reis.

O apogeu dessa expressão artística ocorreu durante o reinado de Uaxaclajuun Ub'aah K'awiil, mais conhecido como "18 Coelho". Sob seu governo, a praça principal da cidade foi adornada com as mais magníficas estelas, cada uma celebrando um período de tempo e reafirmando o poder divino do governante. Essas obras não eram meramente decorativas; eram narrativas de poder, genealogia e cosmologia.

A Escadaria dos Hieróglifos: Uma Biblioteca de Pedra

Talvez o monumento mais extraordinário de Copán seja a Escadaria dos Hieróglifos. Composta por 63 degraus e contendo mais de 2.200 glifos individuais, esta escadaria monumental constitui o texto maia contínuo mais longo já descoberto. A inscrição narra a história dinástica de Copán, detalhando as vidas, ascensões e rituais dos reis que governaram a cidade por séculos.

Infelizmente, a maior parte dos degraus desabou e foi encontrada fora de ordem, transformando sua decifração em um dos quebra-cabeças arqueológicos mais complexos do mundo. Graças ao trabalho incansável de epigrafistas, grande parte da história de Copán foi recuperada, revelando uma linhagem real iniciada pelo fundador K'inich Yax K'uk' Mo' no início do século V.

Centro de Conhecimento Astronômico

Além de seu brilho artístico, Copán era um centro de vanguarda para o conhecimento científico, especialmente a astronomia. Os maias de Copán realizaram observações celestes com notável precisão, refinando o calendário solar para calcular a duração do ano com uma exatidão que rivalizava com a de seus contemporâneos no Velho Mundo. Monumentos e estelas eram cuidadosamente alinhados para marcar eventos astronômicos importantes, como solstícios e equinócios, integrando a ciência, a arquitetura e a religião em uma visão de mundo unificada.

Ascensão, Apogeu e Declínio

A história de Copán é uma narrativa clássica de ascensão e queda. Fundada como um posto avançado no extremo sudeste do mundo maia, a cidade cresceu em poder e influência, controlando rotas comerciais e centros subsidiários. O longo reinado de "18 Coelho" marcou o auge de seu poder e esplendor.

Contudo, a tragédia se abateu em 738 d.C., quando "18 Coelho" foi capturado e sacrificado por seu vassalo, o rei de Quiriguá, uma cidade vizinha que se rebelou. Este evento chocante marcou um ponto de virada, minando a autoridade política e militar de Copán. Embora a cidade tenha continuado a construir monumentos por mais algumas décadas, ela nunca recuperou completamente seu prestígio. Como muitas outras cidades maias das terras baixas do sul, Copán sofreu um rápido declínio populacional no século IX, um processo conhecido como o Colapso Maia Clássico, provavelmente impulsionado por uma combinação de degradação ambiental, guerra endêmica e instabilidade política.

Hoje, como Patrimônio Mundial da UNESCO, as ruínas de Copán não são apenas um testemunho de uma civilização perdida, mas um arquivo duradouro da genialidade humana em arte, história e ciência.

Referências Bibliográficas

COE, Michael D. The Maya. 9ª edição. Thames & Hudson, 2015.

MARTIN, Simon; GRUBE, Nikolai. Chronicle of the Maya Kings and Queens: Deciphering the Dynasties of the Ancient Maya. 2ª edição. Thames & Hudson, 2008.

SCHELE, Linda; FREIDEL, David. A Forest of Kings: The Untold Story of the Ancient Maya. William Morrow Paperbacks, 1992.

FASH, William L. Scribes, Warriors and Kings: The City of Copán and the Ancient Maya. Thames & Hudson, 2001.

Reflexão sobre Mateus 26:41: A Tensão entre o Espírito e a Carne

"Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca." (Mateus 26:41)

Esta frase, proferida por Jesus no Jardim do Getsêmani, é uma das mais penetrantes de todo o Evangelho. Ela não é apenas um conselho, mas um diagnóstico preciso da condição humana, entregue no momento de maior agonia espiritual de Cristo e de maior falha de seus discípulos mais próximos.

O Contexto: Uma Hora de Agonia e Sonolência

Para compreender a força dessas palavras, precisamos nos transportar para o Getsêmani. Jesus está prestes a ser traído e entregue para a crucificação. Sua alma está "profundamente triste, até a morte" (v. 38). Neste momento de extrema necessidade, Ele pede a Pedro, Tiago e João — seu círculo íntimo — uma única coisa: que vigiassem com Ele.

Ao retornar, Ele os encontra dormindo. A repreensão de Jesus não é de pura raiva, mas de uma tristeza pedagógica. É nesse cenário de angústia divina e fragilidade humana que Ele oferece a instrução e a análise: "Vigiai e orai".

Os Dois Pilares da Resistência Espiritual

Jesus apresenta duas ações interdependentes como antídoto para a tentação:

1. Vigiai (A Vigilância): A vigilância aqui transcende o simples ato de se manter fisicamente acordado. É um chamado à alerta espiritual e autoconsciência. Vigiar é:

  • Reconhecer o ambiente: Entender que estamos em um terreno onde a tentação é real e constante. Não é ser paranoico, mas ser realista sobre as forças espirituais e as pressões mundanas que nos cercam.
  • Conhecer a si mesmo: A vigilância mais eficaz começa com o autoconhecimento. Quais são as minhas fraquezas específicas? Em que áreas a "carne" se manifesta com mais força? É o orgulho, a preguiça, a cobiça, a impaciência, o medo? Para os discípulos, a fraqueza imediata era o cansaço físico que os impedia de cumprir um dever espiritual. Para nós, pode ser o esgotamento gerado por uma rotina exigente, como a sua, que concilia serviço público, contabilidade, jornalismo e estudos. A tentação, nesse caso, pode ser a de negligenciar a vida espiritual em nome da produtividade ou de tomar atalhos éticos por cansaço.

Vigiar é, portanto, manter um estado de prontidão, sabendo onde estão nossas vulnerabilidades.

2. Orai (A Oração): Se a vigilância é o sistema de alarme que detecta a ameaça, a oração é a força que a neutraliza. Jesus não diz "vigiai e lutai com suas próprias forças". Ele diz "vigiai e orai". A oração é o reconhecimento de que, embora a vigilância seja nossa responsabilidade, a força para vencer não vem de nós.

  • Conexão com a Fonte de Poder: A oração nos conecta a Deus, a única fonte de poder capaz de fortalecer nosso espírito para subjugar a fraqueza da carne.
  • Dependência, não autossuficiência: Os discípulos confiavam em sua própria lealdade. Pedro havia acabado de declarar que morreria por Jesus, mas adormeceu. A oração nos move da autoconfiança arrogante para uma dependência humilde. Ela é a admissão de que, sozinhos, falharemos.

A vigilância sem oração leva à ansiedade e ao esgotamento, pois vemos o perigo, mas não temos poder para enfrentá-lo. A oração sem vigilância leva à presunção, esperando que Deus faça tudo enquanto vivemos de forma imprudente. As duas devem andar juntas.

O Diagnóstico: "O espírito está pronto, mas a carne é fraca"

Esta é a parte mais consoladora e, ao mesmo tempo, mais desafiadora do versículo.

  • "O espírito está pronto": Jesus reconhece a boa intenção dos discípulos. Eles O amavam. O espírito deles desejava sinceramente obedecer, ficar acordado e ser leal. Isso se aplica a nós: nosso desejo de agradar a Deus, de fazer o que é certo, de sermos pessoas melhores, é genuíno. Nossas aspirações espirituais são, em geral, nobres.
  • "Mas a carne é fraca": Aqui está a realidade brutal. "Carne" (do grego sarx) não se refere apenas ao corpo físico, mas à nossa natureza humana caída em sua totalidade — nossas limitações físicas, emocionais, psicológicas e nossa propensão ao pecado. A carne sente cansaço, medo, desejo, preguiça e dúvida. Ela puxa para baixo o espírito que anseia por voar.

Jesus não apresenta a fraqueza da carne como uma desculpa para o pecado, mas como uma condição a ser gerenciada. Ele não diz: "Tudo bem, podem dormir, pois a carne é fraca". Ele diz: "É exatamente porque a carne é fraca que vocês precisam vigiar e orar".

Conclusão para a Vida Prática

Para um profissional multifacetado como você, Joabson, este versículo serve como um manual de sobrevivência espiritual e profissional.

  1. Vigilância Estratégica: Identifique os pontos de fadiga em sua rotina. Onde a pressão para comprometer a integridade (na contabilidade ou no jornalismo) é maior? Onde o cansaço ameaça sua dedicação aos estudos ou seu bem-estar espiritual? Este é o seu "Getsêmani" diário.
  2. Oração como Recurso: Transforme a consciência dessas fraquezas em combustível para a oração. Não uma oração genérica, mas específica: "Senhor, hoje sinto a pressão para... dá-me força para ser íntegro". "Sinto-me esgotado e sem vontade de... renova meu espírito".
  3. Aceitação da Luta: Aceite que essa tensão entre o espírito disposto e a carne fraca é parte da jornada cristã nesta vida. Não se desespere com as falhas, mas também não se acomode nelas. A cada "queda no sono", o convite de Cristo para levantar, vigiar e orar novamente permanece de pé.

Em suma, Mateus 26:41 é um chamado ao realismo espiritual. Ele nos ensina a não sermos ingênuos sobre as tentações externas e nossas fraquezas internas, ao mesmo tempo que nos aponta o caminho da dependência de Deus como a única estratégia vitoriosa.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Quipus e Chasquis: A Genial Rede de Informação do Império Inca

O Império Inca, conhecido por sua vasta extensão territorial e complexa organização social, floresceu nos Andes sem um sistema de escrita alfabética como o conhecemos. Para superar este desafio e administrar um domínio que se estendia por milhares de quilômetros, os incas desenvolveram uma rede de comunicação e registro de dados de notável engenhosidade, baseada em dois pilares fundamentais: os quipus e os chasquis. Juntos, eles formavam o sistema nervoso central que permitia ao imperador em Cusco governar com eficiência.

Os Quipus: A Contabilidade em Nós

À primeira vista, um quipu pode parecer um simples objeto decorativo, mas era, na verdade, um sofisticado dispositivo mnemônico e contábil.

O que eram os Quipus?

Um quipu (do quíchua khipu, que significa "nó") consiste em um cordão principal, do qual pendem numerosos cordões secundários. Estes cordões eram feitos de lã de lhama ou alpaca, ou de algodão, e podiam apresentar uma vasta gama de cores. A complexidade do sistema residia na combinação de três elementos principais:

  1. Os Nós: A quantidade e o tipo de nó indicavam valores numéricos. Os incas utilizavam um sistema decimal (base 10). A posição de um nó no cordão determinava sua casa decimal: os nós na parte inferior representavam as unidades; mais acima, as dezenas; depois as centenas, e assim por diante.
  2. As Cores: As cores dos cordões tinham significados simbólicos e categorizavam a informação. Por exemplo, um cordão amarelo poderia se referir a ouro ou milho; um vermelho, a guerreiros ou sangue; um branco, a prata ou paz. A ausência de cor (cordão cru) poderia representar a contagem de itens genéricos.
  3. A Torção e a Posição: A direção da torção dos fios e a forma como os cordões secundários eram amarrados ao principal também podiam carregar informações adicionais, cujo significado exato ainda é objeto de estudo.

Seu uso principal era a contabilidade. Os administradores incas, conhecidos como quipucamayocs ("mestres dos quipus"), utilizavam-nos para registrar censos populacionais, impostos arrecadados, quantidade de colheitas nos armazéns estatais (colcas), número de animais nos rebanhos e movimentação de tropas. Há um debate acadêmico em curso sobre se os quipus também registravam narrativas e histórias, funcionando como uma forma de "escrita tridimensional", mas sua função contábil é inquestionável e comprovada.

Os Chasquis: Os Velozes Mensageiros dos Andes

De nada adiantaria registrar dados se eles não pudessem ser transmitidos rapidamente através do vasto império. É aqui que entravam os chasquis, os corredores de elite que formavam o serviço postal inca.

Quem Eram e Como Operavam?

Os chasquis eram jovens do sexo masculino, selecionados por sua extraordinária capacidade física, velocidade e resistência. Eles operavam em um sistema de revezamento altamente eficiente, utilizando a monumental rede de estradas incas, o Qhapaq Ñan.

Ao longo dessas estradas, a cada poucos quilômetros, havia postos de descanso e revezamento chamados tambos. O sistema funcionava da seguinte maneira:

  1. Um chasqui recebia uma mensagem, que podia ser oral ou um quipu.
  2. Ele corria a toda velocidade até o próximo tambo.
  3. Ao se aproximar, ele soprava um pututu (uma trombeta feita de concha) para alertar o próximo corredor de sua chegada.
  4. No tambo, ele passava a mensagem verbal e/ou entregava o quipu ao chasqui que o esperava. Este, por sua vez, partia imediatamente para o trecho seguinte.

Este sistema de revezamento contínuo permitia que as mensagens viajassem a uma velocidade impressionante. Estima-se que uma mensagem poderia percorrer até 240 quilômetros por dia, permitindo que o Sapa Inca, em Cusco, recebesse notícias de regiões distantes em questão de dias, uma façanha logística sem paralelo na época.

A Integração Perfeita e o Legado

O sistema só atingia sua genialidade máxima na integração entre quipus e chasquis. Um oficial em uma província remota podia registrar a colheita local em um quipu. Este quipu era então entregue a um chasqui, que iniciava a corrida. Através da cadeia de revezamento, o dispositivo de nós chegava a Cusco, onde um quipucamayoq da corte o decifrava, fornecendo ao imperador dados precisos para a tomada de decisões.

Com a chegada dos conquistadores espanhóis, este sistema foi desmantelado. Muitos quipus foram queimados, considerados objetos pagãos ou subversivos. A lógica complexa por trás de sua criação foi em grande parte perdida. Hoje, os quipus e a história dos chasquis permanecem como um poderoso testemunho da sofisticação administrativa, contábil e logística da civilização Inca.

Referências Bibliográficas

  • URTON, Gary. Signs of the Inka Khipu: Binary Coding in the Andean Knotted Cords. Austin: University of Texas Press, 2003.
  • D'ALTROY, Terence N. The Incas. 2ª ed. Malden, MA: Wiley-Blackwell, 2015.
  • HYSLOP, John. The Inka Road System. Orlando: Academic Press, 1984.
  • ASCHER, Marcia; ASCHER, Robert. Code of the Quipu: A Study in Media, Mathematics, and Culture. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1981.
  • ROSTWOROWSKI, María. History of the Inca Realm. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.