Radio Evangélica

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Justiça Imparcial de Deus: Uma Reflexão sobre Colossenses 3:25

 Em um mundo onde a balança da justiça parece, tantas vezes, pender para o lado errado, onde a parcialidade e o favoritismo obscurecem o que é reto, a alma humana clama por equidade. Ansiamos por um padrão absoluto, uma garantia de que as ações, boas ou más, não se perdem no vazio. É nesse cenário de incertezas que a Escritura nos oferece uma âncora de esperança e um severo lembrete, encapsulado de forma sucinta em Colossenses 3:25:

"Pois quem faz o injusto receberá o que fez injustamente; e não há parcialidade."

Esta declaração, escrita pelo apóstolo Paulo à igreja de Colossos, transcende seu contexto histórico e ressoa com força em nossos dias. Ela nos confronta com duas verdades fundamentais sobre o caráter de Deus e a natureza da realidade espiritual: a certeza da retribuição e a absoluta imparcialidade do Juiz.

O Princípio da Responsabilidade Inevitável

A primeira parte do versículo — "quem faz o injusto receberá o que fez injustamente" — estabelece um princípio de causa e efeito moral. É a lei da semeadura e da colheita aplicada à esfera da justiça. Cada ato de fraude, cada palavra de calúnia, cada decisão que oprime o vulnerável ou cada omissão diante da injustiça é registrada. Nada passa despercebido.

Esta verdade funciona como uma advertência solene. Em nossas carreiras, seja no serviço público, na contabilidade, no jornalismo ou em transações imobiliárias, somos constantemente confrontados com a tentação de tomar atalhos, de maquiar a verdade por um ganho imediato ou de favorecer interesses em detrimento do que é correto. Este versículo nos chama a uma autoavaliação rigorosa: nossas ações resistiriam ao escrutínio de um tribunal perfeito? Estamos construindo nosso legado sobre a rocha da integridade ou sobre a areia movediça da conveniência? A promessa é que a colheita, seja ela qual for, é certa.

O Consolo da Justiça Imparcial

A segunda parte do versículo — "e não há parcialidade" — é, talvez, a mais poderosa fonte de consolo para os injustiçados. Vivemos em sistemas humanos onde status, influência, riqueza e conexões podem distorcer vereditos e perverter a justiça. Pessoas são preteridas, exploradas e silenciadas.

Contudo, diante de Deus, esses critérios terrenos se desfazem. O tribunal divino não se impressiona com títulos, cargos ou poder. O Criador do universo enxerga o coração e julga a ação em sua essência. Para aquele que foi lesado, traído ou oprimido, esta é a garantia de que sua causa não está perdida. Pode ser que a justiça humana falhe, mas a justiça divina é infalível e certa. Deus é o vingador dos que não podem se defender e o juiz que retificará cada conta.

Esta imparcialidade divina nos liberta de duas prisões: a amargura e o desejo de vingança. Não precisamos carregar o fardo de "fazer justiça com as próprias mãos", pois podemos entregar nossa causa ao Juiz justo, que fará o que é reto.

Vivendo à Luz da Justiça Eterna

Portanto, Colossenses 3:25 não é apenas uma doutrina abstrata; é um chamado para um estilo de vida.

  1. Como advertência: Inspira-nos a viver com um profundo senso de responsabilidade, sabendo que cada ato nosso tem peso eterno e que prestaremos contas a um Deus que não pode ser enganado.
  2. Como consolo: Fortalece-nos a perseverar com integridade quando somos vítimas da injustiça, confiando que nosso sofrimento é visto e que a justiça final prevalecerá.

Que possamos conduzir nossos negócios, nossas relações e nossa vida interior não apenas sob o olhar da sociedade, mas sob o olhar Daquele para quem não há parcialidade. Pois, no fim, a verdadeira medida de nossas vidas será aferida pela balança perfeita da Sua eterna e imutável justiça.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Pix Ganha "Botão de Contestação" para Combater Fraudes de Forma Mais Ágil e Digital

Brasília – A partir desta quarta-feira, 1º de novembro, os usuários do Pix contam com uma nova ferramenta para contestar transações e reaver valores perdidos em casos de fraude, golpe ou coerção. O "botão de contestação", formalmente conhecido como autoatendimento do Mecanismo Especial de Devolução (MED), promete agilizar o processo de ressarcimento diretamente pelo aplicativo da instituição financeira.

A medida, anunciada pelo Banco Central em agosto, representa um avanço significativo na segurança do Pix, tornando o MED – criado em 2021 para facilitar a devolução de valores – totalmente digital, eliminando a necessidade de contato com as centrais de atendimento.

Agilidade no Bloqueio e Devolução

Ao acionar o botão de contestação, a informação é imediatamente repassada ao banco do suposto golpista. Este, por sua vez, deve bloquear os recursos presentes na conta, mesmo que parcialmente. Após o bloqueio, ambas as instituições financeiras têm até sete dias para analisar a contestação. Se for confirmada a fraude, a devolução é efetuada para a conta da vítima em até onze dias após a contestação.

O Banco Central enfatiza que essa agilidade no processo de autoatendimento do MED é crucial para aumentar as chances de encontrar recursos ainda na conta do fraudador, viabilizando a devolução.

Escopo do MED e Novas Funcionalidades

É fundamental destacar que o MED e seu novo botão de contestação são específicos para casos de fraude, golpe e coerção, não se aplicando a desacordos comerciais, arrependimento de compra, erros de digitação na chave Pix ou situações que envolvam terceiros de boa-fé.

Além do botão, outra importante atualização no MED visa rastrear os "caminhos do dinheiro". A partir de 23 de novembro (de forma facultativa, tornando-se obrigatória em fevereiro do próximo ano), será possível solicitar a devolução de valores que foram transferidos para outras contas, não apenas daquela que recebeu a fraude inicialmente.

Até então, os fraudadores costumavam movimentar rapidamente o dinheiro para outras contas, esvaziando a conta original e dificultando o ressarcimento às vítimas. Com os aprimoramentos, o MED será capaz de identificar essas movimentações, compartilhando as informações entre as instituições financeiras envolvidas, o que deve aumentar a taxa de recuperação dos valores e desincentivar novas fraudes. O BC espera que essa funcionalidade também contribua para a identificação e o bloqueio de contas utilizadas para atividades ilícitas.

Fonte: Agência Brasil

Sítios Monumentais: Testemunhos de Poder e Engenho Inca

As técnicas de construção Inca foram aplicadas em uma variedade de edificações, desde fortalezas militares a centros cerimoniais e propriedades reais.

  • Machu Picchu: A "cidade perdida dos Incas" é, sem dúvida, o exemplo mais famoso da genialidade Inca. Localizada a 2.430 metros de altitude, no topo de uma montanha, a cidadela servia provavelmente como um centro cerimonial e propriedade para o imperador Pachacuti. Sua arquitetura integra-se harmoniosamente à paisagem, com edifícios como o Templo do Sol, construído sobre uma rocha natural com uma janela perfeitamente alinhada para captar a luz do solstício de inverno, e a pedra Intihuatana, um preciso instrumento astronômico. O sistema de terraços agrícolas e canais de água demonstra um planejamento urbano e hidráulico notável.
  • Sacsayhuamán: Localizada nos arredores de Cusco, a antiga capital imperial, Sacsayhuamán é uma fortaleza ou complexo cerimonial cujas muralhas em zigue-zague são um prodígio da engenharia megalítica. Alguns dos blocos de pedra utilizados pesam mais de 120 toneladas e foram transportados por quilômetros até o local de construção. A escala e a precisão de Sacsayhuamán foram tão impressionantes que os primeiros cronistas espanhóis atribuíram sua construção a demônios, incapazes de acreditar que tal obra fosse fruto de mãos humanas.
  • Outros Sítios Relevantes: Sítios como Ollantaytambo, uma imponente fortaleza-cidade com terraços íngremes que serviu como um dos últimos redutos da resistência Inca, e Pisac, com suas elegantes curvas de terraços agrícolas e complexo astronômico, reforçam a onipresença e a consistência da qualidade arquitetônica Inca em todo o império.

Qhapaq Ñan: As Veias do Império

Para administrar um território tão vasto e geograficamente diverso, que se estendia da Colômbia ao Chile, os Incas construíram uma das mais extensas e avançadas redes de estradas do mundo antigo: o Qhapaq Ñan, ou "Caminho Real".

Com mais de 40.000 quilômetros de extensão, o sistema de estradas era a espinha dorsal do império. Ele conectava os principais centros administrativos, militares e religiosos, permitindo o rápido deslocamento de exércitos, administradores, mensageiros (chaskis) e bens. As estradas eram adaptadas ao terreno: em regiões costeiras, eram largas e marcadas por muros baixos; nas montanhas, tornavam-se caminhos pavimentados com pedras, com degraus para vencer as encostas íngremes e sistemas de drenagem para evitar a erosão.

Engenharia de Pontes: Superando Abismos

A travessia de cânions e rios profundos era um desafio constante nos Andes. A solução Inca foi a construção de impressionantes pontes suspensas, feitas de fibras vegetais. A matéria-prima principal era a fibra da gramínea ichu, que era torcida para formar cordas finas, depois trançadas em cabos grossos e resistentes.

Essas pontes, como a famosa Ponte de San Luis Rey da ficção, ou a real e ainda hoje reconstruída Q'eswachaka, podiam alcançar vãos de mais de 50 metros. A manutenção era uma responsabilidade comunitária, com as cordas sendo substituídas anualmente em cerimônias que reafirmavam os laços sociais e o poder do Estado Inca.

Conclusão

A arquitetura e a engenharia Inca representam uma fusão perfeita de funcionalidade, estética e adaptação ao meio ambiente. Através de técnicas inovadoras e de um planejamento meticuloso, eles não apenas construíram estruturas duradouras, mas também unificaram um império vasto e complexo. O legado de Machu Picchu, Sacsayhuamán e do Qhapaq Ñan continua a inspirar admiração, lembrando-nos da capacidade humana de criar ordem e beleza em meio aos maiores desafios naturais.

Referências Bibliográficas

GASPARINI, Graziano; MARGOLIES, Luise. Inca Architecture. Bloomington: Indiana University Press, 1980.

HEMMING, John. The Conquest of the Incas. London: Pan Macmillan, 2004.

PROTZEN, Jean-Pierre. Inca Architecture and Construction at Ollantaytambo. New York: Oxford University Press, 1993.

A Bandeira do Rio Grande do Sul: Símbolo de Luta, Ideal e Tradição

A bandeira do Rio Grande do Sul é mais do que um mero pano colorido; é um estandarte que carrega o peso da história, os ideais de uma república e a alma de um povo. Suas cores vibrantes e o brasão central contam a saga da Revolução Farroupilha, um dos mais significativos movimentos separatistas da história do Brasil, e continuam a inspirar um forte sentimento de identidade regional. Neste artigo, vamos mergulhar na história e na simbologia por trás deste importante símbolo gaúcho.

Origens Históricas: A Bandeira da República Rio-Grandense

A história da bandeira gaúcha está intrinsecamente ligada à Revolução Farroupilha (1835-1845). O conflito, também conhecido como Guerra dos Farrapos, foi uma revolta da elite estancieira gaúcha contra o poder central do Império do Brasil, motivada por questões econômicas (altos impostos sobre o charque) e políticas (busca por maior autonomia provincial).

Em 11 de setembro de 1836, após a vitória na Batalha do Seival, o General Antônio de Sousa Netto proclamou a República Rio-Grandense. Com a nova república, surgiu a necessidade de um pavilhão que a representasse. A bandeira foi instituída oficialmente em 12 de novembro de 1836.

Embora não haja um consenso absoluto sobre sua autoria, a criação do design é frequentemente atribuída a figuras proeminentes do movimento, como Bernardo Pires, José Mariano de Mattos ou Tito Lívio Zambeccari. O desenho original, com suas faixas diagonais, foi pensado para ser distinto e facilmente reconhecível nos campos de batalha.

Após o fim da guerra, com a assinatura do Tratado de Poncho Verde em 1845 e a reintegração do Rio Grande do Sul ao Império, a bandeira foi proscrita. Ela só voltou a ser adotada oficialmente como símbolo do estado em 5 de janeiro de 1966, através da Lei nº 5.213, mantendo o design concebido durante a revolução.

A Simbologia das Cores e do Brasão

Cada elemento da bandeira do Rio Grande do Sul possui um significado profundo, que remete aos valores e à história do povo gaúcho.

As Cores

As três cores diagonais – verde, vermelho e amarelo – são a base da identidade visual da bandeira:

  • Verde: Representa a riqueza dos pampas, a vasta planície que cobre grande parte do território gaúcho, simbolizando a esperança e a liberdade.
  • Vermelho: Posicionado ao centro e em destaque, simboliza a coragem, o heroísmo e o sangue derramado pelos farroupilhas em sua luta pela república e por seus ideais. É a cor da guerra e da bravura.
  • Amarelo: Representa as riquezas minerais do estado e a fé do povo gaúcho em seu futuro.

A disposição diagonal é única entre as bandeiras estaduais brasileiras, conferindo-lhe um caráter dinâmico e combativo.

O Brasão de Armas

No centro da faixa vermelha, encontra-se o brasão de armas da República Rio-Grandense, que adiciona uma camada extra de simbolismo:

  • Lema: Circundando o brasão, a inscrição "Liberdade, Igualdade, Humanidade" se destaca. Este lema foi inspirado nos ideais da Revolução Francesa e também adotado pela maçonaria, que teve forte influência entre os líderes farroupilhas. Ele resume a base filosófica e política do movimento republicano.
  • Barrete Frígio: Dentro do losango, um barrete frígio (um tipo de gorro) paira sobre um conjunto de armas. Este chapéu vermelho era usado na Roma Antiga pelos escravos libertos e foi adotado como um símbolo universal de república e liberdade durante a Revolução Francesa.
  • Armas e Natureza: O brasão é ladeado por ramos de fumo e erva-mate, importantes culturas agrícolas da época, que representam a base econômica e cultural do estado.

Conclusão

A bandeira do Rio Grande do Sul é uma poderosa síntese de sua trajetória histórica e cultural. Ela não apenas representa um estado da federação brasileira, mas também evoca a memória de uma república independente, forjada em ideais de liberdade e bravura. Ao desfraldar suas cores, os gaúchos celebram a resiliência de seus antepassados e reafirmam uma identidade regional que permanece viva e orgulhosa.

Referências Bibliográficas

PESAVENTO, Sandra Jatahy. A Revolução Farroupilha. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

SPALDING, Walter. A Revolução Farroupilha. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1982.

RIO GRANDE DO SUL. Lei nº 5.213, de 5 de janeiro de 1966. Institui o Hino, as Armas e a Bandeira do Estado do Rio Grande do Sul como símbolos oficiais e dá outras providências. Diário Oficial do Estado, Porto Alegre, RS, 6 jan. 1966.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O Coração do Império: Casamentos, Famílias e a Estrutura Doméstica Asteca

Quando pensamos na civilização asteca, nossa mente frequentemente evoca imagens de pirâmides imponentes, guerreiros destemidos e rituais complexos. No entanto, a verdadeira força que sustentava o vasto império Mexica não residia apenas em seu poder militar, mas na sua intrincada e disciplinada organização social, cujo núcleo era a família. Compreender a estrutura dos casamentos, da vida familiar e das unidades domésticas é fundamental para desvendar como essa sociedade floresceu no Vale do México.

O Casamento como Contrato Social e Econômico

Para os astecas, o casamento era muito mais do que a união de dois indivíduos; era um pilar da ordem social e uma aliança estratégica entre famílias. Os arranjos eram frequentemente negociados pelos pais dos noivos, com o auxílio de casamenteiras profissionais (cihuatlanque), que mediavam as propostas.

A astrologia desempenhava um papel crucial. Os sacerdotes consultavam o tonalpohualli, o calendário ritual de 260 dias, para determinar se os signos de nascimento do casal eram compatíveis. Uma data auspiciosa era então escolhida para a cerimônia, que era rica em simbolismo. O ritual mais significativo consistia em amarrar o manto (tilmatli) do noivo à blusa (huipil) da noiva, simbolizando sua união indissolúvel.

Embora a monogamia fosse a norma para a população comum (macehualtin), a poliginia era permitida e praticada pela nobreza (pipiltin). Para os nobres, ter múltiplas esposas não era apenas um sinal de status e riqueza, mas também uma ferramenta política para forjar alianças com diferentes linhagens e consolidar o poder.

A Estrutura Familiar e os Papéis de Gênero

A família asteca era patriarcal, com papéis de gênero claramente definidos, mas complementares. Cada membro tinha responsabilidades essenciais para a sobrevivência e o bem-estar do grupo.

  • O Papel do Homem: O homem era o principal provedor e a cabeça do lar. Suas responsabilidades incluíam o trabalho agrícola, a caça e, fundamentalmente, o serviço militar. O prestígio de um homem estava diretamente ligado à sua bravura como guerreiro e à sua capacidade de capturar inimigos em batalha.
  • O Papel da Mulher: A mulher reinava sobre o domínio doméstico. Suas tarefas eram vitais e altamente valorizadas, incluindo a preparação dos alimentos (especialmente a moagem do milho para fazer tortilhas), a criação dos filhos e a tecelagem. A habilidade de tecer era particularmente prestigiosa; tecidos finos eram uma forma de tributo e um importante bem de troca. As mulheres também administravam os pequenos rituais religiosos domésticos.
  • A Educação das Crianças: A educação asteca era rigorosa e focada na disciplina e no serviço à comunidade. As crianças aprendiam suas futuras responsabilidades desde cedo, acompanhando os pais em suas tarefas. A partir da adolescência, a educação formal era dividida:
    • Telpochcalli (Casa da Juventude): Frequentada pelos filhos dos plebeus, onde recebiam treinamento militar e aprendiam sobre história e ofícios.
    • Calmecac: Reservada para os filhos da nobreza, onde o currículo incluía astronomia, teologia, escrita, administração pública e liderança.

A Vida no Calpulli: A Unidade Doméstica Coletiva

A estrutura social asteca não se limitava à família nuclear. A unidade fundamental da sociedade era o calpulli, um grupo de famílias que alegava descendência de um ancestral comum. Funcionando como um clã, o calpulli controlava terras coletivas, organizava o trabalho e era responsável por pagar tributos ao Estado.

As residências eram geralmente organizadas em complexos multifamiliares, onde várias gerações e ramos de uma mesma família viviam juntos. Essas casas eram construídas em torno de um pátio central, que servia como espaço para atividades domésticas, sociais e rituais. Essa organização promovia a cooperação econômica e fortalecia os laços comunitários. A produção do lar não visava apenas a autossuficiência, mas também a geração de excedentes (tecidos, cerâmica, produtos agrícolas) para o pagamento de tributos que sustentavam o império.

Conclusão

Longe de ser uma sociedade focada apenas na guerra, a civilização asteca era sustentada por uma estrutura familiar e doméstica robusta e altamente organizada. O casamento como aliança, os papéis complementares de gênero, a educação disciplinada e a coesão do calpulli formavam o tecido social que permitia ao império expandir-se e prosperar. Era no lar e na comunidade local que os valores de disciplina, dever cívico e cooperação eram forjados, provando que o coração do poderoso Império Asteca batia dentro de suas casas.

Referências Bibliográficas

CARRASCO, David. The Aztecs: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2012.

HASSIG, Ross. Aztec Warfare: Imperial Expansion and Political Control. Norman: University of Oklahoma Press, 1988..

PHILLIPS, Charles. The Complete Illustrated History of the Aztec & Maya. London: Lorenz Books, 2007.

SOUSTELLE, Jacques. Daily Life of the Aztecs: On the Eve of the Spanish Conquest. Tradução de Patrick O'Brian. Stanford: Stanford University Press, 1970.

TOWNSEND, Camilla. Fifth Sun: A New History of the Aztecs. New York: Oxford University Press, 2019.

O Conde de Palma em Pernambuco: Pacificação e Reconstrução no Pós-Revolução de 1817

A Revolução Pernambucana de 1817 representa um dos mais significativos movimentos pela autonomia na história do Brasil pré-independência. Após 75 dias de uma república efêmera, a repressão da Coroa Portuguesa foi implacável, deixando a província em um estado de desordem social, econômica e política. Nesse cenário de cinzas e ressentimentos, uma figura foi designada para a complexa missão de restabelecer a ordem e a autoridade real: Francisco de Assis Mascarenhas, o Conde de Palma. Sua administração, iniciada em meio a um território conflagrado, foi um delicado exercício de poder, oscilando entre a pacificação e a reconstrução.

O Cenário Pós-Revolucionário

Ao desembarcar em Pernambuco, o Conde de Palma encontrou uma província arrasada. A elite intelectual e comercial que liderara o movimento havia sido desarticulada por meio de prisões, exílios e execuções. A economia, baseada na produção de açúcar e algodão, estava estagnada devido à interrupção do comércio e à fuga de investimentos. Socialmente, o clima era de medo e desconfiança. As feridas abertas pela violenta repressão comandada pelo General Luís do Rego Barreto, antecessor imediato de Palma na gestão militar, criaram um abismo entre a população e a administração colonial. A tarefa, portanto, não era apenas governar, mas curar uma província traumatizada e ressentida.

A Governança da Pacificação

Ciente de que a continuidade de uma política puramente repressiva poderia gerar novas insurreições, a gestão do Conde de Palma foi marcada por uma abordagem mais conciliadora. Seu principal objetivo era desarmar os espíritos e reintegrar Pernambuco à órbita do Império Português de forma estável. Para isso, buscou atenuar o clima de perseguição que se instalara.

Embora a Coroa exigisse firmeza, a administração de Palma procurou equilibrar a aplicação da justiça com gestos de clemência. Aos poucos, buscou-se normalizar a vida na província, reativando as instituições e incentivando o retorno das atividades comerciais. Essa postura de "pacificação" era estratégica: visava não apenas a submissão, mas também a reconstrução da lealdade da elite local, fundamental para a governabilidade de um território tão vasto e economicamente importante.

Os Desafios da Reconstrução e a Complexidade da Governança

Além da pacificação política, o Conde de Palma enfrentou o monumental desafio da reconstrução econômica. A província necessitava urgentemente de investimentos para recuperar suas lavouras, reabrir seus portos e restabelecer as rotas comerciais. Sua administração focou em medidas que pudessem sinalizar segurança e estabilidade para os produtores e comerciantes, incentivando o reaquecimento da economia.

Contudo, governar Pernambuco não era uma tarefa simples. A província possuía uma forte identidade regional e um histórico de resistência ao poder central, fosse ele de Lisboa ou, posteriormente, do Rio de Janeiro. Palma precisou navegar as complexas redes de poder local, lidando com famílias influentes e interesses divergentes. Sua governança demonstrou a dificuldade inerente à administração colonial em um território com fortes tensões regionais e um ideal de autonomia que, embora derrotado militarmente em 1817, permanecia latente na consciência pernambucana. A aparente calma conquistada durante seu governo seria, na verdade, o prelúdio de novos conflitos que eclodiriam nos anos seguintes, como a Confederação do Equador em 1824.

Conclusão

A administração de Francisco de Assis Mascarenhas, o Conde de Palma, foi um capítulo crucial na história de Pernambuco e do Brasil. Sua gestão simboliza a tentativa da Coroa Portuguesa de passar da repressão brutal para uma política de controle mais sutil e administrativa após a queda da Revolução de 1817. Ao equilibrar a necessidade de ordem com a urgência da reconstrução, Palma conseguiu uma estabilização temporária, mas não eliminou as profundas tensões que definiriam o conturbado processo de independência do Brasil e a contínua luta de Pernambuco por maior autonomia política e econômica.

Referências Bibliográficas

BERNARDES, Denis Antônio de Mendonça. O patriotismo constitucional: Pernambuco, 1820-1822. Recife: Editora UFPE, 2006.

MELLO, Evaldo Cabral de. A outra independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.

TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817. 5. ed. Recife: EDUFPE, 2017.

VILLALTA, Luiz Carlos. Pernambuco, 1817: uma república de homens de letras e de clérigos. In: JANCSÓ, István (Org.). Independência: história e historiografia. São Paulo: Hucitec; Fapesp, 2005. p. 487-548.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Mercado Vê Leve Alívio na Inflação, Mas Cenário Exige Juros Altos e Modera Crescimento

Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, mostra que a projeção do IPCA para este ano caiu para 4,81%, mas o indicador permanece acima do teto da meta. Expectativa é de que a taxa Selic se mantenha em 15% para conter os preços.

Brasília – O mercado financeiro ajustou levemente para baixo sua projeção para a inflação oficial do país em 2025, mas o otimismo é contido. De acordo com o Boletim Focus, pesquisa semanal divulgada pelo Banco Central nesta segunda-feira (29), a expectativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou de 4,83% para 4,81%. Apesar da melhora, o número segue acima do teto da meta de 4,5% estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Essa persistência da inflação em patamar elevado justifica a postura rígida do Banco Central em sua política monetária. Para convergir a inflação à meta, a principal ferramenta, a taxa básica de juros (Selic), está ancorada em 15% ao ano. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) sinaliza a intenção de manter a taxa "por período bastante prolongado", uma estratégia para conter a demanda aquecida e estabilizar os preços.

As projeções dos analistas corroboram essa visão, estimando que a Selic encerre 2025 no mesmo patamar de 15%. Apenas para os anos seguintes o mercado prevê um relaxamento, com a taxa caindo para 12,25% ao fim de 2026 e chegando a 10% em 2028.

O Custo do Controle: Impacto no Crescimento Econômico

A manutenção de juros altos, embora necessária para o controle inflacionário, impõe um freio à atividade econômica ao encarecer o crédito e desestimular investimentos e consumo. Esse efeito se reflete nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB).

Para este ano, a estimativa de crescimento da economia foi mantida em 2,16%. No entanto, para os próximos anos, o ritmo esperado é mais modesto: o mercado projeta uma expansão de 1,8% em 2026, seguida por 1,9% em 2027 e 2% em 2028. Esses números indicam que o combate à inflação continuará a ser a prioridade, mesmo que isso signifique um crescimento econômico menos robusto.

Projeções de Longo Prazo e Câmbio

Olhando para o futuro, as instituições financeiras demonstram uma confiança gradual na convergência da inflação para o centro da meta. A projeção para o IPCA em 2026 também teve uma leve queda, para 4,28%, e as estimativas para 2027 e 2028 são de 3,9% e 3,7%, respectivamente, já dentro do intervalo de tolerância.

No que tange ao câmbio, a previsão para a cotação do dólar ao final deste ano é de R$ 5,48. Para o fim de 2026, a expectativa é que a moeda norte-americana se valorize um pouco mais, atingindo R$ 5,58. O cenário traçado, portanto, é de um equilíbrio delicado entre controle de preços, juros elevados e um crescimento econômico que avança de forma contida.

Fonte: Agência Brasil

Crédito Ampliado no Brasil Atinge R$19,7 Trilhões em Agosto, Impulsionado pela Dívida Pública

Indicador, que corresponde a 159% do PIB, reflete expansão dos títulos governamentais. Banco Central também anuncia novas séries estatísticas para monitoramento de fluxos financeiros internacionais.

Brasília, 29/09/2025 – O volume total de crédito na economia brasileira continua em trajetória ascendente. Dados oficiais divulgados nesta segunda-feira revelam que o saldo do crédito ampliado ao setor não financeiro atingiu a marca de R$19,7 trilhões em agosto. Este montante representa 159,0% do Produto Interno Bruto (PIB) e sinaliza um aumento de 1,1% em comparação com o mês de julho.

O crédito ampliado é uma medida abrangente que inclui não apenas os empréstimos e financiamentos concedidos por instituições do Sistema Financeiro Nacional (SFN), mas também a dívida externa e, crucialmente, o estoque de títulos de dívida emitidos por empresas e pelo governo que estão em circulação no mercado. A análise mensal indica que o principal motor por trás do crescimento recente foi, de fato, o aumento de 2,8% no volume de títulos públicos em poder de agentes econômicos, um reflexo da dinâmica de financiamento do Estado e da demanda do mercado por esses ativos.

Analisando a perspectiva de longo prazo, o crescimento é ainda mais notável. Nos últimos doze meses, o indicador de crédito ampliado registrou uma expansão de 11,7%. Novamente, o destaque fica por conta dos títulos da dívida pública, cujo estoque em poder do mercado cresceu 17,0% no mesmo período. Este movimento ocorreu em paralelo à evolução dos empréstimos tradicionais do SFN, demonstrando que a expansão do crédito na economia nacional possui múltiplas frentes.

Este cenário evidencia a crescente importância da dívida pública não apenas como instrumento de política fiscal para o governo, mas também como um componente central para a liquidez e o financiamento da economia como um todo. A absorção desses títulos pelo setor não financeiro (famílias, empresas e investidores institucionais) é um fator determinante para a composição do crédito total.

Aprimoramento da Transparência Estatística

Juntamente com os dados de crédito, a autoridade monetária anunciou uma iniciativa para aumentar a granularidade e a transparência das estatísticas financeiras. Foram disponibilizadas oito novas séries de dados que detalham as posições internacionais dos bancos que operam no país.

Essas novas séries permitem um acompanhamento mais preciso de fluxos financeiros específicos, tais como:

  • Ativos sobre o Reino Unido: Monitoramento dos ativos que bancos locais possuem relacionados à economia britânica.
  • Passivos Internacionais: Detalhamento das obrigações de bancos locais com credores estrangeiros, incluindo títulos e operações em dólar americano.
  • Operações Intragrupo: Análise das transações financeiras realizadas entre matrizes e filiais de conglomerados bancários internacionais.
  • Exposição a Jurisdições Específicas: Pela primeira vez, dados específicos sobre passivos relacionados às Ilhas Cayman (código 29388) serão publicados, oferecendo uma visão mais clara sobre as operações em um dos principais centros financeiros offshore do mundo.

A introdução dessas métricas representa um avanço para analistas de mercado, reguladores e pesquisadores, que agora dispõem de ferramentas mais robustas para avaliar a saúde financeira do sistema bancário, sua exposição a riscos externos e os padrões de movimentação de capital internacional.

Resenha: "1565 – Enquanto o Brasil Nascia" – Uma História Multifacetada do Rio de Janeiro e do Brasil Colonial

A obra "1565 – Enquanto o Brasil Nascia", de Pedro Doria, transcende a simples narrativa histórica para oferecer um profundo e instigante "exercício de imaginação", conforme o próprio autor descreve. O livro mergulha nas complexas origens do Rio de Janeiro, desvendando não apenas os eventos que culminaram na fundação da cidade, mas também as intrincadas teias de interesses, culturas e personalidades que moldaram o sul do Brasil nos seus dois primeiros séculos de colonização. Pedro Doria, com sua perspicácia jornalística e um olhar atento para os detalhes, reconstrói um período muitas vezes esquecido ou simplificado, conferindo vivacidade a personagens e lugares que definiram a identidade carioca e, por extensão, a brasileira.

O ponto de partida da narrativa é o ano de 1565, marco da fundação do Rio de Janeiro por Estácio de Sá, mas a história se desenrola a partir de um contexto muito mais amplo, que remonta aos primeiros anos do século XVI. Doria habilmente situa o Brasil no tabuleiro geopolítico da Europa e da África da época, explicando por que a terra descoberta por Cabral não era, inicialmente, uma prioridade para Portugal, mais focado nas lucrativas especiarias das Índias. Essa desatenção inicial, paradoxalmente, abriu portas para outros atores, como os franceses, que viram na Guanabara uma oportunidade estratégica e comercial, desencadeando conflitos que seriam decisivos para o futuro da região.

Um dos pilares da obra é a análise da França Antártica, a tentativa francesa de estabelecer uma colônia na Baía de Guanabara sob a liderança de Nicolas Durand de Villegagnon. Doria apresenta Villegagnon como uma figura quixotesca – um homem medieval preso em tempos de Renascença, cuja rigidez e intransigência religiosa, em meio a um cenário de efervescência cultural e conflitos entre católicos e calvinistas, foram cruciais para o fracasso de seu empreendimento. O livro detalha a chegada dos franceses, a construção do Forte Coligny, e os embates internos e externos, incluindo as relações complexas com os tupinambás e a chegada dos calvinistas que buscavam refúgio religioso. A descrição da vida na colônia francesa, com suas privações e conflitos entre europeus e nativos, bem como as tensões religiosas, é particularmente rica e ilustrativa.

Capítulo 2 | Uma fé, uma lei, um rei

“Villegagnon, um homem barbado, nem alto, nem baixo, culto, vaidoso – levou para o Brasil roupas coloridas, uma cor para cada dia da semana – era rígido. Não aceitava mudanças. Conservador.”

A contrapartida portuguesa a essa presença francesa é outro eixo central. Pedro Doria destaca a saga da família Sá, especialmente Mem de Sá, o governador-geral, e seu sobrinho Estácio de Sá, como os grandes artífices da colonização do sul. A obra explora a complexa relação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, revelando que "o Rio, o leitor lerá mais de uma vez nas próximas páginas, nasceu para que São Paulo sobrevivesse." Essa interdependência, permeada por desconfiança mútua e, ao mesmo tempo, por uma irmandade forjada em lutas, é um dos pontos mais interessantes. Os paulistas, com sua vocação bandeirante e uma identidade cultural já distinta, desempenharam um papel fundamental na expulsão dos franceses e na fundação do Rio, consolidando uma herança de "independência anárquica da Coroa" que marcaria ambas as cidades.

A figura dos jesuítas, em particular a de Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, emerge como um elemento catalisador da história. Doria os retrata não apenas como missionários religiosos, mas como hábeis políticos e estrategistas, que, apesar de suas contradições (como a visão de Anchieta de que "a espada e a vara de ferro eram a melhor pregação" para os tupis), foram cruciais para a defesa e a organização da presença portuguesa. Sua mediação com os povos indígenas, como a "Paz de Iperoígue" com os tamoios, é detalhada, mostrando a dificuldade e a brutalidade das guerras indígenas, onde alianças eram fluidas e a própria identidade dos colonizadores se mesclava com a dos nativos.

Capítulo 4 | Águas de março

“O cerco a Piratininga mostra como era complexa a cisão entre os tupis. Enquanto Tibiriçá lutava com os seus ao lado dos portugueses, do outro lado, atacando junto com a turma de Aimberê, estavam Araraig e Jagoanharo, seu irmão e seu sobrinho.”

O livro desmistifica a ideia de uma colonização europeia uníssona, destacando a presença de diversos povos – irlandeses, alemães, italianos – e a complexidade das relações entre portugueses, espanhóis e os próprios nativos. A mestiçagem, não apenas biológica, mas cultural e linguística (com o tupi sendo a língua corrente em muitas casas), é apresentada como um traço fundamental do brasileiro do Sul.

Com o avanço da narrativa, o autor explora a evolução econômica do Brasil colonial. Inicialmente, a exploração do pau-brasil, depois a ascensão da cultura da cana-de-açúcar, que transformou a economia e a paisagem do Nordeste, e, por fim, o papel do Rio de Janeiro como um entreposto crucial no tráfico de escravos africanos para as minas de Potosí, na América espanhola. Doria ilustra como essa "linha de tráfico", lucrativa mas brutal, impulsionou o crescimento do Rio, mesmo que pouco da riqueza gerada fosse reinvestida na cidade. A descrição do sistema de engenhos, dos maus-tratos aos escravos e da exploração econômica revela a dureza da vida colonial.

Capítulo 5 | Com açúcar, com afeto

“A cidade seria inviável economicamente sem os índios.”

A ascensão de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, neto do velho Salvador, é outro ponto de virada. Doria o descreve como um "general europeu" com a alma de um bandeirante, cuja visão geopolítica e ambição o levaram a desempenhar um papel crucial na reconquista de Angola dos holandeses. Essa vitória não só garantiu o fornecimento de escravos, vital para a economia do império, mas também reposicionou o Rio de Janeiro no centro das atenções de Lisboa. No entanto, sua arrogância e os desmandos na administração geraram a "Bernarda", uma revolta popular que, embora efêmera, expôs as tensões entre a elite governante e a população, além das complexas relações entre a Coroa, os jesuítas e os cidadãos.

Capítulo 6 | Por Sá Ganhada

“A Holanda passaria, então, a ser a principal ameaça à América de portugueses e espanhóis. E essa mudança terminaria por tirar o Rio da periferia para lançá-lo no centro da geopolítica mundial.”

Um aspecto particularmente tocante da obra é a maneira como Doria aborda a "amnésia histórica" do Rio de Janeiro. Ao contrastar a falta de marcos e a desmemória carioca com a reverência de outras cidades (como São Paulo, Boston ou Barcelona) por seu passado, ele sublinha a importância de entender as origens da cidade para compreender seus problemas e sua identidade. O autor, que se descreve como um "carioca que gosta (muito) de São Paulo", busca preencher essa lacuna, trazendo à luz as "muitas histórias, lugares e personagens que se encontram" para formar o que o Rio é hoje. A busca pelo "muro do Martim" ou as fundações da "Casa de Pedra" no Flamengo são metáforas poderosas para a redescoberta de um passado enterrado.

A escrita de Pedro Doria é acessível e envolvente, característica de sua formação jornalística. Ele se atém aos fatos, mas os apresenta de uma forma que cativa o leitor, com descrições vívidas e diálogos que, quando presentes, são baseados em registros históricos. O livro não se propõe a ser uma tese acadêmica, mas sim uma crônica bem contada, que convida o leitor a um passeio por um passado distante, mas profundamente relevante. A inclusão de notas detalhadas e referências bibliográficas demonstra o rigor da pesquisa, enquanto o estilo mantém a fluidez e o prazer da leitura.

"1565 – Enquanto o Brasil Nascia" é uma obra essencial para quem busca uma compreensão mais profunda da história do Rio de Janeiro e do Brasil colonial. Ao humanizar seus personagens, contextualizar os eventos e desafiar narrativas simplistas, Pedro Doria oferece uma perspectiva rica e multifacetada sobre a formação de uma das cidades mais emblemáticas do mundo e as raízes da própria nação brasileira. É um convite à reflexão sobre como o passado, com suas contradições e grandezas, continua a ressoar no presente e a moldar o futuro.

 

Se você se interessou por essa fascinante jornada pela história do Brasil, adquira um exemplar de "1565 – Enquanto o Brasil Nascia" pela Amazon, clicando aqui. Comprando através do nosso link, você ajuda o blog a continuar trazendo conteúdo de qualidade!

A Origem da Cidade Solar: Pioneirismo e Evolução da Energia Fotovoltaica Urbana

A busca por fontes de energia limpas e sustentáveis, que hoje domina o debate global, teve seus primeiros capítulos escritos há décadas. Embora a imagem de uma cidade inteiramente alimentada pelo sol pareça uma aspiração moderna, a jornada para alcançá-la começou com projetos ambiciosos que testaram os limites da tecnologia e do planejamento urbano. Identificar a "primeira" cidade a usar energia solar é uma tarefa complexa, pois a resposta depende da definição: estamos falando da primeira usina de grande porte a abastecer uma rede elétrica ou da primeira comunidade a integrar sistematicamente a energia solar em seu tecido urbano?

O Pioneirismo em Larga Escala: O Projeto Solar One

O marco mais significativo para o uso de energia solar em grande escala foi o Projeto Solar One, localizado no Deserto de Mojave, em Daggett, Califórnia. Operando de 1982 a 1986, não era uma cidade em si, mas a primeira usina de energia solar térmica de grande porte do mundo a fornecer eletricidade com sucesso a uma rede comercial.

Utilizando a tecnologia de energia solar concentrada (CSP), o projeto contava com 1.818 helióstatos (grandes espelhos) que rastreavam o sol e refletiam seus raios para uma torre central. O calor gerado aquecia a água, produzindo vapor que movimentava uma turbina, gerando até 10 megawatts de eletricidade. Embora fosse um projeto piloto e experimental, o Solar One provou a viabilidade de gerar energia em escala de serviço público a partir do sol. Seu legado foi fundamental, pois forneceu dados operacionais e técnicos que pavimentaram o caminho para usinas solares subsequentes em todo o mundo, demonstrando que a energia solar poderia ser mais do que apenas uma solução para aplicações de pequena escala e fora da rede.

A Integração Urbana e o Modelo Europeu: Freiburg, a "Capital Solar"

Se o Solar One foi o pioneiro tecnológico, a cidade de Freiburg im Breisgau, na Alemanha, foi a pioneira em planejamento urbano e social. Após os fortes protestos antinucleares da década de 1970, a cidade embarcou em uma jornada para se tornar um modelo de sustentabilidade. A partir da década de 1980, Freiburg começou a implementar políticas progressistas que incentivavam massivamente o uso de energia solar.

A cidade não construiu uma única usina gigante, mas adotou uma abordagem descentralizada e integrada:

  • Incentivos Financeiros: Foram criados subsídios e tarifas feed-in (que remuneram quem gera e injeta energia na rede) para cidadãos e empresas que instalassem painéis fotovoltaicos.
  • Padrões de Construção: Freiburg tornou-se líder em padrões de construção de baixo consumo energético, como as "Passivhaus" (casas passivas) e "Plus-Energy" (edifícios que geram mais energia do que consomem).
  • Distrito de Vauban: Este bairro, construído em uma antiga base militar francesa, é o exemplo máximo da filosofia da cidade. Projetado desde o início para ser um modelo de vida sustentável, quase todas as suas residências possuem painéis solares, sistemas de aquecimento solar de água e um design que maximiza a eficiência energética.

Freiburg demonstrou que uma cidade existente poderia se transformar, integrando a energia renovável em sua identidade, economia e na vida cotidiana de seus habitantes. Por essa razão, é frequentemente citada como a primeira "cidade solar" no sentido de um compromisso comunitário e político abrangente.

Conclusão: Uma Evolução Contínua

A resposta para qual foi a primeira cidade a usar energia solar não é única. O Projeto Solar One foi o precursor da geração em escala industrial, provando que era possível alimentar a rede elétrica com o sol. Por outro lado, Freiburg foi a pioneira na integração social e urbana, mostrando como uma comunidade inteira poderia abraçar a energia solar como parte fundamental de seu desenvolvimento.

Esses pioneiros abriram caminho para os projetos modernos, como Babcock Ranch na Flórida, anunciada como a "primeira cidade solar da América", e Masdar City nos Emirados Árabes Unidos. O que começou como um experimento no deserto e uma visão política na Europa evoluiu para um componente essencial do futuro das cidades em todo o mundo.

 

Referências Bibliográficas

BELLOW, A. First the Seed: The Political and Social History of the Green City. Cambridge: MIT Press, 2009.

SMIL, V. Energy and Civilization: A History. Cambridge: The MIT Press, 2017.

U.S. DEPARTMENT OF ENERGY. Solar Two: A Pioneering Solar Power Tower. Washington, D.C.: National Renewable Energy Laboratory (NREL), 1999. Disponível em: https://docs.nrel.gov/docs/legosti/fy97/22835.pdf. Acesso em: 29 set. 2025.